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205. Reflexão para o 5º Domingo da Quaresma – Jo 12,20-33 (Ano B)

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20.03.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
205. Reflexão para o 5º Domingo da Quaresma – Jo 12,20-33 (Ano B)
A liturgia deste quinto domingo da quaresma propõe novamente a leitura de um texto do Quarto Evangelho, concluindo a sequência iniciada no terceiro domingo. O texto lido hoje – Jo12,20-33 – ocupa uma posição privilegiada no conjunto da obra. O episódio narrado funciona como transição entre o final da vida pública de Jesus e o início da narrativa da sua paixão, ou seja, entre o “Livro dos Sinais” (Jo 1–12) e o “Livro da Glória” (Jo 13–21), conforme a divisão clássica do Evangelho segundo João em duas partes. Junto com seus discípulos, Jesus já se encontra em Jerusalém para participar de mais uma “páscoa dos judeus” (11,55), sendo essa a última. Como sabemos, com a expressão “páscoa dos judeus” o evangelista denuncia que aquela festa já não pertencia mais a Deus, uma vez que, ao invés de ser celebração de libertação, transformou-se em instrumento de exploração, com o templo sendo transformado em “casa de comércio” (Jo 2,13-22). Por isso, para compreender melhor o evangelho de hoje é necessário ter em mente o episódio da denúncia dos vendedores no templo, lido e refletido no terceiro domingo.

Ao denunciar a mercantilização de Deus, Jesus propôs a destruição do templo-edifício de pedras e se auto apresentou como o novo, verdadeiro e definitivo templo, decretando a completa falência daquela instituição religiosa. Do primeiro versículo do evangelho de hoje, percebemos o início da realização daquela profecia: “Havia alguns gregos entre os que tinham subido a Jerusalém para adorar durante a festa” (v. 20). Com a expressão “alguns gregos” o evangelista se refere, em primeiro lugar, aos estrangeiros simpatizantes do judaísmo; eram pessoas que observavam a lei e sentiam-se adoradores do Deus de Israel. Por isso iam a Jerusalém para adorá-lo, mesmo não sendo admitidos oficialmente na religião judaica. É também uma declaração do universalismo da mensagem de Jesus. Nesse sentido, estes gregos representam os pagãos e todos os povos da terra, que um dia serão atraídos a Jesus, não por imposição de uma doutrina, mas movidos por um desejo de “ver”, ou seja, conhecer e viver uma experiência de amor com ele.

Com o templo transformado em casa de comércio, já não era mais possível adorar verdadeiramente a Deus naquela estrutura. Por isso, os gregos “Aproximaram-se de Filipe, que era de Betsaida da Galileia, e disseram: ‘Senhor, gostaríamos de ver Jesus’” (v. 21). O desejo dos gregos de ver Jesus significa que sua fama tinha se espalhado e, ao mesmo tempo, que a religião do templo já não favorecia mais o encontro das pessoas com Deus. “Ver”, aqui, significa conhecer, contemplar, ver em profundidade; é esse o significado do verbo grego empregado pelo evangelista (όράω– oráo). Na verdade, o “ver” ao longo de todo o Quarto Evangelho vai muito além da visão física; significa fazer experiência, entrar em relação; é o primeiro passo para a fé e o consequente testemunho. Os gregos não queriam conhecer os traços físicos de Jesus, mas fazer uma experiência de vida com ele, provavelmente porque sentiam que o templo de Jerusalém já não proporcionava uma experiência autêntica com Deus, era uma instituição espiritualmente falida, apesar de economicamente próspera. E os estrangeiros/pagãos são os primeiros a reconhecer Jesus como o templo verdadeiro, antes mesmo da destruição do edifício (Jo 2,19-22); esse é um dado de grande importância. Além da falência da instituição religiosa, o evangelista apresenta, ao mesmo tempo, o alcance universal da mensagem de Jesus: não estando preso a uma estrutura fixa e rígida, ele se torna acessível as pessoas de todos os povos e culturas.

