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225. Reflexão para o 17° Domingo do Tempo Comum – Jo 6,1-15 – Ano B

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24.07.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
225. Reflexão para o  17° Domingo do Tempo Comum – Jo 6,1-15 – Ano B
Neste décimo sétimo domingo do tempo comum, a liturgia inicia uma sequência de cinco domingos de leitura do capítulo sexto do Evangelho de João, dando uma pausa temporária na leitura de Marcos. Trata-se de uma particularidade do ano litúrgico B, em virtude da brevidade do Evangelho de Marcos, comparado aos outros sinóticos. Por não ter material suficiente para todo o ano, recorre-se ao Quarto Evangelho, como complemento. Para hoje, especificamente, a liturgia contempla os primeiros quinze versículos deste capítulo: Jo 6,1-15. É o relato do episódio chamado popularmente de “multiplicação dos pães”, embora esse não seja o título mais apropriado. Se a liturgia estivesse seguindo a sequência de Marcos, seria também esse o episódio lido, pois corresponde à sequência imediata do que fora lido domingo passado. Portanto, a liturgia trocou o livro, mas não alterou a sequência temática.

É importante recordar que, no domingo passado, o evangelho foi concluído com a afirmação que Jesus, ao ver a multidão, “teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6,34). A primeira reação de Jesus, ao ver a multidão, foi a compaixão, e a primeira atitude foi ensinar. Mas, como não bastava o ensinamento, a esse seguiu-se o gesto da partilha dos pães (cf. Mc 6,35-42), como resposta à situação de abandono e sofrimento vividos pela multidão. Ora, a primeira consequência do abandono vivido pelo povo era a fome, como continua sendo hoje, devido à negligência dos maus governantes. A passagem do ensinamento à partilha do alimento mostra como Jesus sabia associar bem o ensinamento com a práxis, como deve fazer a comunidade cristã em todos os tempos. Os sentimentos de Jesus eram acompanhados de respostas concretas aos sofrimentos das pessoas. Portanto, apesar de estarmos hoje lendo outro Evangelho, é importante que este episódio seja compreendido como consequência da compaixão de Jesus diante do abandono e sofrimento do povo.

O episódio da “condivisão dos pães”, expressão mais apropriada do que multiplicação, é o único milagre ou sinal de Jesus narrado pelos quatro Evangelhos, com seis versões (Mateus e Marcos narram duas vezes), sendo que a versão joanina é a mais rica em detalhes e, consequentemente, em teologia, sendo ainda completada por um longo discurso de revelação de Jesus, no qual ele se autoapresenta como pão vivo e alimento verdadeiro para todas as pessoas, como veremos nos domingos seguintes. Esse discurso é considerado uma verdadeira catequese eucarística. Convém recordar que o Evangelho de João é muito contido em relação aos milagres de Jesus. Narra somente sete, aos quais nem sequer chama de milagres, mas de sinais, o que revela bastante prudência e profundidade da parte do evangelista. Ora, o sinal não é um fim em si mesmo, mas aponta para uma realidade que lhe ultrapassa, que vai além do que se experimenta e se vê. E no conjunto do Quarto Evangelho, a condivisão dos pães (e peixes) é o quarto sinal; está localizado exatamente no meio dos sete, e no centro literário da primeira parte da obra, chamada de “Livro dos sinais” (Jo 1–11). Logo, é clara também a sua centralidade teológica.  

O texto diz que “Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado de Tiberíades” (v. 1). Como se sabe, o que os evangelhos chamam de mar da Galileia era apenas um grande lago. O único evangelista que o chama de lago mesmo é Lucas. Os demais chamam de mar, certamente, por razões teológicas, tendo em vista o significado de adversidade e hostilidade que o mar representava para a mentalidade semita, o qual era considerado a morada do mal. Logo, atravessá-lo significava superar o mal. Enquanto nos sinóticos a passagem para outra margem significa a abertura ao mundo pagão e o encontro com as pessoas marginalizadas, em João é mais uma recordação do êxodo. Essa abertura ao mundo pagão já estava consolidada na época da redação do Quarto Evangelho (últimos anos do primeiro século), por isso, já não entra em discussão aqui. A travessia de uma margem a outra do mar por Jesus recorda o primeiro êxodo, mas não como mera repetição, e sim como superação.

A superioridade do novo êxodo proposto por Jesus ficará mais evidente no evangelho do próximo domingo (cf. Jo 6,24-35), quando ele fará a contraposição entre o pão dado por ele, que é a sua própria pessoa, e o pão dado aos antepassados no deserto (o maná), por intercessão de Moisés. Ora, mesmo vivendo na terra dado por Deus, o povo tinha perdido a verdadeira liberdade; logo, os efeitos do êxodo já não eram mais experimentados. O sistema religioso vigente, aliado ao sistema político dominante – o império romano – tinham assumido o papel do faraó do Egito, oprimindo o povo em todos os sentidos, desde o campo ideológico ao econômico. Por isso, a mensagem de Jesus é um convite à libertação porque o povo tinha se tornado escravo novamente. O destino do novo êxodo não é uma terra distante nem uma vida no além: é o Reino de Deus, um sistema baseado na partilha, solidariedade, amor, justiça e dignidade.

