48. Falando feito maritaca

Padre Geraldo Orione de Assis Silva
Certo dia, uma distinta senhora, muito falante, viajava para o exterior. Não era uma viagem para o outro lado do mundo, mas eram horas dentro de um avião, sem conhecer ninguém, sem ter ninguém para conversar. E se tem uma coisa da qual ela gostava era de falar. Falar, falar, falar e falar. Até lhe deram o apelido de Maria Maritaca, pois Maria falava mais que um bando dessas aves em revoada.
Maria Maritaca estava apavorada. Viajar sozinha? O silêncio lhe castigava. Só de pensar em ficar horas a fio sem ter com quem conversar, já entrava em pânico. Realmente, era algo desanimador!
Tendo feito o embarque, a boa senhora sentou-se em sua poltrona, ajeitou o cinto e já começou a sofrer. O avião já quase fechava as portas e ela estava sozinha, sem companhia para um bom papo. A cadeira ao seu lado continuava vazia.
Foi bem na hora de encerrar o embarque que apareceu um distinto senhor e se sentou ao seu lado. A alegria foi tanta que Maria Maritaca foi logo puxando conversa. Falou bom dia e depois desfiou um rosário de aleluias dizendo ao pobre senhor da alegria de sua companhia. O bom senhor olhava, fazia caras e bocas, arrancava um sorriso das entranhas e tentava mostrar simpatia... Maria falando. O senhor ameaçava falar meia dúzia de palavras, mas Maria não dava tempo, emendando um relato a outro sem sequer tomar fôlego. E de novo o senhor tentava esboçar algo, mas o fracasso era inevitável. Maria só sabia falar e falar e falar, gesticulando e pedindo a anuência de seu interlocutor.
E assim foi durante toda a viagem. Maria estava feliz. Fizera um amigo – pensou ela -; eles haviam conversado toda a viagem e ela nem viu o tempo passar. Foi quando estavam para aterrissar que Maria, aliviada do medo do silêncio, suspirou e disse: “Senhor, não me disse seu nome”. E pobre homem, suspirando cansado, disse: “Como? Mim não comprander. Mim estrangeiro e non falar sua língua! Pardon!”. Maria falara sozinha, a viagem toda!
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