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8. O precursor (Mt 3,1-12)

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24.09.2014 | 13 minutos de leitura
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Curso Bíblico
8. O precursor (Mt 3,1-12)

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1 Naqueles dias, apresentou-se João Batista, no deserto da Judéia, proclamando:
2 “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo”.
3 É dele que falou o profeta Isaías: “Voz de quem clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as veredas para ele”.
4 A veste de João era feita de pelos de camelo, e ele usava um cinto de couro à cintura; o seu alimento era gafanhotos e mel silvestre.
5 Então Jerusalém, toda a Judéia e toda a região do Jordão saíam à sua procura
6 e, confessando os seus pecados, eram por ele batizados no rio Jordão.
7 Quando viu que muitos dentre os fariseus e os saduceus vinham para o batismo, João lhes disse: “Víboras que sois, quem vos ensinou a fugir da ira que está para chegar?
8 Produzi fruto que mostre vossa conversão.
9 Não penseis que basta dizer: “Nosso pai é Abraão”, pois eu vos digo: destas pedras Deus pode suscitar filhos para Abraão.
10 O machado já está posto à raiz das árvores. Toda árvore que não der bom fruto será cortada e jogada ao fogo.
11 Eu vos batizo com água, para a conversão. Mas aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu. Eu não sou digno nem de levar suas sandálias. Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. 12 Ele traz a pá em sua mão e vai limpar sua eira: o trigo, ele o guardará no celeiro, mas a palha, ele a queimará num fogo que não se apaga”.

Situando


Uma vez revelada, no “Evangelho da infância” (cf. Mt 1–2), a identidade de Jesus e o sentido do seu destino, Mateus retoma o esquema da pregação apostólica, que deslanchava precisamente à beira do rio Jordão, no começo da vida pública do Senhor (cf. Mc 1,2; At 1,21-22; 10,37; 13,24). Inicia-se assim o primeiro dos cinco livrinhos que, assemelhando-se à Torah (Pentateuco), conformam o miolo do relato mateano. Cada livrinho – vale a pena lembrar – possui duas partes: uma narrativa e outra discursiva (cf. estudo 3). Nesta primeira parte (cf. Mt 3–4), que prepara o grande discurso inaugural – o célebre Sermão da Montanha (cf. Mt 5–7) –, narram-se os inícios da atividade pública do Mestre.


O Reino está próximo


Mateus abre o capítulo terceiro com “Naqueles dias” (v.1). A expressão, embora imprecisa, situa a cena no chão da história, ou melhor, num momento histórico indeterminado. “Apresentou-se João Batista”: a atividade característica de João – batizar – só é mencionada no v. 6, mas Mateus o apresenta, logo no começo, como “o Batista”. O deserto da Judeia constitui o cenário da sua ação. Mais do que um lugar distante e arenoso, trata-se de um lugar solitário, isolado das cidades, aldeias e povoados. E, mais do que um lugar geográfico, trata-se de um lugar bíblico-teológico: ao deserto foi chamado, no tempo primordial, o povo nascente, para ser seduzido, instruído e conduzido pelo Senhor; lá foi provado (cf. Dt 8,2; Os 2,16). João aparece no deserto “proclamando”. O verbo proclamar designava a atividade própria dos arautos do rei e, a mensagem por eles anunciada, recebia o nome de kerygma, que, nos tempos apostólicos, passou a significar o conteúdo central da fé cristã: a vida, paixão, morte e ressurreição do Senhor.


O v. 2 explicita o conteúdo do kerygma anunciado pelo Batista: “Convertei-vos, pois o Reino dos Céus está próximo”. João prega o “arrependimento” (metanoia) e não propriamente a “conversão” (epistrophe), como costuma traduzir-se, imprecisamente, o termo grego original. A “conversão” designa o retorno ao Deus da Aliança, que, na perspectiva dos Evangelhos, acontece pela adesão existencial, através da fé, à pessoa de Jesus. Já o “arrependimento” consiste em reconsiderar a própria vida, ou seja, em avaliar o presente, em identificar os desvios do passado e em revisar criticamente os anseios de futuro; não para ficar presos no remorso, numa contemplação estéril dos erros e pecados cometidos, mas para, identificando as próprias limitações, predispor o coração à Palavra de Deus, exprimida integramente no testemunho do Messias. Trata-se, enfim, não propriamente de converter-se – ainda não –, mas de dar o primeiro passo da conversão. Esta, de resto, deve ser entendida – sempre – referenciada a Jesus, que só aparecerá na cena pública a partir do v. 13.


