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31. Diálogos e tensões no judaísmo no período helenista

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05.06.2019 | 20 minutos de leitura
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Acadêmicos
31. Diálogos e tensões no judaísmo no período helenista




Solange Maria do Carmo



Aíla Luzia Pinheiro
de Andrade


Introdução


A permanência dos judeus fora da terra de Israel é designada pelo termo grego diáspora, geralmente traduzido por dispersão. A palavra pertence ao campo semântico agrícola, ou seja, diáspora tem a ver com semeadura, com o ato de espalhar a semente na terra.


Espalhados qual semente no mundo, os judeus se esforçavam para preservar sua identidade, sem se fechar às culturas dos povos estrangeiros. Deviam se integrar na nova sociedade, adaptar-se a ela, mas sem assumir seus costumes e valores, muitas vezes contrários à fé monoteísta dos hebreus (RAINER, 2009, p. 167-191). Esse esforço de manutenção da identidade judaica em tempos de helenismo foi decisivo para que os judeus da diáspora reunissem suas memórias e as colocassem por escrito.


1 Um pouco de história


É importante retomar a história do povo hebreu, especialmente a partir do evento do Exílio da Babilônia, quando fizeram sua primeira e mais significativa experiência de se estabelecer fora da terra de seus pais.


É bem verdade que em 722, o Reino do Norte (Israel) já havia passado por experiência semelhante de dispersão. A Assíria dominou a capital Samaria e dispersou os israelitas para diversas partes do mundo onde seu domínio se estabelecera. Além disso, trouxe para a região da Samaria outros povos já subjugados. O convívio com os povos estrangeiros e a assimilação de sua cultura fora imposta a Israel. Por causa disso, e de outras questões políticas, o Reino do Norte não era bem visto pelo reino do Sul, Judá, capital Jerusalém. O povo de Judá acusava os samaritanos de sincretismo, de idolatria e de impureza.


Em torno do ano 587 a.C., foi a vez de Judá (Reino do Sul) passar por uma experiência dolorosa de submissão. A elite do país, a saber, nobres, intelectuais e artífices (2Rs 24,14-16; 25,18-20), foi exilada para a capital do império babilônico com o objetivo de impedir qualquer incentivo a rebeliões do povo conquistado (OTZEN, 2003, p. 16). Nabucodonosor, rei da Babilônia, não poupou Jerusalém. Além de deportar aqueles que tinham força para o trabalho, deixou a capital destruída, humilhada e sem condições de se reerguer. Os deportados acharam seu caminho, apesar do exílio forçado. Em terras babilônicas, muitos alcançaram prosperidade e estabilidade econômica. Lá não eram obrigados a trabalhos forçados, como no Egito; ao contrário, levavam uma vida de súditos livres. Podiam possuir casas próprias, plantações e comércios, e não faltou quem conseguisse fazê-lo; alguns até chegaram a ocupar cargos administrativos elevados na corte imperial. A Babilônia se transformou no maior e mais ativo centro de judeus fora de sua terra por muito tempo (OTZEN, 2003, p. 17-18).


A partir de 538 a.C., com o domínio persa, Ciro, por meio do edito que levou seu nome, permitiu o retorno dos exilados para a terra de seus antepassados, mas a maioria dos deportados não deixou a Babilônia. Os judeus que se decidiram pelo repatriamento empreenderam a tarefa de preservar a pureza de sua religião, livrando-a da contaminação de elementos do politeísmo. Tal encargo exigia a separação estrita dos judeus de todos os povos estrangeiros (Esd 10,11; Ne 9,2), com o objetivo de cumprir rigorosamente a Lei de Moisés (Esd 7,10.26; Ne 10,29; OTZEN, 2003, p. 18-19).


