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223. Reflexão para o 15º Domingo do Tempo Comum – Mc 6,7-13 (Ano B)

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10.07.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
223. Reflexão para o 15º Domingo do Tempo Comum – Mc 6,7-13 (Ano B)
O Evangelho deste décimo quinto domingo do tempo comum é Mc 6,7-13, texto que relata o primeiro envio missionário dos Doze apóstolos por Jesus, sendo, por isso, paradigmático para a missão cristã em todos os tempos. Para compreendê-lo adequadamente, é necessário inseri-lo no devido contexto, como faremos a seguir. E começamos recordando o episódio anterior: a ida de Jesus com os discípulos à sua terra natal, Nazaré, num dia de sábado, quando ele foi desacreditado e rejeitado pelos conterrâneos, enquanto pregava na sinagoga (cf. Mc 6,1-6).  Por sinal, se não fosse a transferência da solenidade dos apóstolos São Pedro e São Paulo, esse texto teria sido lido no domingo passado, pois corresponde ao evangelho do décimo quarto domingo. Ao sentir-se rejeitado enquanto portador da Boa Nova de Deus, e até ridicularizado, como foi, a reação de Jesus não foi de desespero, nem de condenação, mas uma tomada de consciência de que havia muito mais a ser feito, os esforços deveriam ser ainda mais intensificados daquele momento em diante. Era necessário, portanto, que a missão fosse ampliada com urgência. Ora, Jesus sabia que a rejeição sofrida em Nazaré, marcada pela incredulidade dos seus conterrâneos na sinagoga, não era um caso isolado, mas um retrato de todo o Israel. Diante disso, tomou a decisão de enviar seus discípulos, especialmente o grupo dos Doze, para que sua missão se expandisse e os sinais do Reino de Deus frutificassem com mais urgência.

Ainda a nível de contexto, é importante recordar que, no momento em que constituiu o grupo dos Doze, Jesus lhes conferiu duas atribuições: “E constituiu Doze, para que estarem com ele, e para enviá-los a pregar, com autoridade para expulsar os demônios” (Mc 3,14). Como se vê, o discipulado comporta duas dimensões essenciais: o “estar com Jesus” e a missão. A missão, ou seja, o “ser enviado” é consequência do “estar com ele”. Ora, até aqui, no capítulo sexto, os Doze tinham apenas estado com Jesus, acompanhando-o na sua itinerância, escutando a sua pregação e observando os sinais realizados. O episódio de Nazaré fez Jesus perceber que tinha chegado o momento de enviá-los, pois a necessidade era grande. Jesus sabia que eles ainda não estavam totalmente prontos, pois no prosseguimento do Evangelho lhes fará diversas correções e advertências pelas incoerências percebidas (cf. Mc 8,33; 10,35). No entanto, era necessário fazer uma primeira experiência de missão, tendo em vista as exigências das circunstâncias.

Como já foi acenado, ao invés de fechar-se diante da rejeição sofrida, Jesus toma consciência da necessidade de ampliar a sua missão, por isso, “chamou os Doze, e começou a enviá-los dois a dois” (v. 7a). Certamente, na Galileia havia muitos outros povoados com gente fechada e incrédula como em Nazaré. O envio dos discípulos visa fazer a Boa Nova chegar a mais lugares simultaneamente, o que reforça a urgência do Reino. Jesus os envia dois a dois para enfatizar a dimensão comunitária da fé. Na verdade, o andar dois a dois já é uma primeira evangelização, pois significa fraternidade, é a superação do egoísmo e da autossuficiência. De acordo com a Lei, o testemunho de pelo menos duas pessoas era necessário para confirmar um fato (cf. Dt 17,6; 19,15), mas não é esse o sentido aplicado nesta passagem, como alguns estudiosos chegaram a defender. Para Jesus e sua comunidade, o mais importante aqui era a dimensão comunitária da vivência da fé. Não há espaço para individualismos na vida da comunidade cristã. A fé deve ser vivida e testemunhada em espírito de partilha, ou seja, comunitariamente. Andando dois a dois, os discípulos têm mais possibilidades de recordarem que os dons do Reino não são propriedade deles, mas pertencem a Deus.

