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224. Reflexão para o 16º Domingo do Tempo Comum – Mc 6,30-34 – Ano B

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17.07.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
224. Reflexão para o 16º Domingo do Tempo Comum – Mc 6,30-34 – Ano B
Neste décimo sexto domingo do tempo comum, o evangelho proposto pela liturgia é Marcos 6,30-34. Embora curto, esse texto é muito significativo. Está em continuidade direta com aquele lido no domingo passado (cf. Mc 6,7-13), mesmo havendo um intervalo de dezesseis versículos, saltados pela liturgia, entre os dois textos (cf. Mc 6,14-29). O episódio narrado no trecho lido no domingo passado foi o envio missionário dos Doze discípulos-apóstolos, dois a dois, por Jesus, que lhes conferiu autoridade para que fizessem o mesmo que ele já fazia. O texto de hoje refere-se ao retorno da missão. E, ao retornar da missão, os discípulos se reúnem com Jesus para lhe contar o que tinha acontecido, ou seja, para partilhar com o mestre a experiência vivenciada.

Entre o envio e o retorno dos discípulos, o evangelista narra dois episódios, que correspondem aos versículos saltados pela liturgia, como acenamos acima. Trata-se do questionamento de Herodes sobre a identidade de Jesus (cf. Mc 6,14-16), e do relato da morte de João Batista (cf. Mc 6,17-29). Como a fama de Jesus já tinha se espalhado bastante, devido aos prodígios realizados e aos efeitos da sua pregação, o povo começou a confundi-lo com grandes profetas, como Elias e João Batista. Essa confusão parece ter perdurado bastante tempo, como será evidenciada novamente no episódio da confissão de Pedro, em Cesaréia de Filipe (cf. Mc 8,27-30). Imaginava-se que Jesus fosse um profeta que tinha ressuscitado. Isso chegou ao conhecimento de Herodes, que ficou preocupado. De fato, a atuação de um profeta é sempre motivo de preocupação para qualquer tirano. E como João Batista tinha sido morto a mando de Herodes, o boato de que ele teria ressuscitado deve ter deixado o tirano apreensivo. Diante disso, o evangelista narra o martírio de João, instigando seus leitores a pensarem nas consequências da missão, enquanto supõe-se que os discípulos de Jesus estavam espalhados pela Galileia, em missão. Ainda a nível de contexto, é importante recordar o episódio que vem depois do texto lido hoje: a multiplicação (condivisão/partilha) dos pães e dos peixes (cf. Mc 6,30-44). Esse acontecimento é um desdobramento do episódio de hoje, o que deveria ser o evangelho do próximo domingo, mas a liturgia do ano B substituiu pela versão do Quarto Evangelho (cf. Jo 6,1-15). Por sinal, a partir do próximo domingo, inicia-se uma série de cinco domingos de leitura do Evangelho de João, uma vez que, naquele Evangelho, o episódio da partilha dos pães é seguido de um amplo discurso, no qual Jesus se apresenta como pão vivo e alimento verdadeiro para todas as pessoas.

Feita a contextualização, olhemos então para o texto de hoje, o qual começa afirmando que “Os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que haviam feito e ensinado” (v. 30). Logo neste primeiro versículo, identificamos a continuidade entre evangelho de hoje e o do domingo passado: os apóstolos retornam da missão e contam tudo a Jesus. Essa é a única vez em que Marcos usa o termo apóstolos (ἀπόστολος), cujo significado literal é enviado. Logo, não se trata de um título, mas de uma dimensão do discipulado, conforme o relato da constituição do grupo dos Doze: “E constituiu Doze, para estarem com ele, e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14). Estar com Jesus e ser enviado é, portanto, a síntese do discipulado. Por isso, é importante a ênfase que o evangelista dá à reunião dos discípulos com Jesus, logo após o retorno da missão. E como aquela tinha sido a primeira experiência de missão, certamente tinham muito o que contar sobre o que tinham feito e ensinado.

O evangelista recorda esse fato com muito interesse para a sua comunidade. Nas idas e vindas da vida e da missão, é necessário fazer paradas para estar com Jesus e confrontar com ele o que se faz e o que se prega. É preciso contar tudo a ele. Não se trata de uma prestação de contas, nem de autopromoção ou propaganda. É preciso estar com ele e contar-lhe tudo para aprofundar as convicções e corrigir as eventuais incoerências. Provavelmente, como era a do próprio Jesus, a missão dos discípulos também deve ter sido marcada pelas situações paradoxais, previstas nas recomendações do envio: acolhida e rejeição, fé e incredulidade, elogio e difamação (cf. Mc 6,7-13). Os verbos “Fazer e ensinar” constituem  uma expressão que sintetiza a missão de Jesus (cf. At 1,1); significa que sua práxis consiste em obras e palavras. Aplicada aos discípulos, quer dizer que eles estavam em sintonia com Jesus, reproduzindo o seu agir no mundo e, consequentemente, recebendo acolhida e rejeição, como ele.

