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186. Reflexão para o 33º Domingo do Tempo Comum – Mt 25,14-30 (Ano A)

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14.11.2020 | 10 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
186. Reflexão para o  33º Domingo do Tempo Comum – Mt 25,14-30 (Ano A)
Neste trigésimo terceiro domingo do tempo comum, o penúltimo do ano litúrgico, a liturgia continua a leitura do discurso escatológico de Jesus no Evangelho segundo Mateus. O trecho lido hoje – Mt 25,14-30 – corresponde à chamada “parábola dos talentos”. Não se trata de um material exclusivo de Mateus, pois possui uma versão paralela em Lucas, a chamada “parábola das minas” (Lc 19,11-27) e uma breve alusão em Marcos (Mc 13,34). Porém, a versão de Mateus é carregada de particularidades, fruto da criatividade do evangelista e consequência das necessidades da sua comunidade. Nessa parábola, continua em evidência o tema da vigilância, embora de maneira menos explícita do que na parábola das dez virgens (Mt 25,1-13), lida no domingo passado. É considerada uma das parábolas mais complexas e difíceis de Mateus, sendo bastante passível de distorção em sua interpretação, pois, à primeira vista, poderia ser considerada como um incentivo à meritocracia, à cultura do acúmulo e até mesmo como justificativa para legitimar as desigualdades sociais. Por isso, é importante que seja bem interpretada, levando-se bastante em consideração o seu contexto.

Localizada estrategicamente entre a parábola das dez virgens (Mt 25,1-13) e a cena do julgamento final (Mt 25,31-46), essa parábola tem um significado muito relevante para o conjunto do Evangelho de Mateus e, portanto, seu ensinamento é de fundamental importância para o bem da comunidade cristã em todos os tempos. Na época da redação do seu Evangelho, a comunidade de Mateus vivia um momento de crises, provocadas por fatores externos e internos. A principal crise, sem dúvidas, girava em torno da fé, com um certo relaxamento e desânimo na vivência das bem-aventuranças, núcleo central da mensagem cristã. Ora, esperava-se um retorno imediato do Senhor, pois as pregações alimentavam isso; como não acontecia, muitos cristãos começavam a desanimar, abandonando a fé ou vivendo-a de modo indiferente e superficial. Com essa parábola, o evangelista quis animar a comunidade, mostrando que o tempo de espera não é perdido; pelo contrário, é o tempo oportuno para a comunidade fazer crescer e multiplicar os dons que o Senhor lhe confiou. Logo, a parábola é um incentivo à perseverança e um convite à mudança de foco durante o tempo da espera: ao invés de preocupar-se com a vinda do Senhor propriamente, a comunidade deve preocupar-se em realizar cotidianamente a sua vontade, vivendo segundo o amor e a justiça, a síntese das bem-aventuranças.  

Olhemos, então, para o texto: “Um homem ia viajar para o estrangeiro. Chamou seus empregados e lhes entregou seus bens. A um deu cinco talentos, a outro deu dois, e ao terceiro, um; a cada um de acordo com a sua capacidade. Em seguida viajou” (vv. 14-15). Antes de tudo, recordemos que parábola é um gênero literário que apresenta uma mensagem por meio de comparação. Logo, é com essa imagem apresentada que o evangelista compara a situação da sua comunidade enquanto espera pelo retorno do Senhor. Embora o texto litúrgico empregue a palavra empregados, o correto seria servos, por corresponder melhor ao termo empregado pelo evangelista na lingua original (em grego: δούλος - dúlos). A palavra servo, na Bíblia, não significa apenas o escravo, mas alguém que tem parte na obra, uma pessoa que goza de plena confiança do dono da obra ou propriedade, como nesta parábola. E assim são todos os cristãos e cristãs na edificação do Reino de Deus e na preservação de toda a obra da criação. O homem viaja, mas não se ausenta, pois continua presente, de modo implícito, nos bens confiados aos servos. Também o Senhor ressuscitado não se ausentou da comunidade; continua presente à medida em que seus seguidores são capazes de fazer o seu projeto se desenvolver, cultivando e multiplicando os dons que lhes foram confiados, e abertos ao Espírito Santo.

