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6. Morte e glorificação: horizonte último da existência humana

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20.02.2014 | 5 minutos de leitura
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6. Morte e glorificação: horizonte último da existência humana

Infelizmente, hoje há um silêncio sobre a morte. Ela parece quebrar a linha ascendente do desenvolvimento da pessoa. A medicina trabalha para adiar cada vez mais o momento da morte, dando a impressão de que a morte é, na verdade, uma doença para qual ainda não se descobriu a cura. Cientistas trabalham para prolongar indefinidamente a existência, prevendo que no futuro o ser humano poderá viver 150, 200, 300 anos. Para isso, inventam tratamentos cada vez mais eficazes no combate ao envelhecimento. A cultura do prazer, por sua vez, cria o desejo de um prolongamento indefinido da vida. A vida para além da morte já não interroga tanto o ser humano em outras épocas. O presentismo acaba fixando-o no imediato e provisório. Por outro lado, o vasto noticiário sobre a morte acabou banalizando-a. Tornou-se tão comum ver pessoas morrerem todos os dias que poucos se dão ao trabalho de refletir sobre o significado da morte. Seja como for, uma coisa é certa: nascemos e morreremos um dia. Em relação ao futuro, a morte é a realidade mais certa. Prever o futuro ninguém consegue, mas a morte se revela um dado do futuro de todos os seres humanos; mesmo que alguém chegue a viver 500 anos, morrerá um dia. O homem é, como define um grande filósofo, um ser-para-a-morte. E a morte é a possibilidade que impossibilita as outras possibilidades.


Até aqui apresentamos as etapas do crescimento em Cristo: batismo, personalização da fé, interiorização da fé, crise ou noite escura, maturidade provisória. Após percorrer essas etapas, resta ao cristão enfrentar a morte acreditando na glorificação. Embora pouco se fale sobre a morte, ela é, para o cristão, aspecto crucial.  As antigas missões redentoristas enfatizavam a dimensão escatológica da existência: “tens uma alma, salva-a; há um inferno, evita-o; há um céu: conquista-o”. Hoje o “mais além” está fora de moda. Pouco se fala da projeção de toda a existência para a condição gloriosa. Mas qualquer plenitude alcançada nesta vida, mesmo a santidade, se revela provisória, instável e relativa. A plenitude verdadeira e duradoura somente acontecerá no Reino definitivo. Puro dom de Deus que impõe às precedentes conquistas e realizações uma mudança radical de qualidade.


Para os cristãos, a morte assume significado especial, pois não é o fim da vida, mas consumação do batismo. O que o cristão é desde seu batismo, ele se torna plenamente na morte. A perda lenta da vida e a morte real em vista da ressurreição são a experiência do batismo, norma e princípio de todo o processo do crescimento em Cristo. Aliás, o binômio morte-ressurreição emerge como a lei constante do itinerário cristão: para frutificar, é preciso morrer; para ganhar a vida, é preciso perdê-la. Excluir esta decisiva realização do mistério cristão significaria tirar do itinerário espiritual seu coroamento natural e a plenitude de significado do que é simbolicamente celebrado no batismo.


No batismo, fomos imersos no mistério pascal de Cristo. A morte cristã nada mais é do que o auge da comunhão com a morte e a ressurreição de Jesus iniciada no batismo. Na morte, Deus-Pai realiza plenamente o chamado à comunhão com o Filho (cf. 1Cor 1,9) e se verifica de maneira total essa palavra da Escritura: tudo foi criado para o Cristo (cf. Cl 1,16). Ela leva à plenitude a inserção do cristão em Cristo. Santo Inácio de Antioquia interpretou sua própria morte como um mergulho em Cristo. “É bom para mim morrer em Jesus Cristo”. Escreve o santo: “Só então serei verdadeiro discípulo de Jesus Cristo, quando o mundo não verá mais o meu corpo”. Já em sua vida terrestre, o cristão vive em Cristo (cf. 1Cor 1,30) e Cristo vive no cristão (cf. Gl 2,20), como fruto do batismo. No batismo ele começa a viver uma comunhão com o Cristo que se consumará no fim. Em 2Tm 2,11 lemos: “Se com ele morremos, com ele viveremos”. Esse trecho da Segunda Carta a Timóteo não se refere ao batismo, mas à morte, no fim da peregrinação terrestre. A morte de Jesus é salvadora exatamente porque o homem pode dela participar. A afirmação ele morreu por nós torna-se uma verdade plena para o cristão no momento de sua morte. E Jesus, na sua morte, se torna imensa capacidade de acolhida, exatamente porque ele morreu por todos; ele é, para todos, o Filho que se entrega ao Pai. Uma vez que ele se abriu ao Pai no Espírito Santo até o mais profundo de seu ser humano, tornou-se capaz de abrir, pelo Espírito, cada homem a ele para realizar uma morte a dois. Graças ao Espírito, o cristão morre a morte de Cristo. Assim como o Espírito une o Filho ao Pai na morte, ele une o cristão a Cristo e o faz morrer com Cristo. O Espírito transforma a morte do cristão em suprema comunhão com Cristo, terminando, portanto, de batizar o cristão, ou seja, inserindo-o definitivamente no mistério pascal de Cristo.







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