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165. Jó: um homem impaciente

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05.02.2024 | 3 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Diversos
165. Jó: um homem impaciente
Repetida acriticamente ao longo dos séculos, a paciência de Jó se tornou provérbio popular e tema proverbial, ao mesmo tempo, sendo frequentemente usada como fundamentação para discursos de resignação e conformismo. Mas de onde vem a imagem de Jó como modelo de homem paciente? Certamente, não vem de uma leitura atenta do livro bíblico que leva o seu nome. Pode até vir do livro, mas de uma leitura muito superficial, sem visão de conjunto.
O mais provável é que a fama de modelo de paciência atribuída ao personagem Jó venha de uma tradução meio confusa de uma certa passagem da Carta de Tiago – Tg 5,11. Nessa passagem, lhe vem atribuída uma qualidade expressa por uma palavra que corresponde mais à perseverança ou constância do que a paciência. Se trata do substantivo grego “hypomonê” (ὑπομονὴ). Por muitos séculos, tem prevalecido a tradução desta palavra por paciência, mas já há traduções circulando com a palavra perseverança. A nova tradução da Paulinas – A Bíblia –, uma das melhores em circulação no Brasil, atualmente, traduz o referido versículo assim: «Vede como proclamamos bem-aventurados aqueles que perseveraram! Ouvistes falar da perseverança de Jó e vistes o resultado que o Senhor lhe concedeu; porque o Senhor é rico em misericórdia e compassivo.» (Tg 5,11). 
O que se constata com a leitura atenta do livro de Jó é a figura de um homem justo, perseverante, mas muito revoltado com a vida e com Deus, e com razão, tendo em vista as coisas que lhe tinham acontecido. O texto empregado pela liturgia deste domingo – 5º do tempo comum, ano B – é uma demonstração disso, e pode ser considerado até uma síntese do livro e da vida do personagem (Jó 7,1-4.6-7). Perceber em Jó o homem inconformado, rebelde, impaciente e corajoso pode ajudar-nos mais na compreensão e aceitação dos dramas pessoais que vivemos, como é típico do ser humano contemporâneo. A impaciência de Jó ajuda-nos a aceitar a nossa condição humana. Ele foi o homem do desabafo, da explosão dos sentimentos, corajoso para questionar Deus e o sentido da vida. 
Por causa dos problemas da vida, Jó perdeu noites de sono, sofreu de insônia e nunca teve medo de questionar Deus. Só questiona Deus quem confia, quem tem fé e coragem. E Jó teve. Por isso, embora ache muito bonito o Jó da paciência, prefiro o Jó rebelde, impaciente, inconformado. É muito triste constatar que muitas pessoas sofrem caladas, tem seus dramas presos por escutar muitas pregações repressivas que usam indevidamente a figura de Jó para justificar o sofrimento e situações de opressão e exploração. Jó ensina que, em muitos momentos, o desabafo é o único recurso para aliviar a dor, o desgosto, as decepções e outros dramas. 
Para corroborar esta pequena reflexão, recordo uma citação de um dos principais estudiosos do livro de Jó, o notável Cardeal Ravasi, um dos maiores exegetas vivos, especialista em literatura sapiencial, o bloco literário do qual o livro de Jó faz parte na Bíblia. Assim diz Ravasi: «Certamente, o livro de Jó não é um elogio de paciência. Jó é um impaciente por excelência, um rebelde. Mas mesmo que seja rebelde, ele nunca perde a ligação com a fé». Ravasi é autor de um dos melhores comentários exegéticos ao livro de Jó.