E Jesus confere aos discípulos os mesmos dons que recebeu do Pai, e os capacita a tornarem real a sua própria presença durante a missão: “dando-lhes poder sobre os espíritos impuros” (v. 7b). Esses espíritos impuros são todas as forças do mal presentes no mundo, é tudo aquilo que gera violência, injustiça, exclusão, morte e preconceito; é tudo o que impede o ser humano de uma relação saudável com o Deus da vida, com o próximo e consigo mesmo; por isso, se constituem como obstáculos à realização do Reino de Deus. Logo, devem ser combatidos pelos seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Muitas vezes, esses elementos são criados pela própria religião, como a segregação e condenação por doenças físicas e psíquicas. O poder (em grego: ἐξουσία – exousia) conferido sobre tudo isso é o mesmo que o próprio Jesus já exercia. Na verdade, ao invés de poder, o termo mais apropriado é autoridade, o que significa ter liberdade e direito de agir. Nada tem a ver com domínio, força ou imposição. E como o próprio texto deixa claro, não se trata de um poder sobre as pessoas, mas de um poder sobre as forças do mal, que escravizam e privam o ser humano de sua liberdade e dignidade plenas. Portanto, Jesus não envia seus discípulos para dominarem nem submeterem as pessoas a uma doutrina, mas para atuarem com liberdade e pela liberdade das pessoas.

E o envio compreende algumas recomendações, das quais depende o êxito da missão: “Recomendou-lhes que não levassem nada para o caminho, a não ser um cajado; nem pão, nem sacola, nem dinheiro na cintura. Mandou que andassem de sandálias e que não levassem duas túnicas” (vv. 8-9). Essas recomendações refletem o estilo de vida que devem adotar os discípulos e discípulas de Jesus. A austeridade e simplicidade é exigência indispensável para o cumprimento da missão conferida por Jesus, pois foi assim que ele mesmo viveu, pobre entre os pobres. Somente vivendo assim se assemelha a ele, e ser discípulo é, acima de tudo, assemelhar-se ao mestre. Isso quer dizer que o discípulo não deve ter outra preocupação além do anúncio do Reino, por isso deve deixar de lado tudo o que possa distraí-lo e torná-lo sobrecarregado. E a simplicidade ajuda a manter o foco naquilo que é essencial, além de revelar total confiança na providência de Deus. Desprovidos de qualquer segurança e conforto, os discípulos missionários sentem a necessidade de adaptação ao que lhes for oferecido. Ao mandar que os discípulos andem de sandálias, Jesus reforça o caráter itinerante da sua missão, apresentando-a como um constante caminhar. Com isso, ele ensina que o lugar do discípulo não é o lar com seu conforto, mas a estrada com seus perigos e adversidades. Por isso, o cajado e as sandálias são essenciais. Ora, embora a casa tenha um lugar privilegiado na teologia de Marcos, essa não está relacionada a estabilidade ou conforto; significa o espaço de encontro fraterno, em oposição à sinagoga. Mas o verdadeiro lugar do discípulo de Jesus é a estrada, pois a Igreja nasceu para estar em saída, levando adiante o estilo de vida de Jesus.

Escrito cerca de três décadas após a morte e ressurreição de Jesus, o Evangelho de Marcos já reflete uma tendência preocupante para a comunidade cristã: o distanciamento do estilo de vida de Jesus em seus seguidores. Ao recordar essas recomendações de Jesus aos discípulos, o evangelista quis reforçar o que é essencial, chamando a atenção da comunidade para não se distanciar do modelo de vida que Jesus viveu e propôs. Além do estilo de vida, o evangelista também se preocupava com outros elementos importantes que corriam o risco de desaparecer da comunidade, como a hospitalidade, por exemplo. Por isso, recordou também as palavras de Jesus sobre esse aspecto: “E Jesus disse ainda: “Quando entrardes numa casa, ficai ali até vossa partida” (v. 10). Aqui, além de advertir os discípulos missionários para aceitarem o que lhes for oferecido como hospedagem, também chama a atenção da comunidade para acolher os peregrinos e missionários nas casas. Se estabelece, assim, uma reciprocidade na missão e na edificação do Reino. É necessária uma real inserção nas diversas realidades pelos discípulos, de modo que se sintam família na casa em que forem acolhidos, permanecendo nela enquanto estiverem no mesmo povoado. Permanecer quer dizer criar relações e laços duradouros. Da mesma forma, é necessário que as casas dos membros da comunidade estejam sempre disponíveis para a acolhida dos peregrinos e necessitados.

