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188. Reflexão para 1º Domingo do Advento – Mc 13,33-37 (Ano B)

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28.11.2020 | 9 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
188. Reflexão para 1º Domingo do Advento  – Mc 13,33-37 (Ano B)
Neste domingo – o primeiro do advento – a Igreja inicia um novo ano litúrgico, convidando-nos, mais uma vez, a percorrer o caminho de Jesus Cristo, contemplando o mistério da sua vida, desde o nascimento até a ressurreição e ascensão. O tempo do advento, iniciado hoje, é a primeira etapa desse itinerário catequético-espiritual. O termo advento (adventus em latim) significa “visita”, “chegada” ou “vinda”; possui o mesmo significado do termo grego parusia (παρουσία). Fazia parte do vocabulário das religiões pagãs no império romano, sendo usado em referência às supostas visitas das divindades aos seus respectivos templos, e no âmbito civil era usado para designar as visitas de funcionários ilustres e dos imperadores às cidades e províncias do império. Por volta do século IV, o cristianismo absorveu a palavra advento, passando a utilizá-la no contexto do natal, a visita de Deus ao mundo, por excelência, uma vez que já estava consolidado o uso termo grego “parusia” para designar a segunda vinda de Cristo. Como o próprio termo evoca, uma visita especial é sempre motivo de esperanças e expectativas, e essa é uma das características principais do tempo do advento.

Com o início do novo ano litúrgico, iniciamos também a leitura do Evangelho segundo Marcos, porém, não do seu início, mas do seu final, precisamente do discurso escatológico. Por isso, o texto proposto para hoje é Mc 13,33-37. O discurso escatológico, que pertence ao gênero literário apocalíptico, está presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), e trata das realidades últimas e finais da história, antecedendo as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A princípio, parece até contraditório que a preparação para o natal seja iniciada com palavras sobre as realidades últimas. Porém, é necessário compreender o advento como uma oportunidade de preparação para a vinda constante do Senhor na vida de cada pessoa, tornando essa vinda uma presença contínua, ao invés de apenas alimentar uma expectativa futurista e preparar para uma única data ou evento. É importante também perceber a continuidade do tempo: como nos últimos domingos do ano litúrgico anterior refletimos, a partir do discurso escatológico de Mateus, o tema da vigilância, é também com esse tema que abrimos o novo ano.

O trecho lido na liturgia de hoje contém as últimas palavras de Jesus antes do relato da paixão, conforme a estrutura do Evangelho de Marcos. É necessário fazer uma pequena contextualização para uma compreensão mais adequada dele. Jesus se encontrava em Jerusalém, vivendo a última fase do seu ministério; ao sair do templo, os discípulos expressaram admiração a respeito da magnitude daquela grande construção. À essa admiração, Jesus respondeu que dali não restaria pedra sobre pedra. Diante dessa resposta, os quatro primeiros discípulos chamados ao seguimento – Pedro e André, Tiago e João – lhe perguntaram à parte sobre quando e como estas coisas aconteceriam (Mc 13,1-4). A resposta de Jesus associa estes acontecimentos à sua vinda gloriosa, sem fornecer nenhuma indicação de tempo. O evangelho de hoje é a conclusão dessa resposta. Ainda a nível de contexto, é necessário recordar o versículo que precede de imediato o nosso texto: “Ora, a respeito daquele dia ou hora, ninguém sabe, nem os anjos no céu, nem o Filho, mas somente o Pai” (Mc 13,32). Ora, passados alguns anos após a ressurreição de Jesus, os cristãos começaram a inquietar-se, pois esperavam com muita ânsia pela segunda vinda do Senhor e, como essa não acontecia, muitos desanimavam, sobretudo quando começaram as perseguições. Por isso, explorou-se bastante a pregação sobre a imprevisibilidade dessa vinda, enfatizando que o importante é manter vivo o espírito de vigilância, sem preocupação com o dia ou a hora, o que se reflete nos Evangelhos e em outros textos do Novo Testamento.

Passada a contextualização, olhemos para o texto da liturgia de hoje, começando pelo primeiro versículo: “Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento” (v. 33). Como se vê, o texto começa com uma advertência; uma chamada de atenção tendo em vista a imprevisibilidade da segunda vinda do Senhor. Infelizmente, a tradução litúrgica não consegue exprimir tão bem essa chamada de atenção, sobretudo na primeira parte do versículo. Ao invés de “Cuidado! ficai atentos”, seria mais adequado “abri os olhos! Vigiai!”. Por sinal, a palavra-chave do texto de hoje é o verbo vigiar, o qual é empregado quatro vezes (vv. 33. 34. 35. 37). Diante da indefinição do momento, não há outra saída para a comunidade a não ser a vigilância. Essa vigilância consiste no empenho dos cristãos em transformar o mundo com a força maior do Evangelho: o amor. Esse versículo prepara o leitor/ouvinte para a pequena parábola que vem a seguir, mostrando como deve ser feita essa vigilância.

