39. Companheiro de caminho

“Até aqui o Senhor caminhou conosco.” (2Sm 7,12)
“O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada.
Caminhando e semeando, no fim terás o que colher!”
(Cora Coralina)
Sempre que as férias se aproximam e a possibilidade de viajar aparece, surge também uma grande incerteza: “Para onde ir? Na companhia de quem?”. Viajar é coisa boa. Deixar pra trás a rotina e fazer novos itinerários, conhecer novos lugares, experimentar novos sabores, conversar com interlocutores diferentes, contemplar novas paisagens e experimentar outras emoções que não as corriqueiras!... Tudo isso nos seduz e nos conduz a viajar.
Para fazer uma boa viagem, porém, não basta ter bom roteiro nem bom destino; não são suficientes bons hotéis e boa comida, nem um número incontável de aventuras a realizar... Para que uma viagem seja realmente prazerosa, conta muito a companhia.
Um bom companheiro de viagem muda tudo: até os caminhos já percorridos, ganham teor de novidade quando se tem o prazer de estar com quem a gente ama, com aquele que nos entende e faz comunhão conosco. De repente, passamos a ver o já visto com outros olhos. Adquirimos uma espécie de lente fotográfica, capaz de captar o antes escondido. Quando isso acontece, não é o destino que importa, mas o caminhar juntos. No peregrinar do caminho, encontra-se uma alegria, uma satisfação de estar ao lado, de conversar, de trocar olhares, de permitir a lentidão das confidências, de ficar em prolongados silêncios, por alguns momentos viver sem interditos e sem culpas, simplesmente à mercê do amor.
O contrário também é verdadeiro. Um companheiro ranzinza e mesquinho pode estragar a mais esplêndida das viagens. Nenhum hotel cinco estrelas, nenhuma aventura radical e nenhum lugar paradisíaco valem o preço de uma companhia desagradável.
É engraçado como a gente conhece uma pessoa quando viaja com ela: seus gostos, suas opções de vida, suas neuroses, suas virtudes como também suas vaidades, tudo vem à tona numa viagem. Quase todo mundo já deve ter experimentado a desventura de ter realizado uma viagem com companhia equivocada. Sabe quando acontece de a gente pensar que a pessoa é boa companhia e vai ver é um fiasco!? Deus me livre! Que arrependimento ter saído do aconchego do lar e da zona de conforto, lá onde a gente podia simplesmente ignorar aquela companhia e tomar outro rumo, nem que seja ficar quietinho em casa lendo um livro. Caminhar com alguém é algo revelador! Viajar com alguém é uma aventura sem igual! É preciso escolher bem as companhias!
Na viagem da vida, é a mesma coisa. Há boas companhias; pessoas que vêm pra somar, pra multiplicar até... E há aquelas que se prestam a subtrair, e até a dividir, a maltratar, a ferir... Muitas vezes, essas companhias nos são dadas. Não há muito como escolher: são pais, irmãos, filhos, parentes, companheiros de trabalho que a vida nos deu. E estão dados. Resta-nos desenvolver a arte de caminhar juntos, sem nos ferir, nos magoar, nos maltratar. E mais: é preciso adquirir a sabedoria do fazer o bem. Não basta apenas não maltratar; é importante deixar marcas profundas e positivas de uma presença que reclama quando a distância se impõe.
Para os peregrinos da fé cristã, Deus é companheiro de viagem. Ele nos escolheu para seguir caminho conosco e nós, numa opção de fé, assumimo-lo como eterno parceiro de viagem. Não é à toa que nossa gente canta a toda voz: “Nos caminhos mais seguros, junto dele eu vou...”. Esta é a fé do povo de Israel que, peregrinante, entendeu cedo que o Senhor caminhava com ele. Nossos antepassados da fé compreenderam que não estavam sozinhos: um companheiro de viagem, fiel e bom, fazia o itinerário da vida valer a pena. A cada passo, reconheciam essa presença divina que operava toda a diferença.
Está aí a beleza da metáfora do caminho que a bíblia descreve. Não é tanto a chegada à Terra Prometida que importa, mas o trajeto que é percorrido junto do Deus-libertador. Deus se manifesta como nosso companheiro de itinerância, de procura, de desbravamentos, até podermos suspirar dizendo: “Até aqui, o Senhor caminhou conosco!”. Resta continuar o caminho na companhia dele, sem dispensar sua presença. E, chegado ao destino, a soleira do futuro se abre com a promessa do prazer de uma boa companhia que se prolonga. Quando isso acontece, resta dizer como os discípulos de Emaús, depois do caminho percorrido: “Fica conosco, Senhor. Já é tarde e o dia declina!” (Lc 24,29).
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