Jesus chamava a atenção das pessoas e atraía a multidão em seu seguimento “porque viam os sinais que ele operava a favor dos doentes” (v. 2). O termo que o texto litúrgico traduz por “doentes” significa muito mais, na língua original (em grego: ἀσθενούντων - asthenunton): significa as pessoas fracas, debilitadas, sem forças, fragilizadas, dentre as quais incluem-se os doentes; enfim, significa a massa dos marginalizados. Eram as pessoas que a religião tinha descartado, exatamente porque não tinham o que oferecer aos cofres do templo. E os sinais operados por Jesus eram, preferencialmente, em favor dessas pessoas. Portanto, as multidões se admiravam com Jesus, devido ao seu jeito de acolher, porque se sentiam representadas pela sua mensagem e, é claro, porque também queriam aproveitar-se materialmente dos sinais realizados por ele, o que será advertido por ele mesmo no discurso seguinte, como veremos nos próximos domingos.

As multidões seguiam Jesus enquanto “estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus” (v. 4). Com isso, o evangelista enfatiza Jesus como único sinal autêntico de libertação e alternativa para aquele povo abandonado como ovelha sem pastor. A Páscoa, como “festa dos judeus”, tinha sido transformada em instrumento de exploração, dominação e manutenção da ordem vigente. Por isso, mesmo sutilmente, o evangelista apresenta uma grande ironia: aquela festa celebrada em Jerusalém já não era Páscoa de Iahweh, não era mais a celebração da libertação do povo pobre escravizado, mas a “festa dos judeus”. É importante recordar que quando João usa o termo judeus, não se refere a todo o povo, mas às classes e grupos dirigentes, principalmente aos sacerdotes do templo que, de fato, tinham desfigurado o rosto verdadeiro de Deus. Assim, Jesus é apresentado como a alternativa de Deus à religião opressora do templo, e os primeiros a perceber isso são as pessoas mais simples e humildes, os pobres e excluídos que o seguem, as pessoas que tinham sido abandonadas pelos maus pastores de Israel.

A multidão que segue Jesus é um povo com necessidades concretas que não podem ser ignoradas. E Jesus reconhece logo qual é a primeira necessidade: o alimento. De acordo com o texto, ninguém lhe pediu nada, ninguém lhe disse que estava com fome; foi ele mesmo quem percebeu e logo se solidarizou, se preocupou com a fome do povo. Jesus se sente responsável, junto com seus discípulos, e transmite essa responsabilidade para a sua comunidade cristã, ao longo da história. Ele percebeu que aquele seria um bom momento para medir o aprendizado e a maturidade dos seus discípulos, por isso, provocou Filipe, mesmo já sabendo o que iria fazer: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” (v. 5). A resposta de Filipe é baseada em cálculos. Ele simplesmente apela para o campo da economia, avaliando a situação com as categorias do mercado: “Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um” (v. 8). A tentação de Filipe é de reproduzir na comunidade do Reino as relações do sistema: compra e venda, enquanto a dinâmica da comunidade deve ser outra: a partilha.

André, outro discípulo, parece começar a compreender a lógica de Jesus, embora ainda não tenha muita convicção: “Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?” (v. 9). Enquanto Filipe pensou em solucionar o problema com base na compra-venda, André olhou para a própria comunidade, percebendo o que já tinha, mesmo reconhecendo não ser suficiente. Aqui está a transição para a proposta de Jesus, a lógica do Reino: a solução dos problemas da comunidade deve ser buscada em seu próprio interior. Os cristãos e cristãs não podem esperar chegarem as condições ideias para o Reino de Deus se estabelecer; devem começar a viver os valores do Reino, mesmo em condições desfavoráveis, com o pouco que tem, e é assim que o Reino vai se edificando, aos poucos, a tempo e contratempo. 

Embora considerando insuficiente, a observação de André é muito importante: “um menino tem cinco pães de cevada e dois peixes”. Um menino era uma figura muito pouco representativa na época, sem nenhum valor reconhecido, uma vez que não produzia. Para enfatizar ainda mais esse aspecto, o evangelista emprega o diminutivo: um menininho (em grego: παιδάριον –  paidárion), quer dizer, uma pessoa que, aparentemente, nada teria a contribuir na solução de um grande problema. O pão de cevada era o alimento dos pobres, pois a cevada era o grão mais barato; os ricos comiam o pão de trigo. Os dois peixes servem de complemento numérico para chegar a sete, número que evoca completude. Com isso, o evangelista indica que, para resolver os problemas mais urgentes, é suficiente cada um colocar à disposição de todos o pouco que tem, o que André ainda não tinha compreendido suficientemente, mas estava a caminho da plena compreensão. O menininho com os cinco pães e os dois peixes é, portanto, a imagem ideal do discípulo/discípula e da comunidade cristã. Antes de tudo, para entrar na lógica do Reino é necessário fazer-se e reconhecer-se pequeno. Reino de Deus e grandeza são incompatíveis. Não importa a quantidade daquilo que se tem, mas a disposição de colocar a serviço do próximo. As soluções para os problemas da comunidade devem vir de dentro, e dependem dos pequeninos. A comunidade é saciada quando o pouco que cada um tem é colocado em comum; quando cada um considera aquilo que tem como dom de Deus e, por isso, destina à partilha.

