19. A recepção dos Concílios

Fala-se muito, hoje em dia, em recepção do Concílio Vaticano II. Alguns chegam a afirmar que o Concílio não foi recebido ainda em sua plenitude e que o melhor dele está por vir. Mas o fenômeno da recepção não é algo novo, nem inusitado na Igreja. Os primeiros concílios, por exemplo, foram ora recebidos com mais entusiasmo, ora com mais dificuldade por este ou aquele grupo de fiéis.
A recepção é um acontecimento que se dá sempre em uma cultura determinada, por um povo de crentes, que busca atualizar a fé recebida dos apóstolos, podendo inscrever-se, portanto, em um período de tempo mais longo ou, por vezes, bem pequeno. A recepção não é um processo sem conflitos, debates, discussões... e, de certo modo, forma um só corpo com o concílio, que exige uma hermenêutica por parte daqueles que o acolhem, o que dá espaço para interpretações distintas. Deste modo, a recepção de um concílio revela o caráter dinâmico que há na Igreja entre os fiéis e as autoridades constituídas, pois, numa tentativa de comunhão e participação, o povo de Deus procura compreender e vivenciar a fé explicitada no Concílio.
A recepção não é algo planejado ou imposto. Ela se dá naturalmente à medida que o que foi dito e registrado num concílio se identifica com o que o povo de Deus vive e crê. A fé tematizada encontra ressonância na prática eclesial e faz eco no mundo, onde os fiéis procuram ser sinais da presença do Ressuscitado. Pela acolhida dos ensinamentos conciliares, algo novo se dá. Um sentido novo que não fora visado aparece no cenário da fé, sem, no entanto, contrariar o sentido original, mas completando-o e dando-lhe plenitude.
A recepção poderia ser dita como aquela que faz uma “dobradinha” com a obediência. Se a primeira se baseia na visão eclesial da comunhão de Igrejas, a segunda tem um tom jurídico e assenta-se numa visão mais hierárquica. Uma coisa não elimina a outra, mas certamente que a recepção tem caráter mais amplo e mais aberto ao Espírito. Assim sendo, ela é um sinal visível da ação do Espírito Santo, que continua sempre presente na vida da Igreja, dando-lhe dinamismo e vigor sempre novos.
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