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207. Reflexão para a Quinta feira Santa (Missa do Lava-pés) – Jo 13,1-15

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01.04.2021 | 15 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
207. Reflexão para a Quinta feira Santa (Missa do Lava-pés) – Jo 13,1-15
Todos os anos, a liturgia da Quinta-feira Santa propõe a leitura de Jo 13,1-15, para a missa da Ceia do Senhor. Esse texto corresponde ao relato do lava-pés, um episódio exclusivo do Evangelho segundo João, que é, certamente, uma das passagens mais conhecidas de todo o Novo Testamento. De fato, desde os primeiros séculos, esse texto tem marcado o cristianismo, recebendo diversas possibilidades de interpretação. Antes de tudo, podemos dizer que é um texto comprometedor, pois mostra que, no ápice da sua existência terrena, Jesus propôs o serviço, motivado pelo amor, como o principal sinal distintivo de pertença a si; o cristianismo, portanto, não pode ignorar esse fato. A localização do texto e o contexto da cena reforçam ainda mais a sua importância: conforme a divisão clássica do Quarto Evangelho em duas grandes partes – “Livro dos Sinais” (Jo 1 – 12) e “Livro da Glória” (Jo 13 – 21) –, o relato do lava-pés inaugura o “Livro da Glória”, introduzindo a narrativa da paixão de Jesus.

Apresentamos uma pequena contextualização para, em seguida, nos voltarmos diretamente para o texto. A princípio, pode causar espanto a diferença entre João e os demais evangelhos quando se trata da última ceia de Jesus com seus discípulos. Ora, ao contrário dos sinóticos (Mt, Mc e Lc), que dedicam poucos versículos à ceia, João dedica cinco capítulos: 13, 14, 15, 16 e 17. Ao longo desses capítulos, ele apresenta uma longa e profunda catequese de Jesus, ministrada com gestos e palavras, em forma de testamento, cujo tema central é o amor e o serviço, apresentados como únicos sinais distintivos da comunidade cristã. No Evangelho de João, não há nenhum aceno à “consagração” do pão e do cálice, como nos demais; por sinal, durante a ceia, o pão só é mencionado na descrição da traição de Judas (cf. 13,18.17.26.27.30). Essa ausência de referências ao pão e sua “consagração” pode ser explicada pelo fato de que João já havia feito em outra ocasião: após o sinal da “multiplicação dos pães” (cf. 6,1-15), o evangelista apresentou um longo discurso de Jesus se auto apresentando como o “pão da vida” (cf. 6,26-66). Por isso, já não havia mais necessidade de fazer uma nova catequese sobre o pão e sobre a entrega de Jesus como alimento, uma vez que essa já tinha sido feita.

O texto começa com um indicativo teológico-temporal importante: “Antes da festa da páscoa” (v. 1a). O evangelista não nega o contexto pascal no qual Jesus ceou com seus discípulos pela última vez, mas pretende diferenciar, ou seja, quer dizer que a páscoa celebrada por Jesus já não é mais a mesma do templo. A páscoa de Jesus não exige ofertas e sacrifícios, não é instrumento de exploração como se praticava no templo. Celebrando antes, Jesus substitui: aquela que será celebrada um ou dois dias depois pelos praticantes da religião oficial perdeu a sua validade, já não tem mais sentido. Na Páscoa do templo, o centro das atenções é a morte, o sangue derramado com a imolação dos cordeiros, enquanto na páscoa de Jesus com sua comunidade se celebra o triunfo da vida em forma de serviço, a mais eficaz manifestação visível do amor. Nessa, não há morte, há vida doada por amor. Morte é coisa da antiga aliança; na nova aliança, há doação de vida. Com essa introdução, o evangelista alerta para uma novidade: Jesus inaugura uma nova páscoa, subversiva, por sinal. E é essa que a comunidade cristã deve celebrar.