Depois do retorno, iniciado em 538, a vida não se tornou mais fácil para quem se estabeleceu na Judeia. Alexandre Magno empreendeu uma campanha vitoriosa de dominação e, desde o ano 333 a.C., uniu definitivamente o Oriente com o Ocidente. Além da conquista política, a vitória do Macedônio trouxe outras consequências: a língua grega tornou-se o idioma oficial do império e a cultura, a arte e o pensamento gregos foram impostos aos povos orientais. Mesmo em suas terras, os judeus deveriam conviver com outro povo, outro modo de pensar e de organizar a vida, ou seja, outra gramática existencial simbólica. Deu-se, a partir da conquista de Alexandre, a chamada ocidentalização do Oriente. Mas se por um lado ao Oriente fora imposta a cultura grega, por outro também o espírito grego ficou profundamente marcado pelo Oriente. Dessa simbiose entre dois mundos distantes, surgiu uma cultura pseudo-grega, diferente, em muitos aspectos, da cultura da Hélade original. Conforme Otzen a maior importância do império de Alexandre foi “ter criado as bases para um encontro cultural entre o Oriente e o Ocidente [...] Os portões entre Oriente e Ocidente haviam sido abertos de uma vez por todas” (OTZEN, 2003, p. 21). Desde então, o desenvolvimento cultural e religioso do Oriente Médio, que também incluía os judeus, ficou marcado para sempre.


Chevitarese e Cornelli distinguem helenismo e helenização. Lembram que a expressão “helenismo” ganhou contornos diferentes ao longo da história. Compreendido como o uso gramatical correto da língua grega, ou seja, o grego livre de barbarismos (século IV), helenismo passou a caracterizar a adoção das maneiras gregas, do modo de vida grego, em especial fora da Hélade, onde a cultura grega se tornara moda. Já o termo “helenização”, para esses autores, é o processo de adoção e adaptação dessa cultura em nível local (CHEVITARESE; CORNELLI, 2003, p. 7).


Assim, os termos helenismo ou helenista passaram a ser usados para expressar a assimilação que os judeus fizeram do idioma, da cultura e dos costumes gregos, desde o século IV a.C. até os primeiros séculos da era cristã. É nesse contexto de acolhida do mundo helênico que se fala de diáspora judaica no período helenista.


Quando Alexandre morreu, não deixou herdeiros. Seu império, depois de disputas homéricas entre seus generais, foi dividido em quatro reinos: o reino de Cassandro, que era composto pela Macedônia, a maior parte da Grécia e partes da Trácia; o reino de Lisímaco, que incluía a Lídia, a Jônia, a Frígia e outras partes da atual Turquia; o reino de Seleuco, que compreendia o atual Irã, o Iraque, a Síria e partes da Ásia Central; o reino de Ptolomeu I, que incluía o Egito e as regiões adjacentes. A terra dos judeus ficou sob o domínio dos Ptolomeus do Egito, também conhecidos como Lágidas[1], durante o período de 305 a 198 a.C. e, posteriormente, esteve sob a mão de ferro dos Selêucidas da Síria (RAJAK, 2009, p. 64-88).


Com os Lágidas, do Egito, a religião dos judeus estava salvaguardada; os egípcios não implicavam com a religião judaica nem impunham aos judeus o culto politeísta. Mas, com os Selêucidas, da Síria, especialmente com Antíoco IV ou Epífanes, deu-se uma imposição do politeísmo, que obrigava os judeus a algumas práticas consideradas abomináveis pela Torah. Enquanto os judeus dispersos pelo reino dos Lágidas (diáspora helenista), especialmente em Alexandria, gozavam de paz e liberdade; em terras de Israel, o povo na Palestina sofria perseguições, desrespeitos, imposições religiosas, ameaças de todo tipo e até martírio.


2 A diáspora judaica no período helenista


A diáspora judaica no período helenista (312 a.C. a 31 a.C.)[2] não deve, pois, ser confundida com a diáspora oriental, por ocasião do exílio da Babilônia (597 a.C.) e nem com aquela que se desenvolveu mais tarde no período romano, também chamada de diáspora ocidental. Quando falamos em diáspora grega, referimo-nos à i helênico que se fala de diáspora judaica no período helenista.


Quando Alexandre morreu, não deixou herdeiros. Seu império, depois de disputas homéricas entre seus generais, foi dividido em quatro reinos: o reino de Cassandro, que era composto pela Macedônia, a maior parte da Grécia e partes da Trácia; o reino de Lisímaco, que incluía a Lídia, a Jônia, a Frígia e outras partes da atual Turquia; o reino de Seleuco, que compreendia o atual Irã, o Iraque, a Síria e partes da Ásia Central; o reino de Ptolomeu I, que incluía o Egito e as regiões adjacentes. A terra dos judeus ficou sob o domínio dos Ptolomeus do Egito, também conhecidos como Lágidas[1], durante o período de 305 a 198 a.C. e, posteriormente, esteve sob a mão de ferro dos Selêucidas da Síria (RAJAK, 2009, p. 64-88).


