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206. Reflexão para o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor – Mc 14,1–15,47 (Ano B)

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27.03.2021 | 12 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
206. Reflexão para o Domingo de Ramos da Paixão do Senhor – Mc 14,1–15,47 (Ano B)
Todos os anos, na liturgia do Domingo de Ramos, faz-se a leitura de uma das narrativas da Paixão e morte de Jesus. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico B, temos a oportunidade de ler e refletir a partir do relato de Marcos. Trata-se de um texto bastante longo – Mc 14,1–15,47 –, que compreende dois capítulos inteiros, totalizando 119 versículos, sendo que as comunidades têm a opção de ler a forma abreviada (Mc 15,1-39). Em nossa reflexão, consideraremos o texto completo, embora sua longa extensão não permita um comentário mais pormenorizado. Por isso, procuramos colher o sentido global do texto, destacando alguns elementos específicos considerados mais relevantes, partindo de uma ampla introdução contextualizadora. Não tratamos da cena da ceia, apesar da importância que possui, devido ao destaque que a quinta-feira santa já lhe reserva.

Os relatos da paixão e morte de Jesus constituem o núcleo de base da redação dos evangelhos. Embora o nosso foco neste ano seja especificamente o relato de Marcos, os aspectos introdutórios que abordamos aqui valem também para os demais evangelhos. Ora, as primeiras páginas escritas dos livros que hoje conhecemos como evangelhos, foram exatamente as narrativas da paixão e morte de Jesus. Como a catequese e a vida litúrgica das primeiras comunidades giravam em torno do anúncio do Cristo Ressuscitado, aos poucos, surgiram muitas dúvidas e questionamentos a seu respeito; surgiram perguntas do tipo: “Como ele viveu? Como foi a morte daquele que ressuscitou?”. Diante de tais questionamentos, a primeira necessidade foi contar como se deu a morte de Jesus, pois só ressuscita quem passa pela morte. Logo, era necessário contar como Jesus morreu.

Com as primeiras perseguições, tanto das autoridades romanas quanto das lideranças religiosas do judaísmo, a morte se tornava cada vez mais presente nas comunidades, e o anúncio e a adesão ao nome de Jesus passava a ser sinal de perigo. Para quem não tinha convivido com Jesus, tornava-se cada vez mais difícil perseverar na fé, acreditar no seu nome e na sua ressurreição. E, para animar e fortalecer uma comunidade ameaçada pela perseguição, nada mais adequado do que reconstruir a história da perseguição e morte de Jesus, enaltecendo sua fidelidade aos propósitos do Pai e a sua resistência. Os evangelhos, enquanto livros, surgiram, portanto, como resposta às dúvidas e crises vividas pelas primeiras comunidades. É claro que toda a vida de Jesus, desde o início com a pregação do Batista, é edificante para as comunidades cristãs. Mas, a memória da sua paixão foi a primeira necessidade para dar credibilidade ao anúncio da ressurreição. Ao ler o relato da paixão, portanto, estamos lendo o ponto de partida do evangelho escrito.

Tendo acesso hoje aos textos inteiros dos evangelhos, percebemos que o relato da paixão que estamos lendo mostra a conclusão de uma vida que não poderia ter um fim diferente. Ora, desde o início, a mensagem de Jesus foi uma alternativa aos sistemas vigentes, político e religioso. Logo, seu desfecho final foi o rechaço por parte desses sistemas. Durante a sua trajetória terrena, Jesus praticou e pregou o que a religião e o sistema político da época não priorizavam: o amor gratuito e incondicional ao próximo, a justiça, a gratuidade nas relações, o perdão ilimitado, o cuidado com os mais necessitados, a solidariedade, a acolhida aos excluídos e marginalizados, e o bem acima de tudo. Uma vida marcada por estas características não poderia ter outro fim, senão a condenação e morte precoces, pelos sistemas que não compactuavam com essa mensagem. É importante perceber que a cruz, a pior das penas aplicadas na época, não foi predestinação e nem acidente, mas consequência de uma trajetória marcada pelo inconformismo diante das atrocidades do sistema. Jesus não se adequou aos padrões de comportamento da época: não foi um cidadão exemplar, como exigia o poder romano, nem um devoto fiel, como exigia a religião judaica, pois sua obediência e fidelidade estavam todas voltadas para o Pai do céu e o bem das pessoas mais necessitadas.