Embora distribuídos em quantidades diferenciadas, a parábola mostra que ninguém ficou desprovido de bens; cada um recebeu os talentos de acordo com a sua capacidade. Esse detalhe é muito importante para o evangelista. Se todos recebem, todos tem algo a partilhar, a trabalhar e fazer frutificar. A quantidade diferenciada de bens recebidos por cada um pode ser uma alusão à diversidade de dons e carismas existentes na comunidade. Os talentos não são emprestados, são entregues, verdadeiramente doados, fazendo pressupor que as pessoas têm liberdade para gerenciá-los cada um à sua maneira, embora não estejam isentas de responder pelas consequências. Talento (em grego: τάλαντον – talanton)  era uma medida de peso usada para pesar metais preciosos como ouro e prata, na antiguidade. Quando o talento deixou de ser usado como medida, e graças à intepretações desta parábola, a palavra se universalizou como sinônimo de capacidade pessoal e aptidão. Um talento equivalia a aproximadamente trinta quilos de ouro, o que correspondia a seis mil denários; e um denário era o salário de um dia de trabalho braçal (Mt 20,2). É claro que havia pequenas variações de uma cultura para outra, em relação às medidas e valores. Mas é certo que um talento, em qualquer lugar, tinha um grande valor. Por isso, até mesmo aquele recebeu apenas um, ainda recebeu uma grande fortuna. Isso significa a benevolência e liberalidade do Senhor, bem como a perenidade dos bens que ele doa à comunidade.

Ao receber os talentos ou dons, cada um é livre para usá-los como quiser. A viagem do dono evoca a liberdade dada àqueles que receberam os talentos para usá-los. Como o dono não estava presente para vigiar os servos, eles poderiam multiplicar, extraviar ou apenas conservar os talentos recebidos. A parábola diz qual foi a atitude de cada um: “o que havia recebido cinco talentos saiu logo, trabalhou com eles, e lucrou outros cinco. Do mesmo modo o que recebeu dois lucrou outros dois. Mas aquele que havia recebido um só, saiu, cavou um buraco na terra, e escondeu o dinheiro do seu patrão” (vv. 16-18). Os dois primeiros servos trabalharam até duplicarem o que haviam recebido. Embora o texto não indique como eles fizeram isso, o certo é que não ficaram parados, nem tiveram medo; foram ousados e criativos. O terceiro, simplesmente pensou na conservação; escondendo o talento por medo, o conservou de modo íntegro e fiel.

A aparente ausência do Senhor  pode levar os membros da comunidade a diferentes posturas: para uns, é oportunidade de crescimento, para outros é motivo de medo e insegurança. A comunidade de Mateus vivia esse drama: o que fazer enquanto o Senhor não retornava? O evangelista aconselha que cada um desenvolva os dons recebidos, procurem multiplicar, transformando as realidades com amor e justiça. O Senhor nunca se ausentou; deixou seus dons como forma de continuar presente e operante. Desse modo, o convite à vigilância não visa um momento final específico, mas uma vida toda vigilante, praticando o amor e a justiça, ou seja, vivendo segundo a dinâmica das bem-aventuranças. A liberdade de cada um no uso dos talentos não os isenta da responsabilidade, pelo contrário. Por isso, diz o texto que “depois de muito tempo, o patrão voltou e foi acertar as contas com  os empregados” (v. 19). Ora, se os talentos entregues aos servos equivalem aos dons confiados aos membros da comunidade para a sua edificação, é justo que o Senhor se interesse pelo uso que cada um fez deles. Na comunidade não pode haver individualismo, indiferença nem omissão. O que pertence a um é interesse de todos.

