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29. O CREDO: Creio no Espírito Santo

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04.08.2016 | 8 minutos de leitura
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29. O CREDO: Creio no Espírito Santo

O Espírito Santo


No Credo professamos nossa fé no Pai, no Filho e no Espírito Santo. O Credo maior acrescenta: “Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho, e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado, Ele que falou pelos profetas”. Nesse Credo, no século XI, a Igreja achou por bem acrescentar que o Espírito procede do Pai e do Filho, e não só do Pai, como antes afirmado. Fez isto para ser mais fiel ao NT, cujos textos sugerem que o Espírito vem do Pai e do Filho. Embora o Pai permaneça a origem sem origem da Trindade, o Espírito é enviado por Jesus desde o Pai. O Pai gera o Filho e ambos espiram (como um sopro) o Espírito Santo. Modo difícil de falar, mas o Credo tem preocupação prática, quer mostrar que o Espírito é também de Jesus. Mas, dessa afirmação, veio uma controvérsia com a Igreja ortodoxa que até hoje não foi resolvida. Para eles, o Espírito vem só do Pai. Aceitam que possa vir do Pai pelo Filho, mas vem do Pai, a origem da vida trinitária. Para nós, essas questões soam muito teóricas, mas foram importantes naquelas épocas. A afirmação, por exemplo, segundo a qual com o Pai e o Filho o Espírito é adorado e glorificado se revestiu de grande relevância. Evitou-se a palavra “consubstancial”, pois se tornara problemática. Prefiram afirmar que é adorado e glorificado com o Pai o e Filho, com isto quiseram salvaguardar a divindade do Espírito, que também é Deus, tem a mesma “substância”, a mesma natureza de Deus (é consubstancial). Como alguns duvidavam da divindade do Espírito, optaram por afirmá-la claramente no Credo Niceno. Solução muito feliz.


Das três pessoas da Trindade, O Espírito se revela a figura mais enigmática. De onde ele vem, para onde ele vai? Não apreendemos totalmente sua ação misteriosa. Tanto em hebraico (ruah), quanto em grego (pneuma) e em latim (spiritus), ele se chama “o sopro”. O símbolo do Espírito é o vento (cf. Jo 3,8). Há outros símbolos do Espírito: a água, o fogo, a pomba. Querem exprimir o inefável. Os muitos símbolos que aparecem na Bíblia e na Tradição para designar o Espírito demonstram a dificuldade para enquadrá-lo num conceito preciso. O Espírito é, na Trindade, “o mistério interior ao mistério” (DURRWELL).


O Novo Testamento atesta a presença do Espírito em toda a vida de Jesus (cf. Mt 1,18.20; Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 1,35; Lc 3,21-22). Maria se encontra grávida “pelo Espírito Santo” (Mt 1,18). João Batista testemunha que Jesus é o eleito de Deus porque o Espírito desce e permanece nele (cf. Jo 1,32). O messianismo de Jesus se manifesta quando sobre ele desde o Espírito Santo no Jordão, depois do qual ele se apresentará como o ungido de Deus, apropriando-se das palavras de Isaias 6,1: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela a unção” (Lc 4,18). E, do batismo em diante,exercerá todas as suas atividades movido pelo Espírito Santo (cf. At 10,38). Ele será sempre o “cheio do Espírito Santo” (Lc 4,1). Tendo recebido o Espírito Santo, Jesus começa sua vida pública como messias sob seu impulso, realizando a obra do Reino a ele confiada pelo Pai. A presença do Espírito Santo em Jesus continua durante toda a sua vida. Ele agirá movido e sustentado pelo Espírito (cf. Mt 12,28). Na cruz, se entregará ao Pai em virtude de um Espírito Eterno (cf. Hb 9,14) e será ressuscitado na força desse mesmo Espírito que o constituirá, na ressurreição, Filho de Deus com poder (cf. Rm 1,4). Os tempos messiânicos se aproximarão com a efusão do Espírito Santo pelo Senhor ressuscitado (cf. At 1,16ss.).


A Escritura mostra o Espírito como o “agir onipotente e amoroso de Deus”, em quem são feitas todas as suas obras. Se todas as obras divinas acontecem no Espírito, a obra de Deus por excelência, a geração do Filho, não poderia se dar fora do Espírito. Para o apóstolo Paulo, Jesus “é estabelecido Filho de Deus com poder, por sua ressurreição dos mortos, segundo o Espírito de santidade” (cf. Rm 1,3-4). Jesus, por sua ressurreição, torna-se plenamente o Filho de Deus na nossa humanidade. Paulo repete o mesmo argumento em Rm 8,11: “E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus habita em vós, aquele que ressuscitou Cristo Jesus dentre os mortos dará vida também a vossos corpos mortais, mediante seu Espírito que habita em vós”. Paulo atribui a ressurreição de Jesus e a nossa ao poder de Deus (cf.2Cor 13,4), ou seja, ao Espírito. Quando ressuscita Jesus, Deus manifesta sua ação poderosa (Cf. Ef 1,18-22). O Espírito vivifica Jesus (1Pd 3,18).


