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16. O Credo: síntese da fé e da espiritualidade cristãs

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07.05.2015 | 6 minutos de leitura
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16. O Credo: síntese da fé e da espiritualidade cristãs

O Credo em nossa vida


Se perguntássemos a um cristão como ele resumiria o conteúdo fundamental da sua fé, o que diria? Certamente falaria do ensinamento de Jesus sobre o amor, o perdão, a misericórdia. Resposta correta. Mas se a pergunta fosse mais matizada: - Mas cristão, em que você realmente acredita? Quem é Deus para você? Que significa a pessoa de Jesus e do Espírito Santo? Por que a Igreja? O que espera para sua vida após a morte? Será que alguém pensaria no Credo como resposta válida? E nós o rezamos em toda eucaristia dominical, todavia o recitamos de modo tão mecânico que sequer prestamos atenção em sua riqueza doutrinal e espiritual. Pois o Credo sintetiza o conteúdo da fé cristã e resume muito bem os ensinamentos do Novo Testamento, reunindo toda a Igreja numa só fé e numa só esperança.


A liturgia nos apresenta o Credo em duas versões. A mais breve nós a designamos “Símbolo dos Apóstolos”. A mais longa e mais complexa, a chamamos de “Símbolo Niceno-constantinopolitano”. Mas que palavra difícil é esta? Ela quer dizer que esse símbolo vem de dois concílios da Igreja, o de Niceia (ano 325) e o de Constantinopla (ano 381), duas cidades antigas, nos quais são utilizados termos mais doutrinais, teológicos e filosóficos (consubstancial) para explicar o essencial da fé cristã. Trata-se de uma forma mais erudita de apresentar aquilo em que cremos. O texto de Constantinopla completa o de Niceia. O “Símbolo dos Apóstolos” é mais simples, nasceu num contexto litúrgico-batismal, inicialmente em forma de perguntas e respostas, ainda presentes no ritual do batismo. Tem feito parte da liturgia da Igreja há mais de mil anos. Chamamos o Credo de “símbolo”, termo que vem do grego (symbalein) e significa “agrupar”, “ajuntar”, “reunir”. O Credo “ajunta” as afirmações principais da fé e “congrega” todos os cristãos, os de ontem, os de hoje e os de amanhã. Os que pertencem à Igreja gloriosa, por sua vez, já consumaram a fé professada no Credo: vivem em comunhão definitiva com Deus e os irmãos.


De que fala o Credo?


O Credo tem uma estrutura trinitária, ou seja, ele nos fala do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Atesta, assim, a verdade fundamental do cristianismo: a unidade de Deus em três pessoas. Se Deus é único, nós cristãos o confessamos como comunhão amorosa de três pessoas distintas: Pai, Filho e Espírito Santo. O Credo, porém, não somente afirma a existência de “verdades eternas”. Ele também conta-nos uma história, a história da salvação, da relação de Deus com os homens e a mulheres que ele criou. O Credo engloba toda a história da salvação, vai da criação do mundo e do ser humano por Deus até a realização plena da história no Reino definitivo. O personagem principal – o protagonista – desta história é Jesus Cristo, o Filho de Deus que se encarnou, se fez homem, anunciou o Reino, morreu e ressuscitou dentre os mortos no terceiro dia, enviou o Espírito Santo sobre seus discípulos e assim deu início ao tempo da Igreja, comunidade dos seus seguidores que mantém viva a memória de Jesus no mundo no poder do Espírito Santo, até que Ele mesmo venha consumar a história do universo e dos seres humanos criados por ele.


O Credo, no entanto, não se reduz a um anúncio de verdades, nem apenas conta uma história. Faz tudo isso e vai mais longe. Exige um contínuo esforço de apropriação do conteúdo da fé por um “eu”, no seio de “uma Igreja”que existe, por sua vez, no coração “da humanidade”. Mais importante do que anunciar o conteúdo da fé, os cristãos são permanentemente convidados a se apropriar pessoalmente desse conteúdo, fazendo-o seu, vivendo-o e dando testemunho existencial de sua veracidade. Cada cristão reza o credo na primeira pessoa: - Eu creio, no seio da Igreja e com a fé da Igreja, enquanto membro de uma humanidade que a ultrapassa, mas que não está fora dos raios da graça de Deus que nos é oferecida em Cristo pelo Espírito.


Por que tratar do Credo?


A princípio podemos rejeitar o Credo, afinal ele fala de “dogmas” da Igreja. Termo que, infelizmente, assume às vezes o significado de “imposição”, “rigidez”, “conservadorismo”. O Credo, no entanto, enquanto síntese das verdades cristãs, não pretende se fechar no “dogmatismo”. Ele nos fala de Deus e da comunicação do seu mistério a nós por amor; apresenta-nos um Deus que é, em si mesmo, amor (Trindade/Tri-unidade), que nos criou e não nos abandonou (salvação) e que permanece junto conosco, criando comunhão entre nós (Reino de Deus) em vista do nosso futuro absoluto nele (vida eterna). Se prestarmos atenção, veremos que o Credo nos presenteia com uma imagem de Deus que soa perfeitamente crível no mundo de hoje e que não se opõe a nenhuma verdade científica.


O mais importante no Credo se encontra no fato de ele nos apresentar o mistério de Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Infelizmente, para muitos cristãos, a Trindade parece mera abstração, distante da realidade. Deus emerge na experiência de fé de alguns apenas como “ser supremo todo-poderoso”. As orações litúrgicas da Igreja, todas trinitárias, passam despercebidas. Ouvimos a nomeação de Deus como Trindade cada vez que vamos à Igreja, mas não assimilamos esta linguagem sobre Deus, a única possível a partir de Jesus Cristo, pois ele mesmo nos revelou o mistério da Trindade. No evangelho de João afirma que o Pai o enviou. Diz o que ouviu do Pai e vai para o Pai na sua morte e ressurreição. Uma vez glorificado pelo Pai, de junto dele envia o Espírito Santo. Portanto, não fomos nós que inventamos a Trindade. Deus nos disse, através de Jesus, que Ele é Pai, Filho e Espírito Santo. Falar de um Deus que é, em si mesmo, comunicação amorosa de pessoas e que deseja nos comunicar o seu amor para que estejamos unidos entre nós a partir dele, seria, por acaso, alienação? Não é essa a mensagem central do evangelho? A boa notícia que Jesus veio nos trazer? Num mundo que nos apresenta tantas referências possíveis, em todos os setores da vida, inclusive no religioso, precisamos de clareza para viver como discípulos-missionários de Jesus Cristo. O Credo, se o compreendermos, oferecer-nos-á essa clareza de que tanto necessitamos.







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