Os discípulos, enquanto apóstolos, voltaram cansados e Jesus sentiu a necessidade do descanso. Assim como era intensa a missão de Jesus, deve ser também a dos seus discípulos. Por isso, “ele lhes disse: vinde sozinhos para um lugar deserto e descansai um pouco” (v. 31a). É interessante notar a humanidade de Jesus: ele percebe o cansaço físico dos discípulos e reconhece a necessidade do descanso. Com isso, o evangelista adverte a comunidade para não cair no ativismo desenfreado que pode se tornar prejudicial. É necessário equilíbrio. Porém, o descanso proposto por Jesus não é um mero lazer, mas um aprofundamento nas convicções da vocação e da missão. É uma espécie de retiro. Por isso, ele convida-os para ir a um lugar deserto. Ora, na linguagem bíblica, o lugar deserto é propício para o encontro com Deus. Aqui, o descanso dos discípulos no deserto significa, além do necessário e importante repouso físico, a meditação das palavras de Jesus, a oração e a necessidade de renovar constantemente as convicções.

Apesar da necessidade, não era fácil para Jesus e nem para os discípulos reservarem um momento de descanso e retirada em um lugar deserto, pois “havia, de fato, tanta gente chegando e saindo que não tinham tempo nem para comer” (v. 31b). Essa é a segunda vez que o evangelista afirma que a presença das multidões ao redor de Jesus e dos discípulos os impediam até mesmo de comer; a primeira vez, foi na casa, em Cafarnaum, logo após a constituição dos Doze (cf. 3,20), no episódio dos conflitos com os familiares e os escribas. Isso evidencia a intensidade do seu “fazer e ensinar”, e revela que ele não ignorava as pessoas com suas necessidades, o que lhe custava muitas renúncias. Porém, a necessidade do descanso dos discípulos e o tempo para “ficarem sozinhos” com ele é vital, e a comunidade cristã precisa ser ensinada a sentir a necessidade desses momentos. Por isso, ele insistiu, como afirma o evangelista: “Então foram sozinhos, de barco, para um lugar deserto e afastado” (v. 32).

Como se vê, o evangelista faz questão de mostrar a insistência de Jesus com o descanso dos discípulos. A experiência do lugar deserto é indispensável, mesmo que não seja prolongada, tendo em vista às necessidades das pessoas. Na tradição profética, o deserto é o lugar onde “Deus fala ao coração” (cf. Os 2,16), por isso é imprescindível para a comunidade fazer constantemente essa experiência. É importante ressaltar que, ao insistir com a ida ao lugar deserto, Jesus não estava fugindo do povo, nem induzindo os discípulos a fazerem o mesmo; pelo contrário, estava ressaltando a necessidade de aprofundar a experiência de Deus em suas vidas para compreenderem melhor as necessidades do povo e, assim, servi-lo melhor. Essa insistência pela ida ao lugar deserto serve também de preparação para o episódio seguinte, que é a partilha dos pães (cf. Mc 6,35-44). Se antes, apenas com a pregação de Jesus, mesmo sofrendo rejeição em alguns lugares, as multidões já se aglomeravam ao seu redor (cf. Mc 2,1; 3,9.20; 4,1; 5,21), muito mais agora com a sua mensagem ampliada pela missão dos doze apóstolos. Com isso, tornava-se cada vez mais difícil encontrar o tempo necessário para a experiência importante do lugar deserto.

Enquanto Jesus e os discípulos partiram de barco, “muitos os viram partir e reconheceram que eram eles. Saindo de todas as cidades, correram a pé, e chegaram lá antes deles” (v. 33). A busca das multidões por Jesus parece desenfreada. Isso mostra a carência de vida no povo e, ao mesmo tempo, a esperança que Jesus transmitia. Certamente, a maioria eram pessoas marginalizadas pela religião e a sociedade, pessoas sem vez e sem voz que se sentiam acolhidas, consoladas e encorajadas pela mensagem de Jesus. Eram mulheres, enfermos, pecadores públicos, pobres; pessoas que tinham sido descartadas. Ao saber que Jesus inclui a todos e todas, essas pessoas não queriam perder a oportunidade de encontrar-se com ele. É isso o que justifica a pressa das pessoas, a ponto de chegarem ao local antes mesmo que ele e os discípulos.