Quem recebeu dons e não os fez frutificar, colocando-os a serviço dos demais, obviamente, não está apto a integrar a comunidade. É esse o sentido do acerto de contas mencionado na parábola. O Senhor quer saber o que fazemos com o seu Evangelho a nós confiado. Quem multiplicou os talentos, gerou vida, edificou o Reino. Quem o manteve intacto como recebeu, foi omisso, cruzou os braços; na comunidade cristã, responsável pela edificação do Reino, não há espaço para pessoas assim. Os servos que souberam colocar os dons a serviço da comunidade, multiplicando-os, ou seja, fazendo-os frutificar, são tratados, em tom de elogio (v. 23), como “bom e fiel” (em grego: ἀγαθὲ καὶ πιστέ – agathé kai pisté). Embora o texto não descreva o que estes servos fizeram precisamente, o certo é que agiram, não ficaram acomodados. O Senhor quer que os dons confiados sejam usados em prol da justiça e do amor, tornando o mundo mais humanizado e parecido com o Reino. Não se trata de um convite ao acúmulo, o que seria contrário à lógica do Reino. É uma mensagem de esperança e perseverança, um convite a perder o medo e arriscar tudo, inclusive a vida, para que as sementes do Reino se multipliquem.

Ao contrário dos dois primeiros servos, o terceiro foi repreendido (v. 26) como “mau e preguiçoso” (em grego: πονηρὲ καὶ ὀκνηρέ – poneré kai okneré). É interessante que o texto não menciona nenhuma ação malvada desse servo; pelo contrário, menciona sua precaução em não estragar o talento recebido, o que poderia render-lhe um reconhecimento de prudente. Ora, na lógica do Reino, lógica que a comunidade cristã deve assumir, não basta cometer delitos para ser tratado como mal: basta ser omisso, indiferente e medroso. Não basta não fazer o que é mal, basta deixar de fazer o bem para ficar fora da comunidade e, consequentemente, do Reino. O medo paralisa a comunidade e impede a instauração do Reino. De todos os medos, o mais perigoso é o medo de mudança. É esse medo que leva muitos grupos e movimentos a simplesmente conservarem rigidamente certas tradições, ignorando a ação criativa e constante do Espírito Santo.

Podemos, finalmente, identificar o sentido da vigilância nessa parábola: a autêntica vigilância não é espera passiva, mas é atitude, é serviço em prol do Reino, através da multiplicação dos dons confiados pelo Senhor à comunidade. Quem pensa apenas em conservar a doutrina, os costumes e tradições, trai a confiança depositada pelo Senhor. O Reino exige decisão, ousadia, criatividade e liberdade para o uso dos dons recebidos. Ser vigilante é, portanto, não ter medo de arriscar, é colocar-se a serviço da comunidade, expondo os dons recebidos, mesmo correndo riscos. Uma vez que os talentos não foram confiados para serem conservados, mas para frutificarem, a atitude do dono é completamente compreensível: “tirar do que tem pouco para dar ao que tem muito” (v. 28). Ora, o que já tinha dez talentos, passando a onze, poderá fazer multiplicar cada vez mais, e quem mais ganhará com isso será a comunidade, ou seja, o Reino. Com essa afirmação “a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas aquele que não tem, até o pouco que tem lhe será tirado” (v. 29), o evangelho não propõe a perpetuação das desigualdades, mas está acentuando a natureza da comunidade cristã: só pode participar dela quem faz frutificar e multiplica o que lhe foi confiado. Quem recebe o dom e o retém somente para si, não pode entrar em um projeto de vida comunitário como o Reino de Deus.

O destino final de quem se auto excluiu da comunidade enfatiza a privação total de vida e amor: “choro e ranger de dentes” (v. 30). Essa expressão significa o grau máximo de desespero para um ser humano, equivalente a uma vida privada de sentido. Isso não é castigo, mas consequência. De fato, é sem sentido a vida de quem não vive a lógica das bem-aventuranças. Viver para si é um mal. No Reino, só vive quem sabe viver a serviço do bem de todos; só se vive assim com coragem e amor!