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24. O CREDO: Desceu à mansão dos mortos

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25.03.2016 | 5 minutos de leitura
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24. O CREDO: Desceu à mansão dos mortos

A mansão dos mortos


Talvez seja este o artigo mais difícil do Credo. Não aparece no Símbolo Niceno-constantinopolitano, talvez pela dificuldade que já apresentava no passado. Após afirmar que Jesus foi crucificado, morto e sepultado, o Símbolo Apostólico afirma que Jesus desceu à mansão dos mortos ou aos infernos. Descer ad ínferos, em latim, significa descer ao mais baixo. A esse significado mais rudimentar se somou a ideia mitológica segunda a qual há no profundo da terra um lugar de condenação. A condenação concebida como abaixamento a um lugar mais profundo na terra provavelmente influenciou a perspectiva hebraica da situação dos defuntos, que viveriam no Sheol(Hades em grego) que, nesse caso, nada tem a ver com lugar de condenação e castigo. Ali estariam apenas as sombras dos mortos, tanto dos justos quanto dos injustos. Os restos mortais ficariam no túmulo e os “restos espirituais” vão para o Sheol. Nesse lugar não há obra ou pensamento de sabedoria (cf. Ecl 9,10). Talvez esta mentalidade esteja atrás das palavras de Pedro sobre Jesus em sua primeira carta: “E no Espírito ele foi anunciar a salvação também aos espíritos que aguardavam na prisão” (1Pd 3,19), ou seja, no Sheol. Pedro não fala de inferno onde estariam os condenados, mas de cárcere onde permanecem os que morreram no dilúvio por causa de seu pecado.


Mais tarde a palavra inferno foi compreendida como lugar de castigo. E assim surgiu um a lenda segundo a qual Jesus Ressuscitado desceu aos infernos para manifestar sua vitória sobre o pecado e a morte e, até mesmo,para resgatar os que estavam condenados. A descida aos infernos se tornou, portanto, uma visita real de Jesus a um lugar de condenação para salvar os que ali estavam. O Credo, no entanto, não está afirmando que Jesus Ressuscitado foi a um lugar de castigo para resgatar possíveis condenados. O Credo fala apenas de uma descida à mansão dos mortos, ou seja, o que nada tem a ver com um lugar geograficamente situado. Mansão dos mortos se compreende no Credo como “situação dos mortos”. Jesus desceu “à condição dos mortos”, enquanto Filho encarnado que realmente experimentou a morte como todo ser humano.


Desceu à mansão dos mortos


Resta-nos agora a pergunta, fundamental para entende este artigo do Credo: O que queremos dizer quando dizemos que Jesus desceu à mansão dos mortos (aos infernos)? Não se trata, evidentemente, de uma descida a um local de condenação. A descida de Jesus à mansão dos mortos revela até que ponto chegou seu aniquilamento. Sabemos que ele assumiu a figura de Servo (cf. Fl 2,7), foi solidário com nosso pecado (cf. 2Cor 5,21), se fez por nós maldição (cf. Gl 3,13). O abaixamento de Jesus, messias Filho de Deus, chegou até à “condição dos mortos”. Ele participa do destino do ser humano que inclui a morte. A oração de Jesus na cruz segundo Marcos talvez nos ajuda a entender em que consiste a morte: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mc 14,34). A morte significa solidão radical, abandono total. Aquele momento em que o ser humano se sente absolutamente só e abandonado. Ninguém pode estar com ele na morte. Ele morre só, sem que possa experimentar a solidariedade alheia em seu morrer pessoal e único.


A descida de Jesus aos infernos significa que ele experimentou a nossa extrema solidão, pois, na sua Paixão, submergiu no abismo do abandono e da solidão. Como afirma Ratzinger (Bento XVI): “Onde já não se faz ouvir nenhuma voz, lá está ele. Com isto o inferno está vencido, ou melhor, a morte, que antes era o inferno, não existe mais. Morte e inferno deixaram de ser a mesma coisa, porque em meio à morte passou a existir a vida, porque agora o amor mora em seu meio. O único inferno que continua existindo é o fechamento voluntário de si próprio ou, como diz a Bíblia, a segunda morte (cf. Ap 20,14). A morte, porém, já não é o caminho para a solidão, pois as portas do sheol estão abertas”. Ela abre para a verdadeira vida da comunhão com Deus em Cristo pelo Espírito. A segunda morte permanece uma possibilidade para a liberdade humana, mas como algo que Deus não deseja, pois para todos ele quer a vida e a todos oferece sua misericórdia perdoante, esperando apenas que o ser humano se abra à sua graça.


Talvez nessa perspectiva se possa compreender a passagem de Mateus segundo a qual, com a ressurreição de Jesus, os túmulos se abriram e os corpos de muitos falecidos foram vistos (cf. Mt 27,52). A passagem de Jesus pela morte, pela “situação dos mortos”, e sua ressurreição desde aí, abre as portas da morte para a verdadeira vida, pois, desde que o amor se manifestou na morte, ela perdeu sua força. Jesus, após experimentar a situação real dos mortos (desceu à mansão dos mortos), marcada pela solidão e abandono, vista como o aniquilamento máximo do ser humano, venceu a morte com o seu amor extremo. Ele passou pela morte para que o ser humano chegue à verdadeira vida de Deus, pois ele reconciliou com o Pai a história e o universo inteiro.A possibilidade de salvação está agora aberta a todos. E a morte dos cristãos, e – por que não? – também dos não cristãos, é participação na morte de Cristo. A vitória de Cristo chega aos confins do universo pelo Espírito Santo.







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