O cenário da paixão é a cidade de Jerusalém, obviamente, onde Jesus viveu os últimos dias do seu ministério, que por sinal, foram os mais polêmicos. Após uma entrada triunfante na grande cidade, para participar das festividades pascais (Mc 11,1-11), logo começaram os conflitos, tendo a denúncia do templo como ponto de partida (Mc 11,12-19). Esse episódio desencadeou uma série de confrontos com os grupos político-religiosos hegemônicos, com Jesus se sobressaindo em todos eles, sobretudo nos debates em relação à interpretação da Lei. Percebendo que não conseguiam vencer Jesus no campo das ideias, estes grupos apelaram para a violência, formando um consórcio de morte junto ao poder imperial, para eliminá-lo. E quando o confronto se dá pela força e pela violência, Jesus já não reage, pois as suas armas não são as do sistema. Por isso, o relato da paixão é tão dramático e doloroso, pois Jesus faz do silêncio e da aparente passividade a sua maneira de reagir e denunciar, deixando até mesmo seus discípulos desconcertados e decepcionados, ao perceber que a messianidade de Jesus não correspondia às suas expectativas e aspirações.

Embora o cenário da paixão seja Jerusalém, como recordamos acima, a primeira cena acontece ainda em Betânia, uma pequena aldeia localizada a cerca de três quilômetros de Jerusalém, e ponto de apoio de Jesus nos últimos momentos de sua vida terrena. É uma cena muito importante, pois apresenta a unção de Jesus por uma mulher desconhecida (14,3-9) que, associada ao final do relato (15,47), compõe a moldura de toda a narrativa da paixão, marcada, do começo ao fim, pela presença das mulheres, cuja coragem e perseverança contrapõe-se ao medo e covardia dos discípulos. A mulher que unge o corpo de Jesus é uma profetisa anônima. Ela deposita sobre Jesus uma carga de amor, representado pelo perfume, que nenhum discípulo de primeira hora fora capaz de fazer. Pelo contrário, até a repreenderam pelo gesto, com um falso discurso em favor dos pobres que, não passava de retórica, sendo corrigidos pelo próprio Jesus (14,7-9). Esse gesto não apenas prepara Jesus para a sepultura, como a prefigura: serão as mulheres as testemunhas da boa ação de José de Arimatéia, o responsável pelo sepultamento de Jesus, e é com elas que o relato da paixão se encerra: “Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Jesus foi colocado” (15,47). Serão elas também as primeiras testemunhas da ressurreição. Isso mostra claramente que a comunidade de Jesus nasce fora dos padrões do patriarcado.

O segundo aspecto do relato que destacamos, por sinal negativo, é a dispersão da comunidade dos discípulos: “Então todos o abandonaram e fugiram” (14,50). Os discípulos, também sedentos por mudanças, sentem-se frustrados na medida em que percebem que o projeto de Jesus não corresponde às suas expectativas. No início do evangelho, Marcos tinha afirmado que, diante do chamado ao seguimento, “os discípulos abandonaram tudo e seguiram Jesus” (1,18.20). Agora, é a Jesus que eles abandonam. Judas tinha acabado entregá-lo, Jesus está sendo preso, e os discípulos lhe faltam com a mínima solidariedade. O mais resistente, o último a fugir, é um jovem anônimo (14,51-52) que não fazia parte do seleto grupo dos doze. Por sinal, esse é um detalhe exclusivo do Evangelho de Marcos: um jovem que foge nu. Muitos estudiosos veem nesse jovem a figura do próprio evangelista Marcos. A fuga dos discípulos é sinônimo de medo e covardia, mas também de decepção com o pretenso Messias. Jesus os tinha advertido sobre sua condição de Messias sofredor, mas eles não tinham acreditado. Só acreditaram na última hora e não aceitaram.

Além da traição de Judas e da fuga dos demais, outros aspectos negativos dos discípulos também são evidenciados por Marcos. Tendo já denunciado a falta de perseverança na oração (14,32-42), o evangelista denuncia também a superficialidade no seguimento: “Pedro seguiu Jesus de longe” (14,54a). Seguir de longe é não se comprometer; é não abraçar a causa em plenitude. Embora os demais nem de longe estivessem mais seguindo, não é admissível na comunidade um discipulado superficial. Quem segue de longe não suporta a pressão nem a perseguição, por isso está fadado à renegação, como de fato aconteceu com Pedro: “Nem conheço esse homem de quem estais falando” (14,71b), disse ele. O evangelista deixa claro, com isso, que não pretende denunciar com seu relato somente as forças externas que perseguiram Jesus e perseguem a comunidade. Também de dentro da comunidade podem surgir muitas forças tão danosas ao seu crescimento quanto os poderes externos.

