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23. O CREDO: Foi crucificado, morto e sepultado

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19.02.2016 | 7 minutos de leitura
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23. O CREDO: Foi crucificado, morto e sepultado

Foi crucificado


No último artigo, falamos do sofrimento de Jesus, que o credo resume com a expressão “padeceu sob Pôncio Pilatos”. O sofrimento fez parte de sua vida e chegou ao extremo sob Pôncio Pilatos, representante do poder romano que condena Jesus à morte de cruz. O credo afirma, assim, que Jesus foi crucificado. Ele não morreu apedrejado, nem de infarto ou alguma doença. Ele foi crucificado. “Depois de o crucificarem, dividiram suas roupas, e ficaram sentados ali montando guarda” (Mt 27,35-36). São João afirma, por sua vez: “Ali o crucificaram e, com ele, outros dois, um de cada lado, e Jesus no meio (Jo 19,18). A solidariedade de Jesus com os sofrimentos humanos chegou, assim, ao limite. A morte de cruz era reservada aos piores criminosos da época e só podia ser decretada pelo poder político do Império Romano, que jamais condenava seus cidadãos a esta morte ignominiosa. Tal morte era reservada aos estrangeiros. Jesus era judeu, de um país colonizado pelo Império. São Paulo dirá que, na cruz, Jesus é maldito (cf. Gl 3,13), mas não porque Deus, seu Pai, o trata como maldito. Jesus é maldito segundo a Lei que, como aparece emDt 21,23, diz que quem pende da cruz é maldito diante de Deus. E Jesus, no extremo do sofrimento na cruz, se sente abandonado pelo Pai, o que, certamente, deu à sua agonia um aspecto ainda mais cruel. Mas ele confia no Pai; está abandonado na cruz, mas não desesperado. Segundo Marcos, o grito de Jesus na cruz é a oração do Salmo 22: “Meu Deus meu Deus, por que me abandonastes?” (Mc 15,34). O Salmo termina na confiança. Lucas atenua o grito de Jesus que, no seu Evangelho,termina sua vida com o Salmo 31, que expressa abandono confiante nas mãos do Pai: “Pai em vossas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).


Um grave erro a ser evitado é ver a cruz de Jesus como desejada por Deus para sanar a dívida que o ser humano contraiu pelo pecado. Nesse caso, o Pai desejaria a matança do Filho e se vingaria sobre ele a ofensa sofrida pelo pecado humano. Jesus seria o bode expiatório, aquele sobre quem Deus Pai descarregaria a sua cólera vingativa sobre os pecadores. Evidentemente, a morte de Jesus na cruz é fruto do pecado, do egoísmo e do fechamento do ser humano a Deus. O pecado é causa da morte de Jesus, pois ela é fruto da maldade, da injustiça e da corrupção do mundo. Mas o gesto de Jesus não é o preço que ele tem que pagar para aplacar a ira do Pai.


Ao contrário das outras religiões, nas quais o ser humano busca a Deus e lhe oferece sacrifícios expiatórios para extirpar sua culpa, o cristianismo afirma que Deus busca o ser humano e envia o seu Filho para salvá-lo e estabelecer uma comunhão amorosa com toda a humanidade. Na cruz, Deus perdoa o pecado do ser humano, porque acolhe a oferta de Jesus que, na condição dos homens a salvar – sua humanidade –, se oferece ao Pai por todos. Ele não oferece sacrifícios como faziam os sacerdotes do judaísmo. Ele oferece a sua vida por amor. Amor que na cruz chega ao extremo do seu paroxismo: Jesus é vitima de uma sociedade que esmaga o justo e o exclui de seu meio. No auge desse movimento injusto dos homens, ele se entrega como vítima que perdoa. O cristianismo representa, pois, uma virada. Não é o ser humano que busca Deus, como seria de esperar, mas Deus busca o ser humano em seu Filho para reconciliar consigo o mundo (cf. 2 Cor 5,19). Não aguarda que os seres humanos culpados venham até ele; ao contrário, ele se rebaixa para salvar o ser humano, vindo a nós com amor e misericórdia. Para o autor da Carta aos Hebreus, o sacrifício de Jesus (sua oferta na cruz) é o único que reconcilia a humanidade com Deus, tornando vãos todos os sacrifícios da era pré-cristã, que tentavam alcançar a benevolência de Deus através do sacrifício de animais e outros objetos. “A sua morte que, historicamente falando, não passava de um acontecimento profano, da execução de um homem condenado por crime político, essa morte foi, na realidade, a única liturgia da história da humanidade, liturgia cósmica, em que Jesus, deixando de lado o âmbito restrito do jogo litúrgico no templo, passou em público, aos olhos do mundo, pela cortina da morte para entrar no templo verdadeiro em que brilha a face do próprio Deus e onde ele não ofereceu objetos, o sangue de animais ou outros sacrifícios, mas a si mesmo (cf. Hb 9.11s)” (Bento XVI).


O mais importante, na cruz de Jesus, não são os seus sofrimentos. Deus não se alegra com os sofrimentos de Jesus e não os vê como o preço a ser pago pela reconciliação. O que importa é o amor de Jesus, levado ao extremo do absurdo. Só o amor dá significado à dor e ao sofrimento de Jesus. Só o amor dá sentido ao sacrifício. Se não fosse assim, os verdadeiros sacerdotes no drama de Jesus seriam seus algozes, que lhe causaram tantos sofrimentos. Mas foi o próprio Jesus que uniu em seu corpo o longínquo e o próximo, as duas extremidades separadas do mundo, Deus e o pecador (cf. Ef 2,13s.). A cruz revela, portanto, o pecado do ser humano e o amor insensato, louco (Santo Afonso) de Deus. Em Jesus que morre crucificado Deus se solidariza com o ser humano até às profundezas de seu abismo. O julgamento de Deus não é condenatório, mas salvífico. O fracasso humano de Jesus se torna o lugar onde o amor de Deus se expressa de maneira absolutamente inaudita para o ser humano. O injustiçado se entrega por todos e faz desse seu gesto final a síntese de sua vida em prol da multidão. “O Filho do homem não veio para ser servido, mas para dar sua vida para resgatar a multidão” (Mc 10,45). Jesus é a vítima que se oferece para recriar a amizade de Deus com todos os seres humanos, inclusive com seus algozes. Ele é a vítima que perdoa e não se vinga, pois seu projeto é criar uma humanidade nova.


Foi morto e sepultado


Após afirmar a morte de cruz de Jesus, o Credo precisa, ainda, que foi morto e sepultado. “Ao cair da tarde, veio um homem rico de Arimateia, chamado José, que também se havia tornado discípulo de Jesus. Foi até Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Pilatos mandou que lho entregassem. José tomou o corpo, envolveu-o num lençol limpo e o depositou em seu sepulcro novo, que tinha mandado abrir na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do túmulo e retirou-se” (Mt 27,57-60). A intenção é mostrar que a morte de Jesus realmente aconteceu, pois o sepultamento confirma a realidade da morte. Jesus não desceu da cruz e se curou para ir morar na Índia ou outro lugar, como pensam alguns autores fantasiosos. Os mortos são sepultados e o mesmo aconteceu com o Filho de Deus. Ele foi sepultado (1 Cor 15,4), descendo, assim, à mansão dos mortos. Sobre a descida de Jesus à mansão dos mortos, falaremos no próximo número.







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