24. Breve história de um bigode branco

Solange Maria do Carmo
Padre Geraldo Orione de
Assis Silva
O distinto senhor foi entrando na varanda, ajeitou-se na velha cadeira e, embalando-se, adormeceu. Seu enorme bigode branco brilhava à luz do entardecer, realçando-lhe a velhice também notada na careca luminosa. O netinho travesso veio entrando sem barulho e, vendo o avô em pleno sono, não pode deixar de se impressionar com os sinais da velhice estampada naquele rosto cansado.
- Vovô tá ficando velho - pensou consigo - já branqueou o bigode.
E decidiu dar sua humilde contribuição para rejuvenescer o bom velhinho.
Como não soubesse onde encontrar tinta preta para pintar logo o bigode do avô lembrou-se de ter visto no galinheiro algo bem parecido. Correu lá e deu de cara com um farto material: titica de galinha de todas as cores. Era só escolher a mais pretinha e apressar o serviço.
Tomou consigo uma porção vantajosa da coisa, embrenhou-se pela casa adentro e foi parar na varanda, pé ante, pé. O avô ressonava alto, perdido em seus velhos sonhos. O netinho, então, na sua costumeira esperteza, passou-lhe pelo bigode o precioso material, deu rápido acabamento artístico e saiu feliz em busca de outra traquinagem.
Não demorou muito, o avô acordou, feliz por respirar o ar puro da natureza. Ajeitando-se na cadeira, esticou os ossos e respirou fundo. Foi quando sentiu um odor detestável. De um salto, pôs-se em pé e respirou de novo para ter a certeza de que não estava sonhando. O cheiro forte de titica penetrou-lhe fundo nos pulmões, causando-lhe azedo mau-humor.
- Que triste despertar! Mulher velha já não sabe limpar a casa, imaginou.
Sem dar com a maçada, pôs-se a percorrer toda a casa, para ver se descobria a origem do terrível desagrado. Olhou em volta, na varanda, e nada. Foi para o quarto vizinho. Olhou o guarda-roupa, a cama, os cantos, debaixo da cama. Nada!
- Impossível! - Pensava consigo - o cheiro parece estar tão perto!
Saiu pelo corredor procurando e o cheiro o perseguia, mas não achou nem sinal da coisa. Foi à cozinha, à despensa, ao banheiro; olhou para cima e para baixo, para frente e para trás, menos para si, e nada.
- Que estranho - dizia - sei que não estou caducando. Há algo mal cheiroso nessa casa e é coisa braba.
Sem muito sucesso, o pobre velho cansou de procurar e dirigiu-se a uma janela para buscar ar puro. Abriu bem os pulmões e respirou.
- Que decepção - pensou tristonho - o mundo todo está uma grande merda!
Desconsolado, pôs-se a reclamar da vida - de tudo e de todos, culpando-os pelo terrível fedor. Sua profunda sabedoria não bastou para fazê-lo perceber que o problema estava bem ali no seu bigode.
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