Com os Lágidas, do Egito, a religião dos judeus estava salvaguardada; os egípcios não implicavam com a religião judaica nem impunham aos judeus o culto politeísta. Mas, com os Selêucidas, da Síria, especialmente com Antíoco IV ou Epífanes, deu-se uma imposição do politeísmo, que obrigava os judeus a algumas práticas consideradas abomináveis pela Torah. Enquanto os judeus dispersos pelo reino dos Lágidas (diáspora helenista), especialmente em Alexandria, gozavam de paz e liberdade; em terras de Israel, o povo na Palestina sofria perseguições, desrespeitos, imposições religiosas, ameaças de todo tipo e até martírio.


2 A diáspora judaica no período helenista


A diáspora judaica no período helenista (312 a.C. a 31 a.C.)[2] não deve, pois, ser confundida com a diáspora oriental, por ocasião do exílio da Babilônia (597 a.C.) e nem com aquela que se desenvolveu mais tarde no período romano, também chamada de diáspora ocidental. Quando falamos em diáspora grega, referimo-nos à incorporação, feita por grande parte dos judeus, do estilo de vida grego, iniciada tecnicamente com a derrota da Pérsia por Alexandre Magno em 333 a.C., mas a influência grega tem raízes mais antigas. Por meio do comércio ambulante das caravanas e dos mercenários gregos que se ingressaram no exército persa, elementos da cultura ocidental foram difundidos no Oriente, muito antes da apoteose de Alexandre.


A influência do helenismo sobre a vida judaica não se deu apenas nos grupos de judeus dispersos, radicados em outras terras do império. A cultura grega se difundiu por aquelas regiões, como mostra o surgimento da decápole, as dez polis, no leste da terra de Israel em lugar de antigas fundações semitas. A decápole se tornou um centro de irradiação da cultura helênica (OTZEN, 2003, p. 23-25), que se espalhou facilmente por todo canto. Lugares e pessoas receberam nomes helênicos; a organização política ganhou nova configuração; as relações públicas foram repensadas; as artes, as ciências, a transformação de matérias-primas, ou seja, os âmbitos mais comuns da vida e das associações do povo foram afetados pelo pensamento helênico. Essa influência não se limitou à aristocracia; ela se fez presente em todas as camadas da sociedade judaica, embora os aristocratas tenham lucrado mais com essa situação por causa das vantagens resultantes da colaboração com os dominadores estrangeiros.


No Egito, a cidade de Alexandria, fundada em homenagem a Alexandre Magno em 331 a.C., tornou-se um grande centro de aprendizagem e de difusão da cultura grega. Nessa cidade, o judaísmo helênico floresceu em grande escala. Muitos judeus migraram voluntariamente para lá em busca de riqueza ou de desenvolvimento cultural (RAINER, 2009, p. 206-208). Durante o domínio grego ptolomaico sobre os judeus (de 322 a 198 a.C.), efetuado sob o comando da família dos Ptolomeus ou Lágidas, uma grande comunidade judaica foi fundada em Alexandria sem grandes conflitos com os gregos.


Em Alexandria, os judeus contavam com a proteção das leis civis. Não eram cidadãos da polis, nem o desejavam, pois teriam que renunciar à sua identidade judaica. Eles constituíam um grupo distinto; estavam classificados entre os politai e formavam politeuma, o que hoje seria análogo a uma associação civil (OTZEN, 2003, p. 73-74). Apesar de estarem socialmente abaixo dos gregos, os judeus estabelecidos em Alexandria ocupavam um lugar social acima da população egípcia nativa, com garantia de alguns direitos. O inconveniente dessa situação era ficar à mercê do apoio ou do não reconhecimento por parte de cada monarca. A situação dos judeus em Alexandria carregava um quê de instabilidade; ela os obrigava a uma constante vigilância e exigia-lhes uma habilidade sempre renovada de se fazerem aceitos. Para se estabelecer no Egito, era preciso um esforço constante de diálogo com a cultura reinante, o helenismo. Mesmo assim, embora a maioria dos judeus ali residentes preferisse morar em suas próprias comunidades, os guetos eram desconhecidos e a mistura com outras etnias era comum (cf. COHEN, 1999, p. 56-62).