Jesus, salvador em sua humanidade, torna-se o mediador do dom do Espírito, mas ele deve voltar ao Pai, viver no seio do Pai, a fonte do Espírito, para que possa enviar o Espírito. “No entanto, eu vos digo a verdade, é de vosso interesse que eu parta, pois, se não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se for, enviá-lo-ei a vós” (Jo 16,7). No Evangelho de João, Jesus é o depositário do Espírito (cf. Jo 1,32-34); tendo voltado à sua glória, envia de junto do Pai o Espírito. Quando sua humanidade foi glorificada, ele se tornou a salvação dos homens, porém, para que a salvação chegasse a todos, ele precisava enviar o Espírito. O fruto da ressurreição consiste exatamente na efusão do Espírito (cf. Jo 20,19-23). Não se compreende, assim, o Espírito sem Jesus; ele é “o Espírito de Jesus”, “o Espírito do Filho”, “o Espírito de Cristo”, “o Espírito do Senhor” (cf. Fl 1,19; Gl 4,6; Rm 8,9; 2Cor 3,17). Procede do Pai e do Filho, como diz o Credo Niceno.  O dom do Espírito Santo no Novo Testamento se destina à consumação da obra salvífica de Jesus, ao perdão e à misericórdia. Sua ação no mundo conduz à plena verdade de Jesus, ajudando-nos a esclarecê-la para nossos dias, por isto ele é Senhor que dá a vida, porque nos comunica a própria vida do Senhor Jesus, a vida divina, única verdadeira que nos salva.O pecado contra o Espírito Santo se compreende, assim, como total fechamento ao amor e ao perdão que nos vêm pelo Espírito Santo.



O Espírito em nossa vida


A novidade da vida cristã se encontra na participação na morte e ressurreição de Jesus, que torna o ser humano filho de Deus. Embora a salvação signifique também o perdão dos pecados, é mais do que isso, porque inclui a entrada no próprio mistério da Trindade através de Cristo e do Espírito. Deus é o Pai de Jesus por geração e, também por geração, torna-se Pai dos fiéis. O Pai gera Cristo nos fiéis pelo Espírito e eles se tornam seus filhos, filhos no Filho. Jesus, enquanto primogênito, foi gerado primeiro para se tornar irmão de muitos (cf. Rm 8,29). Quem foi batizado no Cristo se revestiu de Cristo (cf. Gl 3,26). O fiel, pelo batismo, se reveste da imagem do homem novo, que, por sua vez, é a imagem do próprio criador (cf. Cl 3,9-10).Para o evangelista João, a ação do Espírito se revela criadora; o cristão transforma-se em filho mediante um novo nascimento. “Ele nasce da água e do Espírito” (Jo 3,5). O Espírito é a graça de Deus em nós e o conteúdo dessa graça é Jesus Cristo, o Filho de Deus. O Espírito nos torna filhos e filhas de Deus ao nos configurar ao Filho.


Os escritos paulinos relacionam o Espírito, poder operante de Deus na história, com a caridade, ainda que não os identifique. A caridade é derramada em nossos corações pela efusão do Espírito (cf. Rm 5,5). Quem caminha segundo o Espírito, caminha na caridade, (cf. Rm 8,4; Ef 5,2), plenitude da Lei (cf. Rm 13,10; Gl 5,14), vínculo da perfeição (cf. Cl 3,14), virtude final (cf. 1Cor 13,13). O trabalho do Espírito nos abre para Deus e para os semelhantes. A vida cristã se caracterizará por um serviço aos outros (cf. Gl 5,14), assim como fez Jesus (cf. Mc 10,45).A identidade cristã, portanto, entendida como filiação divina e participação na vida trinitária, assume, na prática, as feições da fraternidade e da promoção da justiça a favor dos pobres. Na justiça, se encontra a mais alta expressão do amor e a realização do Reino de Deus. O Espírito garante a ação de Deus a favor dos pequenos, porque ele ama os que ninguém ama, os últimos e os distantes. Por isto é chamado“Pai dos pobres” na invocação do “Veni, Sancte Spiritus”. A injustiça destrói a fraternidade, a definitiva utopia cristã. Niceia testifica que ele “falou pelos profetas”, ou seja, através daqueles que denunciaram o pecado e a injustiça no meio do povo. Ele não só falou, mas continua falando nos profetas do nosso tempo, naqueles que anunciam com sua vida e palavras os valores do Reino: paz, justiça, liberdade, fraternidade, tarefa de todo cristão batizado que participa da missão profética de Cristo.







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