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12. As Bem-Aventuranças: um outro olhar sobre a pureza

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05.02.2016 | 5 minutos de leitura
José Roney
Diversos
12. As Bem-Aventuranças: um outro olhar sobre a pureza

O ideal de pureza é bastante relevante para o imaginário religioso judaico. Sob a exigência de ser santo como Deus o é (Lv 19,2), os judeus elaboraram uma série de prescrições legais para dizer do puro e do impuro. Tais prescrições legislavam as atividades mais corriqueiras, como o modo de se vestir, de comer, de agir, de rezar, de oferecer sacrifícios, de conviver com o próximo, de entender as doenças etc. Caso não se encaixasse nas leis prescritas, a pessoa tornava-se impura e ficava excluída do culto e até mesmo da vida social. Era preciso cumprir uma série de prescrições para ser posteriormente readmitida convívio social e religioso. Quem porventura se encontrasse impuro, deveria necessariamente se purificar, sob pena de sofrer os severos castigos divinos, pois entendia-se que Deus, aquele que é todo puro, não tolerava a impureza.


É curioso notar como Mateus, ao elaborar o seu Evangelho, trata da temática da pureza sob uma outra perspectiva. Mateus desloca a pureza externa para o íntimo do coração: “bem-aventurados os puros de coração”, disse o evangelista. Mateus é do círculo rabínico judaico, portanto, um profundo conhecedor da Torah e dos preceitos da religião judaica, inclusive acerca da pureza. Sendo, porém, um judeu convertido ao cristianismo, o evangelista relê o judaísmo sob chave interpretativa cristã, fazendo com que as promessas messiânicas do Antigo Testamentos e cumpram na pessoa de Jesus.


Ao elaborar o seu discurso sobre o sermão da montanha, Mateus nos apresenta Jesus sobre um monte, à imagem do novo Moisés. Jesus está sentado, ensinando como um bom mestre. Seu ensinamento, por sua vez, começa com as Bem-Aventuranças (Mt 5,1-12) que é a primeira parte de seu programa de vida. Na ótica de Mateus, Jesus – o novo Moisés – dá a nova lei (a nova Torah) à comunidade cristã (o novo Israel de Deus). Ao todo, Jesus menciona nove Bem-Aventuranças, dentre as quais, chama-nos atenção a sexta prédica, que retoma o conceito de pureza: “Bem Aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5,8).


Mateus desloca a pureza externa, ritual, tão conhecida dos judeus, para o mundo interno, o coração. Ele se reporta a um outro tipo de pureza, não mais aquela provinda dos rituais judaicos que procuravam estabelecer o “puro” mediante ritos que preconizavam a exterioridade. Na verdade, a pureza da qual nos fala Jesus no Evangelho de Mateus é a pureza interior, aquela que emana de dentro, provém do âmago de cada pessoa humana, do mais profundo de seu ser.


A predita metáfora do coração diz de maneira poética acerca desse “lugar” secreto desde onde se origina aquilo que há de mais ético e de mais belo em nós, ou de mais medíocre e feio. Nesse sentido, expressões visivelmente notáveis, tais como, os bons costumes, a solidariedade assistencialista, o altruísmo, o bem vestir, o bem comer, o bem palavrear, as práticas higiênicas, o preciosismo litúrgico e a pretensa boa moral defendida por alas eclesiais conservadoras (atitudes não raras por parte de inúmeros líderes religiosos ainda hoje), dentre outras, podem não passar de artifícios superficiais a partir dos quais inúmeras pessoas se auto-enganam acerca de sua pretensa pureza, ou tendenciosamente procuram esconder suas impurezas e obscuridades (como outrora faziam os mestres da lei). Os que assim agem insistem em desprezar aqueles que fogem dos padrões comportamentais aceitáveis estabelecidos pela sociedade, pela religião, enfim, pelas instituições de modo geral. Desse modo, ficam excluídos da religião os pobres, os divorciados, os casais de segunda união, os negros, os homossexuais, os doentes, os idosos, e tantas outras pessoas que, amiúde, são demonizadas e marginalizadas em nossa sociedade por parte daqueles que se acham “puros”.


Não é difícil perceber que Jesus, ao dar estatuto de legitimidade à pureza do coração, fizera-o por meio de um olhar diferenciado que o possibilitou enxergar para além das aparências, para além das normas legais pré-estabelecidas, para além do puro fenômeno (aquilo que aparece). Jesus viu beleza onde, à primeira vista, só se poderia ver feiura; viu justeza onde, à primeira vista, só se poderia ver injustiça e corrupção; viu pureza onde, à primeira vista, só se poderia ver impureza. Só se pode ver tais coisas quando, em vez de se cegar com as vendas da lei, nossa visão é potencializada com as lentes do amor.


Sim, os puros de coração verão a Deus, disse Jesus. Desde já, os que têm o coração puro veem o Senhor presente em suas vidas, em cada luta, em cada labuta, em cada intempérie, em cada sofrimento, em cada tristeza derramada em pranto ou em cada alegria esboçada em canto, em cada encontro ou desencontro. As palavras de Jesus esboçadas no relato mateano intuem certo que o coração é a morada do Espírito, recôndito da caridade, sede de uma pureza que se traduz em humanidade e se desdobra em honestidade, integridade e dignidade, independente de quem sejam (ricos ou pobres), do que façam (de sua moral e de seus costumes; por vezes éticos, não obstante, contrários aos valores estabelecidos pelo status quo) ou de onde estejam (nas melhores residências, nos subúrbios, nas áreas de mineração, nas comunidades de fé mais desprovidas materialmente etc.).





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