Por causa da situação de instabilidade, os judeus de Alexandria procuraram o reconhecimento social através da produção literária com a qual desejavam mostrar seu valor. Assim, ergueram altos voos na filosofia; elaboraram explicações alegóricas, provenientes principalmente do estoicismo, para mostrar o valor de suas Escrituras e de seus antepassados. Nesse conjunto de esforços para se afirmar e arrecadar reconhecimento, surgiu a versão grega das Sagradas Escrituras, a Septuaginta (LXX), que ganhou certo acabamento durante o reinado de Ptolomeu VI, de 181-145 a.C. (DORIVAL, 1988, p. 111). A Septuaginta veio à luz graças a uma necessidade urgente dos judeus helenistas: como não dominavam mais o idioma dos antepassados, era preciso traduzir seus textos fundantes para o grego, a língua do império. Além da tradução das obras hebraicas, que compunham a chamada TaNak, novos livros escritos originalmente em grego foram incorporados à Septuaginta (RAJAK, 2009, p. 222-227). O judaísmo aproveitou-se do fato de que a religião antiga, sendo politeísta, era tolerante com outros pontos de vista religiosos (FELDMAN, 1993, p. 416).


3 Diálogos e tensões


A identidade dos judeus na diáspora helenista foi mantida, em grande parte, através da ética e da piedade ou religiosidade judaica (RAINER, 2009, p. 225-227). Enquanto para a maioria dos gentios o pensamento judaico soava como um fenômeno estranho, algumas pessoas simpatizavam com muitos dos códigos éticos da Lei Mosaica. Vários aspectos da Lei encontraram um público receptivo entre os gentios, em parte por causa da decadência moral do culto às divindades helênicas, mas também porque foi se desenvolvendo uma crescente admiração pelo monoteísmo entre os gentios (COLLINS, 1983, p. 6-13). Cohen descobre o início de uma nova identidade judaica como análoga e sob a influência de ideias e instituições helênicas (COHEN, 1999, p. 134-135).


3.1 Produção literária de justificação


A influência que o helenismo exerceu sobre os judeus de Alexandria foi notável e durou muitos séculos. Para dar a conhecer a grandeza de sua cultura, sem nenhum pudor os judeus helenistas fizeram uso do estilo literário e do idioma gregos para narrar sua história e registrar sua sabedoria para a posteridade. No entanto, essa produção literária foi expulsa da ortodoxia judaica por causa do sentimento nacionalista despertado na revolta dos Macabeus durante a dominação selêucida sobre a terra de Israel. Enquanto no Egito as comunidades judaicas rabínicas floresciam e deixavam vestígios culturais em Alexandria, em terras de Israel vivia-se perseguição ferrenha dos Selêucidas, o que gerava rejeição da cultura helênica (OTZEN, 2003, p. 73-74). Para os judeus integristas (nacionalistas) que viviam sob a perseguição dos Selêucidas, o helenismo soava como ameaça e perda da identidade judaica. Era visto como um grande perigo para a juventude, um inimigo a ser combatido. Para os judeus de Alexandria, porém, o helenismo era um aliado, uma via que possibilitava a divulgação da fé monoteísta. Nesse intento, produziram alguns escritos através dos quais explicavam seus costumes e sua religião, de modo a serem aceitos pelos gregos. Ao enfatizar os valores comuns e minimizar as práticas exclusivas do judaísmo, tais como a circuncisão e os rituais de pureza, escritores do universo judeu-helênico argumentavam a favor da universalidade de sua religião. Muitos foram, inclusive, além dos limites de sua própria literatura e imitaram obras famosas de autores gregos no campo da história, da poesia e da filosofia como é o caso, por exemplo, dos escritos sapienciais.