A proximidade do Reino, que bate às portas do presente, é o evento escatológico que motiva a revisão de vida. Por “Reino dos Céus” não deve entender-se um lugar físico, situado lá em cima, onde moram as estrelas, pois a expressão “dos Céus” não é mais que um semitismo, tipicamente mateano, para salvaguardar a absoluta transcendência de Deus, cujo nome, embora revelado a Moisés, não pode ser pronunciado. Por “Reino dos Céus” também não deve entender-se a “vida pós-morte”. Não é preciso esperar tanto para experimentá-la. O Reino anunciado por João é uma realidade dinâmica e próxima, que desabrocha, no aqui e agora da história, cada vez que a genuína justiça de Deus acontece; mesmo que projetando-nos – na expressão paulina – para o dia em que “Deus seja tudo em todos” (1Cor 15,28). Por isso, o Reino – ou melhor, o Reinado – de Deus, eclode com força inusitada na pessoa de Jesus, uma vez que, na sua vida e na sua entrega, que são a máxima expressão da verdadeira justiça, Deus reina plenamente. O arrependimento, por sua vez, não deve ser visto como o preço a ser desembolsado para entrar no Reino, mas apenas como a disposição de quem, em face do Reino que está chegando, abre seu coração e reconhece a própria indigência, para que Deus, gratuitamente e sem esperar nada em troca – absolutamente nada! – possa reinar.


De novo, ressoa o motivo das Escrituras realizadas, mas, desta vez, a meta da palavra profética não é Jesus, senão João, seu precursor: “É dele que falou o profeta Isaías” (v. 3). No ocaso do império assírio, às vésperas do retorno à Terra Prometida, Isaías tinha anunciado o iminente final do cativeiro babilônico: como outrora Deus tinha descido ao Egito para congregar o povo e libertá-lo da escravidão, o Senhor desceria novamente e, aplainando todo caminho acidentado, levaria, qual pastor a seu rebanho, a nação escolhida de volta a Jerusalém (cf. Is 40,3). Mateus modifica o contexto original dessa consoladora profecia e aplica a João o oráculo isaiano, esclarecendo, assim, o sentido profundo da missão do Batista: preparar o caminho do Senhor. Entretanto, desta vez, o Senhor é Jesus, o enviado de Deus para inaugurar o Reino definitivo.


O novo Elias


Em seguida, João é caracterizado como um asceta do deserto, que veste pele de camelo e se alimenta de gafanhotos e mel silvestre (v. 4). A sua figura, sem dúvida inusitada, é o reflexo da novidade de sua mensagem: O Reino está prestes a irromper! Por baixo da marcada austeridade do Batista, vislumbra-se a intenção teológica do Evangelista: reafirmar, a partir das Escrituras, que João é o precursor do Messias. De fato, com base no livro de Malaquias, último profeta do AT, acreditava-se que, antes da vinda do Messias, Elias, que tinha sido arrebatado por um carro de fogo (cf. 2Rs2,11), voltaria (Mq 3,23). Não é por acaso, pois, que a estampa de João coincide com a do profeta Elias: “Era um homem vestido de pelos e com um cinto de couro em torno dos rins” (cf. 1Rs 1,8). Elucidado isto, o propósito desta estudada coincidência resulta inequívoco: identificar a João com Elias. Mateus o fará expressamente, em favor da messianidade de Jesus, claramente expressa no terceiro livrinho (cf. Mt 11,7).


A ira de Deus


A missão de João é bem sucedida: de Jerusalém, da Judeia e de toda a região do Jordão saíam as pessoas à procura do Batista e, confessando seus pecados, eram batizadas por ele (v. 5). O batismo, que significa imersão, era um ritual bem conhecido no âmbito judaico. Além da sua dimensão purificadora, possuía o sentido de passagem. Era utilizado, no âmbito civil, para significar a emancipação de um escravo, isto é, a passagem da servidão para a vida livre; e, no âmbito religioso, para indicar a incorporação de um pagão ao povo de Israel, isto é, a passagem da injustiça para a justiça da Lei mosaica. O batismo de João, por sua vez, evocava a passagem pelas águas do Jordão sob a liderança de Josué (cf. Js3) e expressava, na linha da tradição profética, a vontade de passar, de uma vida marcada pelo pecado, para uma vida aberta aos dinamismos do Reino (cf. Is 1,16; Ez 36,25). De resto, não deve ser identificado com o batismo sacramental cristão, embora possa prefigurá-lo.


Fariseus e saduceus (cf. estudo 2) “vinham para o batismo” (v. 7a); João os reprime com dureza, não por serem tais, pois o Reino não faz acepção de pessoas, mas por permanecerem insensíveis perante a iminência do Reino. Estavam ali para fazer-se batizar? Difícil dizer ao certo, pois Mateus não é claro a esse respeito. O original grego pode significar, de fato, tanto que vinham para receber o batismo, como que vinham contra o batismo de João. Víboras – são chamados –, pois sua liderança e vida acarretam, como a serpente do Gênese (cf. Gn 3), o sofrimento e a morte. O restante da expressão desnuda a hipocrisia deles: “Quem vos ensinou a fugir da ira que está para chegar?” (v. 7b). Mas, que ira é essa? Não se trata, certamente, da raiva que brota do coração irado, pois não há espaço para esse sentimento no coração de Deus – ele é, antes de tudo, amor e misericórdia –; mas trata-se do “dia do Senhor”, isto é, do juízo escatológico, que desmascara o mal e entroniza o bem, de modo definitivo (cf. Os 13,9-11; Ez 5,15; Jl 2; Am 8,9-14; Ab 15; Sf 1,2–2,3; Zc 14; Mq 2,17–3,5). É, por isso, um dia temido pelos opositores do Reino, mas profundamente almejado por aqueles que, como João, esperam o Reino dos Céus acontecer. Apontamos, de resto, que a dura reprimenda testemunhada por Mateus reflete, não tanto o contexto histórico do Batista, que viveu nos anos 30, como o do próprio Evangelista, que escreveu nos anos 80, em pleno divórcio com o judaísmo farisaico (cf. estudo 2). Certamente, Mateus projeta nas palavras de João Batista as controvérsias entre cristãos e fariseus, próprias do contexto redacional do Evangelho.