O descanso dos discípulos parecia um direito sagrado, reconhecido pelo próprio Jesus, ao insistir tanto com a ida ao lugar deserto. Mas nada é mais sagrado do que a vida, e nada é mais urgente do que o cuidado com a vida. Por isso, ao chegar no deserto e ver a multidão, Jesus viu uma prioridade maior: “ao desembarcar, Jesus viu numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas” (v. 34). Embora irrenunciável, a experiência do encontro no lugar deserto não pode se sobrepor às necessidades concretas das pessoas, principalmente das mais vulneráveis. Essa cena não pode ser ignorada pela comunidade que tem acesso ao Evangelho. O evangelista Marcos é muito econômico nas palavras: só utiliza a palavra compaixão em quatro ocasiões (cf. Mc 1,41; 6,34; 8,2; 9,22) que são situações de extrema necessidade. Ao invés de envaidecer-se com o aparente sucesso, pois as multidões o buscavam incansavelmente, Jesus sente compaixão. Compaixão quer dizer o amor profundo e máximo de Deus, que nasce das entranhas, comparável somente ao amor materno; literalmente, significa “contorcer as entranhas”, o núcleo mais profundo e íntimo do ser humano, conforme a mentalidade semítica. É sentir dor por causa da dor do outro.

E o que fazia Jesus contorcer-se por dentro era a situação da multidão: “estavam como ovelhas sem pastor”. Essa comparação reflete a situação de extremo abandono e exploração em que se encontrava a multidão, e revela, ao mesmo tempo, a corrupção e hipocrisia dos dirigentes, tanto religiosos quanto políticos, a causa principal daquela situação. A imagem da ovelha é sinônimo de mansidão e vulnerabilidade; a ausência de um pastor que a conduza e proteja significa exposição aos perigos. A ausência de pastores que cuidem da multidão é uma nítida crítica aos dirigentes religiosos, principalmente. Antes de Jesus, os profetas já tinham denunciado essa situação, principalmente Jeremias e Ezequiel, que viveram um dos momentos mais dramáticos da história de Israel (cf. Ez 34,23-24; Ez 37,22.24; Jr 3,15; 23,4). Jesus se encontra com um problema que já se arrastava há séculos; poderia até ter “naturalizado” a situação, como muitos fizeram, certamente. Mas ele não aceitou como normal o sofrimento das pessoas, nem a exclusão, nem a fome. Logo, nenhuma situação de abandono, de dignidade ferida pode ser ignorada ou tratada como normal pelos cristãos.  

O plano de retirar-se para um lugar deserto foi alterado porque havia uma necessidade muito mais urgente do que o descanso dos discípulos: cuidar das pessoas que estavam “como ovelhas sem pastor”, ou seja, exploradas e abandonadas pelos sistemas dominantes da época: a religião oficial judaica e o império romano. Assim como fez Jesus, também deve fazer a comunidade cristã em todos os tempos: ser flexível com seus programas, diante das situações que exigem ações concretas e urgentes. A necessidade da multidão fez Jesus alterar seu programa. Por isso, ele “Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas”. É importante perceber que o primeiro fruto da compaixão de Jesus é o ensino (em grego: διδασκαλία – didaskalia); isso porque sua Palavra liberta. O ensinamento de Jesus consistia no anúncio do Reino de Deus, que comporta a construção de um mundo novo já aqui, sem exploração, sem discriminação, sem fome, sem desigualdades. É um ensinamento emancipatório que denuncia e desmente os discursos oficiais do império e da religião oficial. Não se trata da exposição de uma doutrina, mas de palavras de vida, de encorajamento para a superação da situação degradante em que o povo se encontrava. É um ensinamento universal, serve para todas as situações e lugares. Ele já tinha ensinado nas sinagogas (cf. 6,2), na casa (cf. Mc 3,20), na praia (cf. Mc 4,1), e agora ensina também no deserto. Isso quer dizer que em todos os ambientes a mensagem libertadora de Jesus deve ecoar, para gerar vida e libertação, e eliminar preconceitos e exclusões.  

Embora curto, o Evangelho de hoje é bastante rico, como acabamos de refletir. Percebemos que, enquanto comunidade enviada por Jesus, é sempre necessário estar com ele e confrontar o “fazer” e o “ensinar” com aquilo que o Evangelho propõe. A comunidade não pode medir esforços nem pôr obstáculos diante daquilo que é essencial, incluindo o cuidado com as pessoas mais necessitadas. Também não deve elaborar programas, fazer planejamentos, se esses não estiverem em sintonia com a situação concreta das pessoas. Se uma regra básica para o seguimento de Jesus é a disponibilidade para o serviço, as necessidades do próximo devem estar sempre em primeiro lugar, mesmo que sejam necessárias renúncias e sacrifícios para isso, como Jesus sacrificou o descanso dos discípulos que tinham acabado de chegar da missão, porque viu uma necessidade maior: o cuidado com as pessoas necessitadas.  

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