Para a fé judaica, mesmo quando sob a influência grega, a sabedoria não era compreendida como o resultado de mera especulação intelectual. Suas raízes se encontravam na sabedoria divina, ou seja, em Deus mesmo. Para eles, por meio de sua sabedoria, Deus havia ordenado o caos primitivo. Se ela era o princípio ordenador do cosmos, então adquirir sabedoria significava ter as diretrizes para uma vida ordenada em harmonia com toda a criação. A palavra hebraica para sabedoria é hokmah e está relacionada a uma raiz que significa “habilidade”. O termo sugere “habilidade para viver”, bem mais que habilidade para fazer coisas. O sábio, o hakam, era alguém que possuía maturidade ou sabia viver bem. Possuidor desse bem viver, ele deveria transmitir seu conhecimento a outras pessoas (LÍNDEZ, 2011, p. 38-46). As preocupações dos sábios judeus, quase sempre, estavam relacionadas com a vida cotidiana. Seus ensinamentos escapam do mundo sagrado ou religioso e se espalham pelos diversos âmbitos da vida. Em termos gerais, os ensinamentos da sabedoria judaica são práticos em vez de teóricos, universalistas e não nacionalistas, humanistas e não somente religiosos. Apesar de não negligenciar o aspecto religioso, a literatura sapiencial não coloca seu foco na religião, mas na vida, na arte de viver harmonicamente.


Dentre as produções literárias dos judeus helenistas, destacamos abaixo as que mais contribuíram para a propagação da universalidade da fé judaica, chamadas neste artigo de literatura de justificação.




  1. a) Sirácida ou Eclesiástico (NICKELSBURG, 2011, p. 116-138; CERESKO, 2004, p. 130-154).


O livro do Sirácida[3] ou Eclesiástico, aproximadamente do ano 190 a.C., é resultado da tradução grega de uma obra originalmente escrita em hebraico. Nem sempre a literatura da época helenista foi escrita originalmente em grego. Algumas vezes foi escrita em hebraico, sob a influência da cultura grega; é o caso do livro do Sirácida. O prólogo grego, escrito pelo neto do autor, informa que o texto foi traduzido no Egito, provavelmente em 132 a.C., no trigésimo oitavo ano do rei Evergetes ou Ptolomeu VII, que reinou de 170-117 a.C.


Os temas do Sirácida tendem a ser universais e são guias para as relações humanas mais simples. São conselhos que auxiliam os jovens aprendizes em matérias de saúde e de negócios, ensina-os as virtudes da boa convivência como, por exemplo, manter sigilos (27,16) e evitar a difamação (28,13ss). Admoesta-os a evitar os vícios e a viver sabiamente. São máximas sapienciais colocadas na boca de um sábio, a fim de assegurar a identidade judaica, problema posto desde a volta do exílio. Percebendo o fascínio da cultura helênica sobre os jovens, o autor exorta-os a permanecerem firmes na fé de seus pais, nos costumes judaicos por eles transmitidos, sem se envergonharem de suas origens e crenças. Assim, sem rejeitar o helenismo, o Sirácida mostra as vantagens da sabedoria judaica.


O livro traz um longo poema de elogio da criação (42,15–43,37) e dos antepassados (44,1–50,31), com o intuito de manter a memória dos pais da fé e mostrar que eles não perdem em nada para os heróis gregos. A começar por Henoc, o autor faz uma ode aos grandes nomes da história de Israel, lembrando figuras como Noé, Abraão, Isaac, Jacó, Moisés, Samuel, Davi, Elias... Mostra seus feitos maravilhosos em favor do povo e a fidelidade dos mesmos aos ensinamentos do Senhor e à aliança com ele estabelecida.


A sabedoria personificada é apresentada como um dom concedido por Deus aos seres humanos (l,7) e, ao mesmo tempo, é mostrada como um atributo divino: origem atemporal e misteriosa, habitação celeste, presença universal, vivificante, e medianeira entre Deus e o cosmos (Eclo 24,5) e entre Deus e a humanidade (Eclo 24,8-10). Em algumas passagens, a sabedoria divina é identificada com a Lei de Moisés (Eclo 1,26; 6,37; 15,12; 19,20).




  1. b) Livro de Tobias (LEVINE, 1992, p. 105-17).


