81. Viver para servir

“Eis aqui a serva do Senhor;
faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38)
“Quem não vive para servir,
não serve para viver"
(Mahatma Gandhi)
A vida dá o que pensar. Tanta corrupção entre os eleitos pelo povo dá asco! Tanta enganação à gente simples e pobre que elegeu seus representantes para que eles os servissem e defendessem sua vida e, agora, enganam, estropiam as gentes, roubam das ovelhas o último pelo de lã, a última gota de leite, dá um mal-estar e uma des-esperança desesperadora! A política que deveria ser serviço aos cidadãos tornou-se palco de disputas desleais pelo poder. Mas isso não é de hoje, já sabemos disso.
No Evangelho de Lucas, encontramos um relato curioso da paixão de Jesus. Pilatos está julgando o Nazareno quando alguém diz uma palavra que o faz desconfiar que Jesus é da Galileia. Imediatamente o Poderoso não se faz de rogado. Manda Jesus para Herodes, tetrarca da Galileia. Que resolva para lá a encrenca daquela região enquanto ele cuida da ordem de Jerusalém. E tenta tirar o corpo fora, empurrando para outrem a decisão sobre a vida do Mestre de Nazaré. Faltava coragem a Pilatos: coragem para salvar uma vida, coragem para fazê-la perecer. Mas Herodes não aceita a manipulação, devolvendo o Nazareno para Pilatos. Nesse jogo-de-empurra, as duas autoridades – que antes eram inimigas – fazem as pazes, travam laços interesseiros de amizade. São as tramoias da política ou da politicagem. Representantes do povo que, em vez de servir as gentes, servem-se a si mesmos, tirando proveito de tudo: até da desgraça alheia.
Ao contrário de Herodes e Pilatos, que nem imaginam como se conjuga o verbo servir – a não ser no imperativo, segunda pessoa do singular e plural: “Serve-me ou servi-me!” –, Lucas apresenta uma jovenzinha de Nazaré como modelo de serviço. Mal ouviu a mensagem do anjo dizendo que Isabel, já na velhice, se encontra grávida, Maria saiu correndo – às pressas, diz o texto – para servir sua prima e ajudá-la em tempos de sua gravidez (cf. Lc 1,39-40). Maria honra com a resposta dada ao anjo, quando do anúncio do nascimento de Jesus: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim, segundo a sua palavra!” (Lc 1,38). Aquela que se apresenta como serva se põe, de fato, a serviço. Sabe que a vida não serve para outra coisa a não ser servir o outro, defendendo e protegendo a sua vida, tantas vezes ameaçada por lobos ferozes.
Em tempos de tanto barulho em torno da política e da corrupção que a envolvem, assusta-nos não somente a corrupção em si – aliás, coisa detestável e mais velha que a poeira cósmica –, mas ver como os caminhos que foram pensados para servir são usados para o bem próprio. O Congresso e a Câmara servem a si mesmos, aos seus interesses, às suas manobras políticas. A justiça dá sentenças em causa própria ao invés da imparcialidade que lhe era esperada. O executivo agarra-se ao seu trono e tem medo da “ciranda das cadeiras” que faz parte do jogo da vida. As autoridades religiosas se calam, ou falam meias palavras, quando deveriam orientar o povo. Cada qual parece querer ser servido em vez de servir. Mas não está a vida cristã baseada exatamente no serviço desinteressado ao outro, como no exemplo dado por Lucas do bom samaritano? Que poderia aquele pobre caído – provavelmente judeu que descia de Jerusalém depois de cumprir as prescrições litúrgicas que lhe eram devidas – dar em troca a um samaritano que ele nem conhecia? Que poderia um homem marginalizado e sofrido retribuir a outro quase tão pobre coitado quanto ele, anônimo e desprezado, vindo das terras estranhas da Samaria? O serviço prestado pelo samaritano ao homem assaltado não lhe garante nem reconhecimento, nem recompensas, nem glórias... Apenas desprezo, discriminação ainda maior por se contaminar com o impuro, e chacotas da parte dos seus que não entenderiam o porquê de um samaritano estender as mãos aos judeus que os desprezavam. Mas Lucas sabe que o serviço não tem outra retribuição a não ser ele próprio, que o serviço ao irmão não deve esperar recompensa a não ser aquela de seguir seu caminho servindo sempre. Lembremo-nos do que disse Mahatma Gandhi: “Quem não vive para servir, não serve para viver”, pelo menos não em sociedade. Sigamos – independente dos exemplos das autoridades – servindo sem jamais desanimar, sem buscar retribuição alguma. E cantemos “Quero servir o meu irmão, como Jesus nos ensinou. O importante é compreender o amor. E a bondade vai então reinar, quando todo mundo decidir amar. Nós uns pro outro, vivemos pra servir. Se o irmão ajuda o irmão dá gosto existir. Se algum dia acontecer, algum mal te atormentar, vou estar sempre por perto prá te ajudar” (Orione Silva e Solange do Carmo).
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