Tendo sido rejeitado em seu próprio povoado, Jesus via a rejeição como uma possibilidade bem concreta e possível, por isso, preveniu também os seus discípulos: “Se em algum lugar não vos receberem, nem quiserem vos escutar, quando sairdes, sacudi a poeira dos pés, como testemunho contra eles” (v. 11). Essa recomendação reflete bem o momento vivido por Jesus em Nazaré. Ainda chocado (cf. Mc 6,6) com a rejeição ali recebida, ele alertou os discípulos a não insistirem, pois devem respeitar a liberdade das pessoas; o Reino é anunciado e oferecido, mas não pode ser imposto. Mais uma vez, o evangelista aproveita também essas mesmas palavras para combater a tendência na comunidade de afastar-se do princípio da hospitalidade. Todos devem estar disponíveis a acolher o peregrino, sobretudo, quando esse é portador da Boa Nova. O “testemunho contra” não é uma forma de condenação, mas a confirmação de que o Evangelho foi proposto, porém foi rejeitado. As consequências para quem rejeita o Evangelho é viver privado do amor e da bondade de Deus, essenciais para o sentido da vida. Considerando a radicalidade do Evangelho, a rejeição ao anúncio sempre existirá.

Dadas as instruções de envio, diz o texto que “Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem” (v. 12). Quanto ao conteúdo específico da pregação, o evangelista não entra em detalhes. Apenas diz que consistia num anúncio de conversão. Ora, conversão (em grego: metanoia – metanoia) significa mudança de mentalidade e pensamento. A adesão aos valores do Evangelho exige rupturas com a maneira tradicional de pensar e compreender as coisas, inclusive a relação com Deus. Jesus percebeu em Nazaré que era urgente que aquele povo passasse por um processo de conversão, passando a um jeito novo de conceber o mundo, a vida e Deus. Por isso, enviando seus discípulos a outros povoados, propõe que todas as pessoas passem por esse processo. Com a mentalidade antiga, conservadora, apegada à lei, era impossível acolher a novidade do Reino de Deus. Embora o texto mencione apenas o chamado à conversão como objeto da pregação dos discípulos, certamente eles anunciaram o que tinham aprendido com Jesus até então, ou seja, os mistérios do Reino e a urgência da sua implantação, como Jesus tinha anunciado em parábolas (cf. Mc 4,1-34).

Imediatamente, o evangelista já antecipa o resultado da missão, por sinal, bastante positivo: “Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo” (v. 13). A principal razão para chegar a tais resultados é a fidelidade ao que foi recomendado. Quando a proposta de conversão proposta pelo Evangelho é aceita, os sinais do Reino de Deus se evidenciam. O evangelista pensa na sua comunidade, sobretudo: perseguições do império e hostilidade dos judeus. Ora, com muita probabilidade, o Evangelho de Marcos foi escrito em Roma, durante o reinado de Nero, quando os cristãos viveram a primeira grande perseguição. Era uma época em que o mal prevalecia explicitamente, e a ação dos cristãos parecia ter pouco efeito no combate. Diante disso, o evangelista quis ensinar que, se as palavras de Jesus forem realmente vividas, muitos resultados serão alcançados. O mal não tem a última palavra. O uso do óleo como um elemento medicinal e terapêutico era muito comum na antiguidade, e o cristianismo conservou essa tradição, adotando-o como elemento sacramental (cf. Tg 5,15). Os doentes são, em Marcos, a síntese da pessoa necessitada e excluída e, por isso, são os destinatários privilegiados do anúncio da Boa Nova, que não é a propagação de uma doutrina, mas um processo de humanização.

Ao ler e meditar hoje esse trecho do Evangelho de Marcos, a comunidade cristã é convidada a refletir sobre a sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus e ao seu envio, para recuperar aquilo que é realmente essencial à vida cristã. No mundo de hoje, marcado pelo individualismo e pela competitividade, não faltam questionamentos sobre a eficácia do anúncio cristão. A única resposta adequada a esses questionamentos é a coragem dos cristãos e cristãs para voltarem a viver à maneira de Jesus, como ele mesmo recomendou aos primeiros discípulos enviados.

Se em apenas três décadas após a morte de Jesus, Marcos percebeu que sua comunidade já dava sinais de distanciamento da sua proposta de vida, muito mais pode ser percebido depois de dois mil anos. Por isso, a necessidade de conversão é cada vez mais urgente. Que possamos, enquanto cristãos e cristãs, identificar os males que nos impedem de viver radicalmente o que Jesus propõe, e combatê-los, para o Reino de Deus ser de novo experimento e vivido.
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