O menininho não mostrou resistências, entregou tudo o que tinha e “Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes” (v. 11). André lamentou que somente cinco pães e dois peixes não seriam suficientes. Jesus foi mais além: “tomou os pães e deu graças”, ou seja, agradeceu pelo pouco que tinha! O evangelista usa aqui o verbo grego que originou a palavra eucaristia (εὐχαριστέω – eukharistêo). Eucaristia é, portanto, agradecimento, ação de graças pela partilha. Logo, para ter sentido na vida das comunidades, a eucaristia deve estar relacionada à partilha, à vivência da comunhão fraterna, incluindo a condivisão do pão e de outras necessidades. O pão aparece como primeiro sinal, porque a fome é o problema urgente, é algo que não pode esperar. Sem essa relação com as necessidades concretas, o que as comunidades chamam de Eucaristia pode não passar de teatro, sem sequer aproximar-se da Eucaristia de Jesus.

Ainda sobre a(s) atitude(s) de Jesus, ao receber os pães e os peixes, merece atenção a sequência apresentada pelo evangelista, que indica a lógica do Reino, uma verdadeira rede de solidariedade: “tomou os pães, deu graças e distribuiu-os”, dito de maneira mais simples, temos: “receber – agradecer – partilhar”. É essa lógica que o evangelista quer imprimir em cada comunidade leitora da sua obra, à luz dos ensinamentos e atitudes de Jesus. Muitos pormenores e dúvidas ficam, certamente, nas entrelinhas do texto, o que não ofusca o grande ensinamento de Jesus para a sua comunidade. André observou que um menininho estava com cinco pães e dois peixes, mas não diz que era somente aquele. O importante é que alguém teve de coragem começar a colocar à disposição dos outros o pouco que tinha, e Jesus agradeceu por aquilo. No final, todos ficaram satisfeitos. A solução veio de dentro da comunidade, e começando por quem menos poderia ajudar a solucionar um grande problema: um menininho. Tendo ficado todos satisfeitos, percebendo o que ainda tinha sobrado, “Jesus disse aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca!” Recolheram os pedações e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido” (v. 12-13). O número doze simboliza a totalidade do povo, a nação inteira de Israel, reconfigurada na comunidade cristã pelos doze apóstolos. A quantidade recolhida, doze cestos, significa, portanto, que quando a partilha é praticada, tem alimento para todos e todas, ou seja, ninguém passaria fome se todos vivessem concretamente o espírito da partilha. Essa não deve ser um ato isolado, mas uma prática constante na comunidade.

Assim como todos os sinais cumpridos por Jesus no Evangelho segundo João visam a manifestação da glória de Deus e o despertar da fé no Verbo Encarnado, também o sinal da condivisão dos pães despertou reação e reconhecimento: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo” (v. 14). Porém, essa é uma imagem insuficiente para descrever Jesus. Vê-lo como simples profeta é colocá-lo em continuidade com a antiga aliança e, portanto, negar a insuficiência e decadência daquela aliança que ele denuncia com os sinais cumpridos. Inclusive, a continuidade dos sinais ao longo do livro, mostra a necessidade de Jesus continuar revelando sua novidade messiânica e a superação da antiga aliança. A prova definitiva da incompreensão do povo em relação a Jesus está no último versículo: “Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte” (v. 15).

Enquanto Jesus queria ver o povo livre e emancipado, ensinando inclusive a encontrar a solução para os problemas dentro da própria comunidade, o povo faz o contrário: ao invés de viver a liberdade, quer um soberano para si, alguém que o domine e governe. Para o problema da fome, por exemplo, Jesus mostrou que a comunidade tem capacidade de superar quando vive o espírito da partilha e da solidariedade. A proclamação de Jesus como rei seria uma deformação do seu messianismo, o que persistirá por muito tempo na comunidade, inclusive entre os discípulos, como mostrará João na última ceia, com a resistência de Pedro à atitude serviçal de Jesus no lava-pés (cf. Jo 13,6ss).

O Evangelho de hoje mostra que a comunidade deve ter prioridades irrenunciáveis, e deve saber reconhecer as situações que não podem esperar, como a fome. O exemplo do menininho, colocando à disposição da comunidade os cinco pães e os dois peixes, e a atitude de Jesus rendendo graças pelo pouco que tinha, oferecem muitas luzes para os cristãos de todos os tempos. A comunidade não pode esperar ter condições necessárias para viver o programa do Reino, mas é ela mesma que tem que criar tais condições, encontrando dentro de si mesma a solução para os seus problemas, vencendo o egoísmo, a inveja, o orgulho e o desejo de poder. É claro que o Evangelho não tem respostas apenas para as necessidades materiais das pessoas, como veremos nos próximos domingos. Mas, no texto específico de hoje, a ênfase do evangelista é a necessidade de superar a fome de pão das pessoas necessitadas, ou seja, das almas de carne e osso!

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