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76. Felicidade

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15.03.2016 | 4 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
76. Felicidade

“Não entregues tua alma à tristeza

e não te aflijas com tuas preocupações” (Eclo 30,22)



“Felicidade é só questão de ser, 

Quando chover, deixar molhar... 

Pra receber o sol quando voltar." 

(Marcelo Jeneci e Chico César)



Não é de hoje que a gente busca a felicidade e corre às léguas das tristezas que a vida reserva. Mas, apesar da correria, a vida vem com seus tormentos e nos atropela, como tsunami que chega sem avisar e sai destruindo tudo que vê pela frente. Alguns milagrosamente sobrevivem, sem mesmo saber explicar como se deu tal proeza. Certo é que a vida impõe fardos e carregá-los não é coisa fácil.


Ando meditando sobre a fugacidade da vida, sobre o fardo da existência e sobre a poesia que envolve a felicidade sonhada. Marcelo Jeneci canta que “felicidade é só questão de ser”, mas aí é que mora o perigo: a construção do ser, da interioridade, é trabalho árduo e fatigoso, sempre exigindo mais de nós. Como encontrar felicidade na própria procura dela? O cantor continua: “Quando chover, deixar molhar... pra receber o sol quando voltar”. Deixar-se molhar pela chuva da vida e descobrir alguma alegria nisso, sem cobrar que todos os dias sejam ensolarados, é caminho de maturidade e segredo da felicidade. Estamos muito acostumados a viver sempre enxutinhos, sem nenhum desconforto da chuva. Preferimos viver aquecidos e secos, sem roupas molhadas e encharcadas ao corpo, sem o vento frio que acompanha a chuva, sem ameaças de raios e trovões sobre nossas cabeças. Mas a chuva, se desconfortável, também é fecunda. Não há vida sem ela... é preciso “deixar molhar... para depois receber o sol, quando voltar”.


Deixar molhar… “Nem tudo está sob nosso controle”, constatamos consternados quando o sofrimento bate à nossa porta. E uma tentação enorme de desistir da felicidade quase nos domina, levando-nos à entrega da alma à tristeza. Esse problema da alma entregue à tristeza é muito falado hoje, mas é bem mais antigo que a produção dos antidepressivos. A tristeza acompanha a vida humana, pois é reação normal diante do fracasso, da perda, da dor, do sofrimento, da sensação de impotência. O povo da bíblia experimentou tristezas profundas e, muitas vezes, quase sucumbiu. Quando deportado para a Babilônia, o povo de Judá quase não aguentou: pendurou as chuteiras, ou melhor, suas arpas nos salgueiros (cf. Sl 137). Foi preciso a ação eficaz de muitos profetas da esperança, para que o povo retomasse o ânimo. O Segundo Isaías não cansou de dizer: “Coragem; ânimo!” De mil modos ele encorajou o povo.


E não foi só ele. Até Jeremias – o profeta melancólico – diante do desânimo do povo na Babilônia, esqueceu sua tristeza para animar seus irmãos exilados. Na sua famosa Carta aos Deportados, ele os encoraja a continuar a peleja, sem se entregarem à tristeza, ainda que houvesse motivos para isso. Como disse Caio Fernando Abreu: “Depois que um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele, guardei a minha no bolso e fui”. Foi o que fez Jeremias. Em meio a tanta tristeza na Terra Natal destruída, ainda encontrou forças para dirigir palavras de fé e ânimo a seus conterrâneos na Babilônia. Talvez seja exatamente um dos segredos da felicidade: sair de si em direção ao outro e, nele, no seu sofrimento e na sua dor, fazer uma comunhão capaz de ressignificar toda tristeza vivida. Do convívio, da fraternidade, da vida partilhada, jorram forças inimaginadas. Deve ter razão outro cantor da música brasileira, Seu Jorge; “Felicidade é estar na sua companhia. Felicidade é estar contigo todo dia. Felicidade é sentir o cheiro dessa flor. Felicidade é saber que tenho o seu amor”… Se isso já vale para pobres mortais, cuja comunhão por mais bela que seja é sempre precária, imagina a felicidade que não emana da companhia do Ressuscitado, sempre presente em nossas dores? Rezar as tristezas: eis um boa pedida. Entregar o sofrimento nas mãos de quem é maior do que nós: eis a solução. Enquanto a dor não acaba e o sofrimento persiste, rezemos e cantemos. Rezar dá forças; cantar espanta os males.