Na continuação do texto, temos uma pequena e rica parábola que ilustra a necessidade da vigilância: “É como um homem que, ao viajar para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um, sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando” (v. 34). Com apenas um versículo Marcos consegue contar uma parábola extraordinária, o que revela suas qualidades de bom narrador. Mateus e Lucas tomaram essa parábola e ampliaram, construindo, cada um à sua maneira, parábolas maiores: a parábola dos talentos (Mt 25,14-30), e a parábola das minas (Lc 19,11-28), respectivamente. A partida do homem para o estrangeiro equivale ao intervalo temporal entre a ascensão e a tão esperada, porém desconhecida, segunda vinda do Senhor. É um tempo indeterminado, mas é o tempo oportuno para a edificação do Reino. O evangelista quer ensinar à sua comunidade que, ao invés de preocupar-se com questões relativas ao tempo em que o Senhor virá, o importante é trabalhar para a sua mensagem manter-se viva e atuante na vida das pessoas, uma vez que ele nunca se ausenta da comunidade que não deixa de viver o amor. Para isso, é importante que cada membro da comunidade se sinta responsável, como servo bom e fiel, pelo bem-estar da casa.

É importante o uso da imagem da casa; é sinal de universalidade e, ao mesmo tempo, das pequenas comunidades, ao contrário da vinha, por exemplo, imagem exclusivista para designar o povo de Israel. Nas versões de Mateus e de Lucas, o dono da casa é substituído por um homem rico que viaja e deixa grandes fortunas (talentos e minas) para seus servos administrarem. Um dono de casa significa uma pessoa mais acessível e íntima, que conhece cada detalhe do funcionamento da casa. Por isso, é uma imagem que se aproxima mais da pessoa de Jesus. E Marcos é o evangelista que mais valoriza a casa como imagem da comunidade cristã, apresentando-a como sinônimo de fraternidade e comunhão, como um espaço onde todas as pessoas se conhecem reciprocamente e vivem relações sinceras e fraternas. Na casa, enquanto família, todos os membros têm a responsabilidade de não deixar faltar o amor e a concórdia, bem como o pão material, o que também é essencial. Das responsabilidades com a casa, merece destaque a figura do porteiro, que evoca o cuidado com todos, a proteção e a inclusão. Por isso, todos devem sentir-se também porteiros da casa, protegendo os que já estão dentro e abrindo a porta para todos que querem fazer parte da casa, que é a comunidade, embrião do Reino de Deus.

Tendo em vista o sentido da casa, Jesus insiste para que seus discípulas e discípulas de todos os tempos vivam intensamente a fraternidade; que a humanidade seja uma grande família, sem exclusões e nenhum tipo de preconceitos. O perigo de esfriamento na vivência da fé e o consequente enfraquecimento da fraternidade era tão grande, a ponto de ser necessário insistir no imperativo “vigiai”. Assim, prossegue o texto: “Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer” (v. 35). Sendo o Senhor o dono da casa, aos servos compete apenas vigiar, o que significa assumir a missão com responsabilidade. Porém, é necessário ressaltar, mais uma vez, a natureza dessa vigilância tão cara ao Senhor: não se trata de busca por segurança ou conforto e nem de longas vigílias de oração, mas simplesmente de manter o Evangelho vivo e atuante. E todos as pessoas têm essa responsabilidade. A comunidade vigilante é aquela na qual os sinais do Reino predominam: amor e justiça em abundância. Onde esses valores abundam, o que menos tem importância é o tempo. Inclusive, quanto mais tardar o Senhor, mais frutos a casa/comunidade terá gerado; por isso, os cristãos e cristãs só pode ter pressa em uma coisa: em fazer o bem!

O motivo da vigilância é muito claro: “Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo” (v. 36). É claro que o texto não se refere ao dormir como a necessidade natural do ser humano, pois dessa ninguém pode privar-se, mas como a indiferença e a omissão em relação aos valores do Evangelho. Nesse caso, dormir significa deixar de praticar a mensagem de Jesus Cristo, é abandonar seu ensinamento. Por isso, o convite é novamente reforçado e, agora, com a sua dimensão universal ainda mais explícita: “O que vos digo, digo a todos: Vigiai!” (v. 37). Todos da comunidade, e em todos os tempos, são convocados à vigilância que é a prática do amor. As recomendações feitas aos discípulos de primeira chamada, interlocutores diretos de Jesus no contexto narrativo do discurso escatológico, são válidas para os cristãos e cristãs de todos os tempos. Isso reforça ainda mais a necessidade de criarmos intimidade com a Palavra de Deus, especialmente com os evangelhos. O que Jesus disse outrora, continua dizendo hoje. O que ele pediu aos quatro primeiros discípulos, pede aos cristãos e cristãs de todos os tempos.

Portanto, não importa quando o Senhor virá pela segunda vez. Procuremos celebrar a sua primeira vinda, ou seja, o natal, como certeza de que Ele já veio e conosco está; porém, sua presença constante não será percebida enquanto não assumirmos a nossa responsabilidade na casa que Ele nos confiou: a família, a comunidade, o universo como “casa comum”. Para celebrarmos bem a certeza de que Ele já veio, só nos resta nos mantermos acordados, ou seja, praticando o amor, acima de tudo.