Ao longo de todo o Evangelho, João criou um clima de suspense em relação à “hora de Jesus” (2,4; 12,23). Agora ele mostra que essa hora chegou: “sabendo Jesus que tinha chegado a sua hora” (v. 1b). É a hora de Jesus glorificar ao Pai, não com ritos, mas com a doação livre da sua própria vida. O Pai que não se sentia glorificado com o falso culto praticado no templo de Jerusalém, uma vez que esse fora transformado em casa de comércio (cf. Jo 2,16ss), recebe de Jesus o verdadeiro culto: “tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (v. 1c). O amor de Jesus é ilimitado e, por isso, é “até o fim”.  “Amar até o fim” significa a intensidade do amor, e não o seu término. Quer dizer que Jesus amou de modo extremo, intenso, e continua amando, uma vez que, ressuscitado, vive entre os seus na comunidade. Das falsas aclamações e ritos vazios celebrados no templo, o Pai estava cansado. Jesus recupera a essência do culto e a transmite à comunidade: o amor-serviço.

Continuando, diz o evangelista que “Estavam tomando a ceia” (v. 2a). A ceia para a mentalidade bíblica não representa apenas o consumo de alimentos e bebidas para matar a fome e a sede, mas significa comunhão e intimidade, sobretudo no contexto pascal; é o momento primordial da vivência do amor-comunhão. Porém, Jesus realiza uma ceia alternativa ao ritual judaico. Nessa ceia de Jesus e da comunidade não há encenação, tudo é feito na maior sinceridade e transparência; por isso, o evangelista menciona o episódio lamentável da traição de Judas (v. 2b): nada é imposto. A comunidade é livre para acolher ou não o amor incondicional e extremo de Jesus e, portanto, no seio dessa comunidade é possível que alguns o rejeitem, como Judas outrora, e tantos nas gerações sucessivas. No entanto, a oferta de amor não diminui diante do risco de rejeição. Mesmo traindo, Judas continuou entre aqueles “amados até o fim”; ele perdeu a comunhão com Jesus quando abandonou o seu projeto e se aliou ao sistema dominante; o evangelista é enfático nesse sentido: “o diabo já tinha posto no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de entregar Jesus” (v. 2bc). Ora, Jesus seria capturado, independentemente da traição de Judas, pois há muito tempo as autoridades religiosas e políticas o almejavam; daquela Páscoa ele não passaria. O mal de Judas foi ter sido aliado e cúmplice do poder que gera morte e, ainda mais, movido por dinheiro. Sempre que o cristianismo permite alianças com grupos e sistemas de poder, sempre que silencia diante das injustiças, está permitindo que o “diabo seja posto em seu coração”.

A oferta do amor gratuito e intenso de Jesus pelos seus começou a se materializar quando ele “levantou-se da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura” (v. 4). Certamente, foram grandes o espanto e a curiosidade gerada nos discípulos com essa iniciativa de Jesus. Tirar o próprio manto em público significava renunciar ao prestígio e à dignidade pessoal, conforme a mentalidade da época; amarrar uma toalha na cintura significava improvisar um avental e colocar-se em atitude de serviço, assumindo a condição de servo. O que se fazia somente por imposição, Jesus o faz voluntariamente. Com essa descrição, o evangelista deixa cada vez mais clara a oposição de Jesus à liturgia oficial do templo: a indumentária dos sacerdotes do templo eram um impedimento ao serviço, com tantos adornos; ao invés disso, Jesus usa um avental improvisado de uma toalha, mostrando que não pode haver impedimento para o serviço. Esse gesto ensina que na comunidade cristã o serviço prevalece sobre o rito.

Na sequência, o texto diz o que Jesus fez após deixar de lado o manto e pôr-se em atitude de serviço: “Derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos, enxugando-os com a toalha com que estava cingido” (v. 5). Assim como os leitores de hoje ainda ficam perplexos com a descrição dessa cena, muito mais devem ter ficado os discípulos que estavam com Jesus à mesa. Aqui devemos considerar o ambiente e a situação histórica na época: lavar os pés antes das refeições – embora o evangelista descreva o gesto acontecendo já durante a refeição – era uma regra básica de higiene no antigo Oriente, sobretudo, porque as estradas eram bastante precárias, as sandálias muito simples, o que deixava os pés sempre sujos, empoeirados. Além do estado permanente de sujeira dos pés, devido à simplicidade das sandálias e condições das estradas, as refeições não eram feitas em mesas altas como as de hoje, nem os comensais se sentavam em cadeiras, sobretudo nos ambientes mais simples. A mesa, geralmente, era apenas um tapete ou uma esteira estendida ao chão e, ao seu redor, sentava-se em almofadas ou diretamente no chão, o que deixava os pés muito próximos da comida. Por isso, lavar os pés antes das refeições era uma exigência básica de higiene.