Os gregos que queriam ver Jesus procuraram um discípulo, Filipe, e esse, por sua vez, procurou um companheiro de grupo, ou seja, outro discípulo: “Filipe combinou com André, e os dois foram falar com Jesus” (v. 22). Com isso, o evangelista não está “burocratizando” Jesus, mas enfatizando o papel essencial da comunidade cristã para favorecer o encontro com ele. Jesus é acessível a todas as pessoas; mas é na comunidade que se conhece e se faz verdadeiramente encontro e experiência com a sua pessoa. Na comunidade, todos devem ser acolhidos, independentemente da origem, das características ou da identidade; a comunidade cristã não pode negar a ninguém o direito de encontrar-se com Jesus. E quem já o conhece, obviamente, não mede esforços para que outras pessoas também o conheçam. Por isso, Filipe combina com André para juntos realizarem o pleito dos gregos. É importante recordar que, dentre os discípulos de então, somente Filipe e André tinham nomes gregos (Filippos – Φιλίππος; Άνδρέα – Andréa). Isso quer dizer que eles eram o caminho mais fácil para os gregos chegarem a Jesus, e é uma recordação para a comunidade cristã de todos os tempos valorizar os elementos que podem favorecer o diálogo e a fraternidade. Por isso, é essencial partir do que há em comum, daquilo que pode unir, antes de evidenciar as particularidades. 

A princípio, a resposta de Jesus aos discípulos que lhe levaram o pleito dos gregos parece não atender às expectativas: “Jesus respondeu-lhes: ‘Chegou a hora em que o Filho do Homem vai ser glorificado” (v. 23). Porém, não só atende, como vai além: a glorificação de Jesus é o alcance universal da sua mensagem, até então muito concentrada e destinada a um pequeno grupo. A “chegada da hora” é um tema central do Evangelho segundo João; tudo o que Jesus vivenciou até então foi preparação para a sua “hora”, desde o sinal realizado nas bodas de Caná (Jo 2,4). É a hora de entregar-se definitivamente, mas sobretudo, hora de demonstrar que os sistemas vigentes, político e religioso, não toleram que alguém viva somente para o amor! Foi por causa do seu excesso de amor que lhe levaram ao tribunal e, em seguida, para a cruz. Essa glorificação não significa uma entronização ou coroamento; é uma verdadeira explosão do amor que se torna acessível a todos, sendo capaz de contagiar o mundo inteiro. Esse amor não pode mais ser contido; por isso, será revelado plenamente, e todos poderão acolhê-lo: gregos e judeus, bons e maus, justos e pecadores. Portanto, a hora da glorificação do Filho do Homem é, ao mesmo tempo, a hora de desmascaramento de todos os sistemas injustos e de todas as formas de vida que não tenham o amor como princípio.

Como uma declaração solene, e fazendo uso da imagem do grão de trigo, Jesus anuncia sua morte e, ao mesmo tempo, o seu efeito: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto” (v. 24). “Em verdade, em verdade” (em grego: άμήν, άμήν – amén, amén) é uma expressão solene que sempre introduz um ensinamento importante e irrevogável de Jesus, e que não pode ser desconsiderado pela comunidade dos seus seguidores e seguidoras ao longo da história. A entrega, a capacidade de morrer por amor é um imperativo irrevogável para a comunidade cristã. Porém, não se trata de uma simples entrega passiva; não é sinal de resignação, mas é a coragem de lutar pela vida até as últimas consequências; essa luta não pode ser feita, senão movida pelo amor. Uma morte assim será sempre sinal de vida e de frutos abundantes, à semelhança do grão de trigo enterrado no chão.

