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16. Águas curadoras

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03.02.2015 | 5 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
16. Águas curadoras

“Se alguém tem sede, venha a mim.” (Jo 8,37)



“Água que nasce na fonte serena do mundo

E que abre um profundo grotão.

Água que faz inocente riacho 

E desagua na corrente do ribeirão...

Terra: planeta água!”

(Guilherme Arantes)



Ao retornar do Amazonas, depois de 15 dias de incursão na região do Rio Madeira, onde os rios e igarapés garantem a vida da população e oferecem refrigério para a alma, sinto-me obrigada a falar sobre as águas. As águas do Madeira ou de outros rios do entorno (como o Ipixuna) têm poder hipnotizador. Quanto mais as olhamos, mais vontade de olhar. Quanto mais nelas mergulhamos, mais vontade de adentrar. Um passeio de voadeira, uma viagem de barco, uma travessia de canoa na peleja do remo... tanto faz! As águas, com a vida fecunda que delas brotam naquele chão, roubam os olhos, os corações; cicatrizam as feridas, levam os males, curam a alma... Exercem um fascínio tal sobre a gente que parece impossível parar de pensar nelas. Uma experiência mística acontece; uma sensação arrebatadora que nos tira de nós mesmos, mostrando-nos a pequenez de nossa vida diante da força, ao mesmo tempo, vivificante e destruidora das águas. Não se olha com o coração tamanha quantidade de água e de vida e se volta para casa do mesmo jeito. São águas curadoras, restauradoras, vivificantes...


Depois de maravilhosa experiência, eis que chego em casa e vejo que a mídia não se cansa de mostrar que a seca castiga o Brasil e que as chuvas não vieram em quantidade suficiente, especialmente para o sudeste, para repor os reservatórios. Vendo que as torneiras começam a pingar apenas, ameaçando secar de vez, não temos alternativa a não ser admitir como Fernando Sabino “a falta que ela me faz”. Depois de muito desleixo e desperdício, parece que caiu a ficha: no planeta Terra, cantado por Guilherme Arantes como Planeta Água, a vida está ameaçada pela falta de água.


Que a vida depende da água já é sabido de muito. O povo bíblico, por exemplo, já tinha a água como referencia vital. No livro do Gênesis, aparece a água como começo de tudo. “As trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas” (Gn 1,2). Segue-se, daí, a criação de todas as coisas...


Por meio da água, os judeus faziam abluções diversas, ritos religiosos de purificação no intuito de melhor seguir e amar o Senhor seu Deus. E, no mergulho nas águas, acreditava-se encontrar a cura para os males do corpo e da alma, como o paralítico que esperava as águas se agitarem para nelas se banhar (Jo 8,1-9) ou como o cego de nascença que ouve de Jesus a seguinte ordem: “Vai lavar-te na piscina de Siloé!” (Jo 9,8). A Samaritana vai ao poço à procura de água. Jesus se oferece a ela, como água viva: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é aquele que te diz: ‘dá-me de beber’, tu lhe pedirias e ele te daria água viva” (Jo4, 10). Mais que depressa, a mulher exclama: “Senhor, dá-me desta água, para que eu não tenha mais sede!” (Jo 4,15). Sabe que a vida não perpetua sem as águas, ainda mais sem essa água que a fonte da vida – o próprio Cristo – lhe oferece.


Tudo isso sem falar no batismo, começo de toda a vida cristã. É na passagem pelas águas que nós cristãos morremos para a vida de pecado e para a insignificância existencial para renascermos com Cristo, que dá sentido à nossa vida. Nas águas do batismo, nossa vida cristã é gestada; nascemos de novo! Ah! As águas! Sempre elas dando a vida! Eis que nossa vida é marcada pelo desejo de águas: águas dos rios que refrescam o corpo; águas potáveis que revigoram a vida; águas interiores que jorram curando feridas...


Certamente, a água da vida que o coração procura se faz tão necessária quanto a água que brota das nascentes e sacia nossa sede. Esquecemo-nos de que fontes podem secar, que reservatórios podem abaixar seus níveis, que chuvas podem não ser tão abundantes... Desdenhamos a importância das águas... E a vida cobra seu preço nos fazendo repensar nossas escolhas! O mesmo seja dito da água viva. Já pensamos poder viver sem ela ou, no mínimo, já vivemos à revelia como se não nos fosse tão vital. Em tempos atuais, redescobrimos a força da interioridade e, sedentos, temos corrido atrás de fontes refrigeradoras, desejosos de saciar a sede de Deus que em nós reclama.


E, agora, em tempos de tamanha aridez, uma lição nos é oferecida. Cada gota de água seja sorvida com avidez; cada oportunidade de beber da água viva seja aproveitada. Não desperdicemos as águas que fecundam a terra e lavam o corpo! Desejemos as águas vivas que fecundam as vidas, trazem promessa de saciedade e aplacam as chamas devoradoras do coração!

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