Sendo uma necessidade básica, o lava-pés tornou-se um sinal de hospitalidade e acolhida, no antigo oriente. Ao receber uma visita, o dono da casa oferecia, imediatamente, a água para lavar os pés, paralelo ao copo d’água para beber. A grande novidade do gesto de Jesus está na sua autoria; é o sujeito da ação o que causa perplexidade. No cotidiano, eram os escravos quem lavavam os pés dos membros da família e dos possíveis hóspedes. Em ocasiões especiais, a mulher lavava os pés do marido, e o dono da casa chegava a lavar os pés de convidados ilustres, em sinal de respeito e reverência, mas isso era raro. Às vezes, também alguns mestres (rabis) exigiam que seus discípulos lhe lavassem os pés. Mas, no dia a dia, eram os escravos quem cumpriam esse serviço considerado humilhante. Ao fazer voluntariamente, Jesus inverte completamente os valores: sendo ele Mestre e Senhor (vv. 13-14), fez o que era típico do escravo (ou do discípulo). Com esse gesto, Jesus diz que fica abolida a hierarquia na comunidade cristã, e a liturgia, enquanto rito, é substituída pelo serviço. Assim, ele ensinou aos discípulos de outrora e de sempre que devem estar dispostos a servir ao próximo em suas necessidades mais simples e básicas do dia a dia, inclusive nas consideradas mais humilhantes, como lavar os pés.

É claro que houve reação dos discípulos à atitude revolucionária de Jesus. O primeiro a protestar foi Simão Pedro: “Tu nunca me lavarás os pés” (v. 8). Ora, para quem tinha deixado tudo, imaginando seguir um futuro “Rei de Israel” e um Messias glorioso, deve mesmo ser chocante deparar-se com um “servo”. Por isso, o espanto e a negação; o que Jesus estava fazendo era inaceitável para quem tinha ambiciosas pretensões de poder. A reação de Pedro revela também as possibilidades de resistência dos oprimidos nos processos de libertação: as relações de igualdade parecem algo impossível para quem conheceu apenas um mundo dividido entre grandes e pequenos, súditos e chefes; essa mentalidade acaba naturalizando um mundo desigual, contrário aos desígnios de Deus. Jesus com suas palavras e gestos quis exatamente mudar essa realidade e visão de mundo. O mundo desigual, imposto pelo sistema e respaldado pela religião, estava naturalizado na visão de Pedro; a isso, Jesus combate, pois essa mentalidade não cabe na sua comunidade, enquanto embrião de um mundo novo, justo, fraterno, igualitário e solidário.

O outro motivo para a resistência de Pedro foi o medo das consequências do gesto de Jesus: se o mestre lava os pés dos outros, os seus discípulos deverão fazer o mesmo. Por isso, Pedro só aceitou a atitude de Jesus em última instância: se não aceitasse não poderia mais fazer parte da comunidade: “Jesus respondeu: Se eu não te lavar não terás parte comigo” (v. 8b). Aceitar um mestre servo e se tornar servo com ele e como ele é condição para fazer parte da comunidade cristã. Após a insistência de Jesus, Pedro aceitou, mas não compreendeu: “Senhor, então lava não somente os meus pés, mas também as mãos e a cabeça” (v. 9). O exagero da resposta de Pedro revela a sua total incompreensão. Na verdade, com essa resposta, Pedro quis desviar o foco da proposta revolucionária de Jesus: quis transformar a atitude serviçal de Jesus em um novo rito de purificação, um a mais entre os muitos que os judeus já praticavam e que Jesus tanto combatia. Pedro não aceita a igualdade e não admite ter que servir ao próximo com a mesma intensidade com que Jesus servia. Ora, transformando a atitude do lava-pés em um novo rito de purificação, Pedro estaria se isentando do compromisso com o próximo e ganhando mais um mecanismo de dominação ideológica, contrariando o ensinamento de Jesus. Para fazer parte da comunidade de Jesus, ou seja, para ter parte com ele, é necessário aceitar a sua proposta de vida com a revolução de valores e as consequências que essa implica.