O duplo julgamento de Jesus, um político e outro religioso, ou seja, diante do sinédrio e de Pilatos (14,53-65; 15,1-15), mostra a união das forças hostis, pois judeus e romanos não se suportavam, quando tem um inimigo em comum. O sinédrio, órgão jurídico máximo do judaísmo, o acusa de blasfêmia, e ao poder romano ele será denunciado como subversivo e agitador, alguém que pretende ser rei (15,2). Esses dois poderes estavam viciados na corrupção, no suborno e na mentira; mantinham um relacionamento de conveniência, tendo o povo pobre como alvo de suas cobiças. O movimento de Jesus surgiu como alternativa a tudo isso; logo, a repressão seria inevitável. A cruz é decretada como pena exemplar para Jesus. Em plena páscoa, a festa máxima dos judeus, a religião e o império não hesitam em condenar quem lhe ameaça. Não obstante tanto sofrimento, Jesus manteve-se firme em seus propósitos e na confiança no Pai. Não hesitou, mesmo não escondendo sua humanidade. Gritou de dor, lamentou-se, mas não renunciou às suas convicções. Em meio ao suplício e ao abandono dos seus, Jesus faz prevalecer as convicções de seguir até o fim. Aquele projeto de vida nova, com justiça, igualdade e amor sem distinção não poderia ser jogado fora de repente. O rosto amoroso do Pai que ele veio revelar não poderia mais ser escondido.

A cruz veio, portanto, como consequência de uma vida toda marcada pelo amor. E, em Jesus, ao invés de ser simplesmente sinal de condenação, a cruz se tornou sinal de salvação e de reconhecimento do seu amor e de sua pertença a Deus. Na cruz ele foi escarnecido e humilhado, mas também reconhecido em sua mais profunda identidade messiânica: “Na verdade, este homem era Filho de Deus!” (15,39c). Surpreende que essa declaração não saiu de nenhum discípulo, mas de um oficial do exército, um soldado romano e, portanto, um estrangeiro. Isso é significativo em dois aspectos, principalmente: primeiro, porque é na morte de cruz que a identidade de Jesus é plenamente revelada; segundo, porque daquele momento em diante, todos, independentemente da etnia e da religião, podem conhecer o rosto verdadeiro de Deus revelado no seu filho amado. Por isso, a confissão do oficial do exército romano é o ponto culminante de todo Evangelho de Marcos. O reconhecimento do centurião é mencionado após o evangelista dizer que “a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes” (15,38). Esse dado simbólico significa a falência completa da religião e do sistema que tinha acabado de matar Jesus. A cortina ou véu do santuário marcava a divisória do espaço sagrado do templo; somente os sacerdotes podiam ultrapassar a divisória demarcada pelo véu. Jesus, mesmo morrendo, mostra sua força; consegue abolir as divisões e rótulos impostos pela religião. De agora em diante, conhece a Deus quem segue o seu filho até as últimas consequências, quem vê na cruz instrumento de libertação e não mais quem frequenta o templo e oferece sacrifícios conforme as prescrições da Lei.

A presença das mulheres é destacada como testemunhas da morte de Jesus (15,40), como consequência de um seguimento serviçal: “Elas haviam acompanhado e servido a Jesus quando ele estava na Galileia” (15,41). Dos discípulos, não se diz que eles serviam, mas apenas que seguiam, que acompanhavam Jesus; provavelmente, foi por isso que não perseveraram até o fim. A perseverança das mulheres se explica porque, desde o início, abraçaram o seguimento como serviço, enquanto os discípulos colocaram aspirações triunfalistas como motivação para o seguimento. Sem pretensões de grandeza, motivadas pelo serviço, as mulheres testemunharam até o fim, acompanhando também o sepultamento: “Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Jesus foi colocado” (15,47); elas foram também as primeiras testemunhas da ressurreição. Sem sonhos triunfalistas, elas não viram a morte de Jesus como fracasso ou falimento de um projeto; não se sentiram perdedoras, mas viram até a morte como ocasião de testemunhar e servir. Por isso, são modelos de discipulado para todos os tempos, pois foram aquelas que acompanharam Jesus em todos os momentos da sua vida.

A comunidade de Marcos foi edificada e fortalecida a partir deste relato. Compreendendo a fidelidade com que Jesus abraçou o projeto de tornar o Reino de Deus acessível a todos, é possível perceber que a morte não é capaz de destruir a vida de quem se dedica dessa maneira ao bem de todos. A presença do Ressuscitado se tornou certeza na comunidade porque percebeu-se que Deus não abandona jamais um projeto quando esse é conduzido pelo amor. Também as comunidades de hoje são chamadas a fazer experiência semelhante àquela de Marcos: perseverar com os crucificados de hoje, todos os que lutam por um mundo de justiça, igualdade e amor, para que o Ressuscitado de ontem continue a ressuscitar em cada coração hoje e sempre.
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