12. Um bebê e um defunto

Solange
Maria do Carmo
Padre
Geraldo Orione de Assis Silva
Certa vez, numa cidadezinha do interior, morreu um distinto senhor. Um velório é sempre uma situação de constrangimento. Quem é parente do morto chora. E quem não quer chorar fica procurando um ponto para fixar os olhos ou fica revirando a memória, procurando algo pra falar: algo que não seja engraçado, pois a hora é de tristeza; algo que não seja tão triste, pois basta a tristeza da morte. Não se pode chamar a atenção, nem se pode ficar escondido. Não se pode rir e talvez também não se deva chorar. É uma situação difícil. Em suma, não se tem o que dizer.
Pois bem! Nesse clima pesado, entra na sala uma jovem com o filhinho nos braços. O jovem mocinho estava na dura fase em que as crianças resolvem descobrir o mundo, nos seus mínimos detalhes. Entrou solene no colo da mãe, sorridente, na certeza de que ali havia um universo a ser descoberto. A jovem mãe distribuía rápidos sorrisos aos quatro cantos da sala, doida para mostrar a todos a esperteza de seu principezinho que trazia ao colo. Nunca encontrara plateia tão atenta e predisposta.
Num cenário em que qualquer mosquito chamava a atenção, soou estrondosa a entrada dos dois. Tão logo foi entrando, a criança avistou na parede uns quadros de santos. De um lado, o “Coração de Jesus”. Do outro, o “Coração de Maria”. E entre ambos uma pomba grande, no meio de umas flores, representando o Espírito Santo.
A mãe, contente com o achado, atraía os olhares para si, preparando-se para exibir a vastidão dos conhecimentos religiosos de seu pequeno sábio. E, cheia de vaidade, arriscou: “Que é que o neném tá vendo naquele quadro?”, perguntou a mãe apontando para a imagem do “Coração de Jesus”. A criança de pronto respondeu: “Papai do Céu!” A mãe retornou: “E do outro lado?”. A criança estava com a resposta pronta: “Mamãe do Céu!” Todos vibravam com a majestade daquele bebê sabido. Animada, a mãe voltou à carga e mandou bala: “E ali no meio, entre Mamãe do Céu e Papai do Céu, que é que o neném tá vendo?” A criança fez cara de gaiata e não querendo se dar por achada, soltou de uma vez: “É a cocó botando no ninho!” Foi uma debandada geral. Como não se podia rir ali diante do morto, as pessoas saíram da sala às pressas sufocando o riso, e foram gargalhar gostoso nos quartos e na rua – pois o riso é mais gostoso na razão inversa de sua conveniência. Quem tivesse ficado na sala teria notado que o próprio defunto, na sua frieza cadavérica, mal podia controlar seu constrangimento. E ria-se, no íntimo, satisfeito.
Por isso, busque conhecer a sua fé e fique firme, sem desanimar...
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