Recordando que todo esse discurso faz parte de uma resposta ou apresentação de Jesus aos gregos que queriam vê-lo, podemos perceber a preocupação do evangelista com a sua comunidade e com as comunidades de todos os tempos: ver ou conhecer Jesus é envolver-se com o seu projeto de vida. E esse projeto exige renúncias, decisões e tomadas de posição. A primeira e decisiva posição diz respeito à própria vida! Para seguir Jesus é necessário compreender e aceitar que o sentido da vida está na capacidade de doá-la por amor para torná-la fecunda, como ele mesmo diz: “Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conserva-la-á para a vida eterna” (v. 25). Com essa declaração, Jesus não está convidando seus seguidores a menosprezarem a vida e a existência terrena, mas pedindo que lhe dêem sentido. E esse sentido passa pela capacidade de não se apegar tanto a ela, para que dela outras vidas também venham a ter sentido. Para isso, é necessário viver à sua maneira. Por isso, ele reforça o convite ao seguimento, associando-o ao serviço: “Se alguém me quer servir, siga-me, e onde eu estou estará também o meu servo. Se alguém me serve, meu Pai o honrará” (v. 26). Ora, muitos queriam e ainda querem ver Jesus ou receber explicações a seu respeito. Mas o próprio Jesus deixa claro que ele é inexplicável; para conhecê-lo é indispensável o seu seguimento com a disposição de servir. A comunidade tem a missão de, onde ela estiver, tornar presente Jesus e o Pai. Isso só é possível onde o servir e o seguir são de fato prioridades, tendo o amor por motivação. E a Jesus serve e segue quem vive à sua maneira, amando sem medidas, a ponto de entregar a própria vida.

Como o esse texto antecede de imediato à narrativa da paixão, é muito oportuno que o evangelista ressalte a humanidade de Jesus: “Agora sinto-me angustiado! E que direi? ‘Pai, livra-me desta hora!’? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim” (v. 27). Essa confissão de Jesus é muito relevante. É reveladora da sua humana condição, com todas as limitações que essa implica. Dar a própria vida custa dor e sangue. Porém, mais forte do que a dor e a angústia foi a confiança no Pai e a certeza de que, daquele amor transbordante, muitas vidas novas surgiriam, muitos frutos brotariam. Foi de fato, para “esta hora” que ele veio; não para morrer tragicamente como aconteceu, mas para testemunhar o amor até as últimas consequências. Como o(s) chefe(s) deste mundo (v. 31) não suportaram a irradiação do seu amor em demasia, eis que a “hora” se transformou em dor. O(s) chefes(s) deste mundo são todas as forças de morte, toda oposição ao amor e à justiça; é tudo o que se opõe ao Reino de Deus. Na época, foram, sobretudo, as lideranças políticas e religiosas que levaram Jesus à morte de cruz. Porém, o Pai deu a resposta definitiva: na mesma cruz em que morreu um corpo, dela irradiou amor como nunca visto.

E é no momento da angústia maior que Jesus reforça sua confiança e esperança no Pai, atestando o verdadeiro cumprimento da sua missão no mundo: “Quando eu for elevado da terra, atrairei todos a mim” (v. 32). É claro que “ser elevado” diz respeito à crucifixão. Àquela altura, já estava clara qual seria a sua pena: a cruz, como era para quem ousava desmascarar os sistemas de dominação, comandados pelo(s) chefes(s) deste mundo, na época as lideranças religiosas e políticas, hoje em dia com muitas outras formas de expressão. Jesus sabia que o seu elevar-se na cruz seria tão frutífero quanto o enterrar um grão de trigo no chão: sementes haveriam de germinar; sementes de amor, justiça, solidariedade, inconformismo e fé. 

Não obstante a dor e a angústia, assim como Jesus, os cristãos e cristã são convidados a crer que o sangue derramado por amor faz germinar; o amor tem uma força de atração indescritível; ao mesmo tempo, não podem acomodar-se com a vida banalizada e as milhares de mortes geradas por omissão e injustiças dos chefes do mundo de hoje. Só vê Jesus quem o segue e vive verdadeiramente o mandamento do amor. E quem o vê, não pode ser conivente com as injustiças e maldades no mundo que geram morte, dor e sofrimento.
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