Mesmo com resistência nos discípulos, Jesus concluiu o seu gesto: “Depois de ter lavado os pés dos discípulos, Jesus sentou-se de novo” (v. 12). Sentar-se à mesa era um direito exclusivo das pessoas livres. Logo, para a mentalidade da época, sentar-se à mesa e servir eram papéis incompatíveis: quem servia não tinha direito de sentar-se, e quem sentava não se humilhava servindo. Jesus aboliu essas diferenças. Sentar-se de novo após o serviço é a consolidação de uma verdadeira revolução de valores, uma inversão de ordem: no banquete da vida, vivido e celebrado pela comunidade cristã, há espaço para todos, principalmente para os que servem. Não pode haver divisão de classes na comunidade, porque todos são iguais: o que se senta à mesa serve, e o que serve senta-se à mesa. O que era papel do escravo, lavar os pés, é agora papel também da pessoa livre que pode levantar-se e sentar-se conforme a necessidade. As divisões hierárquicas não têm espaço na comunidade cristã, porque nessa prevalece o movimento de sentar-levantar-sentar para que as necessidades do ser humano sejam atendidas, desde as mais simples, como tirar a poeira dos pés, até as mais complexas, como dar a própria vida por amor.

Para os discípulos, não era fácil abraçar uma nova mentalidade, ainda mais tão revolucionária quanto a de Jesus. Com essa inversão de papéis, Jesus fazia desmoronar nos discípulos os planos de grandeza e projetos de poder que eles tinham cultivado até então. Ora, eles não sonhavam com uma mudança de sistema, um novo modo de organização para a sociedade e a religião. Queriam que as estruturas de poder continuassem as mesmas, mudando apenas as lideranças: ao invés dos romanos, que fossem eles, os discípulos do Messias, que controlassem a vida do povo, mas com os mesmos mecanismos de dominação: exército, cobrança de impostos, divisões de classe e uso da violência quando a “ordem” estivesse ameaçada. Até os últimos momentos de convivência essa mentalidade prevaleceu entre os discípulos. Por isso, Jesus dedicou tanto tempo na última ceia para catequizá-los e promover neles a consciência de uma nova ordem, partindo do seu exemplo: “portanto, se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (vv. 14-15). Temos aqui a instituição do serviço como mandamento para a comunidade de Jesus. Inclusive, a ordem para que os discípulos “façam a mesma coisa” em relação ao serviço, aqui no Quarto Evangelho, equivale ao “fazei isto em memória de mim” da tradição paulina sobre a Eucaristia (Lc 22,19; 1Cor 11,24-25). “Fazer a mesma coisa” que fez Jesus, obviamente, não significa reproduzir o gesto de lavar os pés uns dos outros, o que já não é uma exigência sanitária dos dias atuais; significa a disponibilidade total para o serviço incondicional, motivado pelo amor, na comunidade cristã. Para isso, é necessário assimilar o estilo de vida de Jesus, com disposição para “amar até o fim”, como ele fez. Sem isso, qualquer coisa que se faça em sua memória não passa de teatro.

Jesus em sua liberdade fez o papel do escravo para mostrar que na sua comunidade não pode haver distinção de classe: não há mais espaço para a escravidão, pois todos e todas são livres. O medo de Pedro consistia em não aceitar essa mudança de paradigma, como hoje muitos ainda resistem, preferindo fechar-se a uma mentalidade mais alinhada à religião do templo, duramente combatido por Jesus, e distante dos valores do Evangelho. Jesus celebrou, assim, a Páscoa da subversão: substituiu o rito pelo serviço, criou uma comunidade alternativa igualitária, na qual tudo deve ser orientado a partir do amor-serviço. Dessa comunidade não pode fazer parte quem prefere alinhar-se aos poderes que impedem um mundo e uma sociedade compatíveis ao modelo igualitário e fraterno proposto por Jesus.
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