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90. Anuncio, denuncio ou renuncio?

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21.06.2016 | 4 minutos de leitura
Leandro Narduzzo
Crônicas
90. Anuncio, denuncio ou renuncio?

“Quem põe a mão no arado e olha para trás,

não está apto para o Reino de Deus”
(Lc 9,62)



Tempo de rever a lida,

De semear e cuidar,

Tempo de espera...

De amar e florescer...

(Marcelle Durães)



Quem trabalha na produção sabe da angústia própria desse primeiro momento em que tudo está para ser feito e não há nada ainda. E aqueles que fazem trabalho manual conhecem, ademais, o esforço e o cansaço físicos, quando não os danos que podem sofrer na labuta. O Reino de Deus é, quase sempre, comparado com trabalhos manuais, artesanais, onde temos que tocar, fazer força, mexer com a terra para, depois, esperar, ter paciência, cuidar de algo que cresce com autonomia, em seu próprio tempo. É sempre um trabalho escolhido, querido, desejado. Mas é, também, um esforço contínuo e um exercício que se faz com calma, paciência e, sobretudo, esperança.


Poucas coisas são tão motivadoras para o anúncio como esse primeiro fascínio que experimentamos do Ressuscitado sobre nossa vida. Ficamos apaixonados e nos sentimos como que arrastados a anunciar Jesus por todo lugar e para toda pessoa. Mas o tempo passa e, nem todo mundo – poder-se-ia dizer ninguém – consegue conservar essa primeira paixão. A fé começa a ser provada. E, então, o nosso anúncio e a construção do reino, que outrora nos pareciam o máximo, perdem o sabor, ficam indigestos, cansativos demais e pouco produtivos. Se, nesse tempo, não conseguirmos enxergar Jesus como inspiração e horizonte de nosso esforço, e se não contarmos com a parceria de uma comunidade formada e acolhedora, o anúncio poderá perder sentido. A experiência feita parecerá ilusão e sobrevirá a vontade de renunciar. Mas o Senhor não apaga o pavio fumegante (cf. Is 42,3).


Outras pessoas conseguem entender que a paixão inicial passa e que a vida também é peleja. E, em muitos casos, continuam se esforçando, mas sem renovar a experiência do amor de Deus. Não nos referimos somente à oração, mas também à vivência da fé em comunidade, na partilha fraterna do que temos de bom para dar e receber. Se a oração é fria, pouca ou nula, e se a vida comunitária é só formal, superficial e funcional, as nossas convicções podem se tornar ideologia, luta e briga contra estruturas, denúncia, mas só uma denúncia destrutiva, sem aporte, sem nada de amor para dar e anunciar. Contudo, o Senhor pode fazer que até os corações de pedra se tornem anunciadores (cf. Ez 36,26).


O encontro com o Ressuscitado, o verdadeiro encontro na profundeza de nosso coração, descobre e abre uma fonte que nos impulsiona e nos faz viver, pensar, decidir e nos relacionar com uma ternura que brota desde dentro, inesgotável. À medida que essa experiência não fica só no primeiro fascínio, ela se torna anúncio. À medida que se torna experiência no sentido de encontro assíduo e de uma existência vivida no aprofundamento, no mergulho na Palavra, na docilidade amorosa ao Espírito, na prática dos valores descobertos, tal experiência torna-se Boa Nova, palavra de ânimo, abraço de amigo, cireneu companheiro na hora da dor. O esforço e o sofrimento existem, mas plenos de sentido. E, então, nossa vida, arada pela mão paciente de Deus, transparecerá o amor, a paz, a alegria de quem se sabe salvo, amado, perdoado, se fará difusiva e se lançará sempre mais ao anúncio, com força nova e criatividade revigorada. Tornar-nos-emos anunciadores entusiasmados, porém pacientes e esperançosos, conscientes de que, depois e através de fadigas, fraquezas e fracassos, um dia seremos, por pura graça de Deus, comunidade fraterna a exemplo da Trindade.





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