A narrativa no Livro de Tobias é ambientada no século VIII a.C. No entanto, vários erros históricos descartam a autoria contemporânea àquele período da história, e a maioria dos estudiosos prefere situar a composição de Tobias entre 225 e 175 a.C. O surgimento do livro de Tobias para depois de 175 a.C. é dificilmente sustentada, pois o autor não expressa nenhuma consciência das tentativas dos Selêucidas de helenizarem a Judéia (175 a.C.), nem menciona a Revolta dos Macabeus contra os Selêucidas (165 a.C.), nem adota a apocalíptica ou expectativas messiânicas sobre as quais os escritos dessa época se concentram. A língua original da composição permanece obscura. Tobias pode ter sido originalmente composto em aramaico ou hebraico, uma vez que fragmentos de Tobias em ambas as línguas foram descobertos em Qumran. O livro conta a história de Tobit, um israelita justo da tribo de Naftali, que vive em Nínive depois de Sargão II ter deportado as tribos do norte de Israel para a Assíria em 721 a.C.


A narrativa principal é dedicada ao filho de Tobit, Tobias, que é enviado por seu pai para receber um dinheiro que o ancião depositou na distante Média. Raphael se oferece para ajudar e proteger Tobias. Ao final da missão, Rafael revela-se como um anjo.


Desenvolvendo temas como a pureza do casamento, a piedade filial e a reverência pelos mortos, o livro mostra que um judeu da diáspora pode ser tão fiel quanto um repatriado.




  1. c) Sabedoria de Salomão (LÍNDEZ, 2011, p. 231-258; CERESKO, 2004, p. 155-174).


Escrito originalmente em grego sob o título Sophia Salomonos, esse livro tem como autor um judeu da diáspora versado na língua grega, que assimilou a cultura helênica, suas formas literárias clássicas, suas ciências (7,17-20), o culto da beleza que lhe era característico (13,3.7), suas artes (14,19) e até as disputas esportivas que eram comuns nessa cultura (4,2; 10,12) etc.


Apesar de o autor demonstrar sentimentos benévolos para com os gentios, ele está solidamente ancorado na tradição religiosa de Israel. É um convicto monoteísta: tem horror ao politeísmo e à idolatria, despreza o laxismo e a imoralidade dos pagãos. Sente orgulho de pertencer ao povo eleito (18,8), que – segundo crê – recebeu as promessas do Deus único com o qual fez Aliança (12,21). Por meio dessa Aliança, foi preservado da idolatria (15,4) com o intuito de iluminar o mundo com sua Lei (18,4). Dessa forma, para o autor, não obstante a cultura grega se sobressaísse pela variedade dos sistemas filosóficos e pela arte, a sabedoria de Israel era muito superior àquela, pois provém do Deus único e verdadeiro. Por esse motivo, segundo se pensava, os judeus não tinham motivos para invejar os gentios.




  1. d) Obras de Fílon de Alexandria (SKA, 2009, p. 44-48; COLLINS, 1983, p. 54-57).


Fílon viveu entre os anos 25 a.C. a 50 dC e pertence, em certo sentido, aos judeus historiadores helenistas. Foi um importante apologista do judaísmo frente à cultura grega, apresentando-o como uma tradição venerável da antiguidade. Para ele, o judaísmo, longe de ser um culto bárbaro de uma tribo nômade oriental, como pensavam alguns gregos, era uma antecipação dos princípios da filosofia helenista. O autor apresenta, através de metáforas, os costumes judaicos, considerados pelos gregos como primitivos ou exóticos. Fala da circuncisão do coração como o caminho da virtude, tema tão caro à filosofia grega, e da razão (logos) e da sabedoria (sophia) como emanações do Deus de Israel.


O Alexandrino assumiu a tarefa de mostrar como Deus tinha constituído o mundo material e espiritual através dos patriarcas e da Lei Mosaica (De Opificio Mundi; De Abrahamo e De Vita Mosis). Conforme Fílon, Abraão teria sido uma espécie de filósofo judeu alexandrino, muito diferente dos judeus de Israel, pois sua fidelidade não era primeiramente à Lei Mosaica, mas à Lei natural inscrita na consciência humana que, só posteriormente, fora descoberta pela contemplação filosófica.


Para mostrar a superioridade da sabedoria dos judeus, Fílon descreve a educação de Moisés. Seus instrutores egípcios teria

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