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7. Cristo: plenitude da existência humana

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11.03.2014 | 5 minutos de leitura
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7. Cristo: plenitude da existência humana

A última etapa do crescimento em Cristo acontece com a morte e a glorificação. O desejo de amar a Cristo consuma-se na morte. Paulo expressa seu desejo de conhecer o Cristo (cf. Fl 3,8) que ele, no entanto, já conhecia (cf. 1Cor 9,1). Paulo o conhecia, mas não com todo o desejo de seu amor. Para que o conhecimento seja total, a entrega também deve ser total, numa recíproca acolhida, o que só é possível na morte. O cristão, enquanto inserido na história, vive uma relação de amor com Cristo, mas esse amor nunca é total. Jamais chega a amar como gostaria, não realiza plenamente sua vida cristã. Permanece em seu cotidiano uma margem de erro, uma vez que não se possui inteiramente, mas sucumbe a tantos condicionamentos. Enquanto ser fragmentado, sua entrega a Cristo possui sempre uma imperfeição. Na dimensão histórica, ninguém escapa das ambiguidades humanas. Elas aparecem mesmo na vida daqueles que se converteram realmente. O cristão não está livre de seus condicionamentos que, às vezes, o impedem de amar como gostaria. Sua vida será sempre um esforço para amar mais e melhor a Deus e aos irmãos.


O amor se expressa em ações concretas e categoriais, que manifestam a opção fundamental do cristão, mas nenhuma de suas ações coincide com a entrega total de si, uma vez que situações diversas limitam sua liberdade. Assim ele fracassa no seu desejo de amar como gostaria e, sem cessar, vê-se obrigado a recomeçar e, por mais que ele cresça na sua comunhão com Deus em Cristo, só na morte será capaz de fazer um ato supremo de amor, enquanto entrega total de si a Deus. Santa Teresinha expressava, de forma poética, seu desejo de morrer de amor: “Morrer de amor, eis a minha esperança”. Mais tarde ela morre depois de haver exclamado: “Meu Deus... eu vos amo”. Santa Teresinha, vítima de tuberculose, morreu num extraordinário movimento de amor que a transportou até às profundezas de Deus. Na verdade, do ponto de vista da fé cristã, só se pode morrer de amor, ou seja, num movimento de amor a Deus−Pai. O que diferencia a morte dos homens são os graus do amor. Nem todos amam com a mesma intensidade. Do ponto de vista natural, causas físicas produzem a morte, mas do ponto de vista espiritual, só no amor o ser humano pode passar do mundo ao Pai. A morte cristã se revela a plenitude de uma comunhão de amor, como, aliás, se deu com Jesus, cuja morte coincide com sua entrega total ao Pai, no Espírito Santo, por amor à humanidade. E se Jesus morreu por todos de uma morte de amor, todos os homens são chamados a participar dessa sua morte de amor.


A morte, pelo sofrimento que a precede, é temível. De fato, quase todos a temem, porque parece ser a desintegração total da pessoa e a perda de todas as suas referências. Supõe deixar tudo o que se construiu ao longo da vida. No entanto, a Páscoa de Cristo a transformou completamente. Ela se tornou o contrário do que parece ser. De inimiga, tornou-se amiga. Por isso torna-se compreensivo o que Santo Inácio de Antioquia pede quando está a caminho do martírio: “Não me impeçam de viver (morrer), não queiram que eu morra (viva)”. Para Santo Inácio, a verdadeira vida está na morte que sofrerá por Cristo no martírio. Através da morte, ele chegará, finalmente, ao Pai, o que torna compreensível o seu desejo de morrer: “Uma água viva fala dentro de mim e me diz: Vem ao Pai!”. A entrega do cristão a Deus é a dimensão essencial de sua existência, mas somente na morte essa entrega se dá de maneira total. Naquele momento nada mais o prende a essa vida. Na morte, ele se entrega a quem buscou amar e servir durante sua existência.


A morte é, ainda, para o cristão, a plenitude de sua filiação. A graça batismal filializa o ser humano, que se torna filho no Filho. Só na morte o batismo alcança o seu efeito total. Os cristãos possuem o Cristo em sua plenitude desde o batismo, mas Cristo se encontra, ainda, em larga medida, no seu futuro, porque eles ainda o encontrarão no momento da morte. A existência cristã se inicia com o batismo, porém a morte revela-se sua última etapa. Na realidade, através da morte, ele dá à luz a si mesmo, ele adquire sua identidade última, tornando-se, de verdade, aquilo que é. Santo Inácio de Antioquia, face à morte, afirmava: “Aproxima-me o meu renascimento. Deixem que eu receba a pura luz; quando eu tiver chegado lá, serei verdadeiramente homem”. Como disse um grande teólogo: “O homem envelhece rumo a seu nascimento”, porque na morte ele nasce definitivamente para Deus. O Espírito Santo termina de configurá-lo a Cristo. E, em comunhão com Cristo glorificado na sua humanidade, ele se torna filho do Pai e irmão de todos, para sempre. A vida eterna respeita, assim, a Trindade de Deus. A humanidade está no Filho glorificado, o que se revela a condição de possibilidade da salvação do homem. O Espírito nos configura a Cristo e, nele, somos filhos do Pai. E nisso consiste o céu: a alegria da participação na vida trinitária de Deus. A eternidade nada mais é do que o instante eterno da comunhão de amor com o Pai pelo Filho no Espírito e com os irmãos, o que chamamos comunhão dos santos.







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