Na exortação do Batista, “Produzi fruto que mostre vossa conversão” (v. 8), ecoa antecipadamente a sentença pronunciada por Jesus no Sermão da Montanha: “Pelos frutos os conhecereis” (cf. Mt 7,16). Trata-se de demonstrar, em definitiva, não pelas obras externas da Lei, nem apenas ritualmente, mas por um sincero testemunho de vida, o arrependimento do coração que se abre ao Reino iminente. Quanto a isso, não vale invocar pretensos privilégios – “Nosso pai é Abraão” – nem a pertença, pela circuncisão, ao povo de Deus, pois “destas pedras”, ou seja, até dos corações mais duros, “Deus pode suscitar filhos para Abraão” (v. 9). E isto vale também – e sobretudo – para nós, seguidores de Jesus e membros da comunidade messiânica por ele reunida. De nada adiantam as obras da Lei – “cumpro o preceito dominical”; “confesso-me cada Semana Santa”; “casei-me conforme os rituais da Igreja” –, nem a pertença, pelo Batismo, à comunidade cristã, se na nossa existência não transparecer, mediante ações e gestos concretos, a vida do Ressuscitado.


Duas imagens típicas do mundo judaico e, portanto, familiares à comunidade mateana, ilustram o modo como era concebido o “dia o Senhor”: o machado (v. 10a) e o fogo (v. 10b). Trata-se de metáforas e, como tais, devem ser entendidas. O machado posto à raiz das árvores – e não meramente no tronco – sugere a definitividade do juízo e evidencia, simultaneamente, a radicalidade do Batista. O fogo, que consumirá toda árvore que não der bom fruto, remete às antigas profecias: “Pois eis que o Dia há de chegar, como forno aceso a queimar. Os atrevidos, os que praticam injustiças, o Dia que há de vir, como palha, vai incendiar – diz o Senhor dos exércitos–, sem deixar-lhes sobrar nem raízes nem ramos” (Mq 3,19).


Água, Espírito e Fogo


João batiza com água “para a conversão” ou, mais precisamente, para o “arrependimento” (v. 11a): a passagem pelas águas é a chancela que rubrica e viabiliza a revisão da vida, a compunção perante a própria injustiça e o desejo de emenda. Entretanto, o batismo de João, por si só, não basta para a conversão efetiva. “Mas aquele que vem depois de mim”, ou seja, Jesus, “é mais forte do que eu” (v. 11b). O Batista (na verdade, Mateus) aplica a Jesus um superlativo reservado, na linguagem bíblica, ao próprio Deus (cf. Ne 9,32; 2Mc 1,24; Sl 24,8; Eclo 15,19; Is 9,6.10,21). Por isso, com relação àquele que há de vir, João se declara indigno de levar suas sandálias (v. 11c). Provavelmente, a metáfora remete ao serviço que, no âmbito doméstico, prestavam mulheres e escravos. João se reconhece tão pequeno que, diante do Messias que traz o reino definitivo, nem um doméstico ele se considera. Por trás da sentença comentada, está a polêmica entre batistas e cristãos. Esta resolve-se em favor dos seguidores de Jesus: o Mestre de Nazaré é, indiscutidamente, superior ao Batista (cf. Dt 25,5-10). “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com o fogo” (v. 11d), pois capacitará seus ungidos, pela força do Espírito, para uma vida ajustada à gratuidade do Reino e purificará, definitivamente, como o fogo acrisola o ouro, a comunidade dos batizados. A conclusão da perícope oferece mais uma imagem do “dia do juízo”: será como um homem que vai limpar sua eira e separa a palha – para queimá-la – do trigo – para guardá-lo (v. 12). Mas o que significam a palha queimada e o trigo posto no celeiro? Certamente, não significam “gente” queimada ou premiada no dia do juízo, mas a erradicação derradeira das mazelas que escravizam o coração humano e a plena frutificação de todo quanto nele vale.


* * *


O Reino de Deus está próximo! O messias está para chegar e, com ele, o juízo redentor de Deus! Endireitemos, pois, nossos caminhos e alimentemos, sem medo, a nossa esperança: Deus vem para nos salvar!







Estudo anterior:  7. O caminho de Moisés (Mt 2,13-23)

Próximo estudo: 9. Passar pelas águas e vencer as tentações (Mt 3,1–4,11)
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