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26. O CREDO: Subiu aos céus

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26.05.2016 | 6 minutos de leitura
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26. O CREDO: Subiu aos céus

Subiu aos céus


O Novo Testamento nos apresenta Jesus indo ao Pai, portanto ascendendo “aos céus”, onde se encontra Deus-Pai. No Evangelho de João, Jesus exclama:“Ninguém subiu ao céu, senão o que desceu do céu, o Filho do homem”( Jo 3,13). Em Jo 20,17, ele diz a Madalena: “Não me segures, pois ainda não subi para o Pai”. De fato, no Evangelho de João, a existência de Jesus é apresentada num movimento pendular: vem do Pai (ele é o Verbo eterno que estava junto do Pai antes da criação do mundo); se encarna, assumindo nossa condição humana; e termina seu percurso terreno indo ao Pai pela Cruz, na qual é glorificado e exaltado. Também outros textos falam dessa exaltação, como é o caso de Fl 2,9 (Deus o elevou acima de tudo e lhe deu o Nome que está acima de todo nome) ou da 1Pd 3,22 (Jesus Cristo que subiu ao céu).


Em At 1,6-11, Lucas descreve o retorno de Jesus Cristo ao Pai após o relato de diversas experiências de ressurreição feitas por seus seguidores, durante quarenta dias (At 1,3). O significado do número 40 na Bíblia não é matemático, mas teológico, ou seja, aporta valor qualitativo e não quantitativo. Quarenta é número simbólico: o tempo necessário para o amadurecimento, para atingir um ideal almejado, sejam quarenta anos ou quarenta dias. Na verdade, Lucas não faz crônica jornalística do evento da ascensão, apenas quer indicar com seu relato que quando termina o tempo de Jesus começa o tempo da Igreja, ou seja, das testemunhas do Ressuscitado: “Sereis minhas testemunhas...” (At 1,8). Após diversos relatos de manifestações de Jesus ressuscitado, Lucas sinaliza que a obra do reino continua com os seguidores de Jesus. Sua presença está garantida, pois é promessa feita aos seus (cf. Mt 28,20), mas ela agora se dá de forma diferenciada: uma presença na ausência. Ele continua vivo; ele é o vivente, como afirma Lucas. Mas sua vida está sinalizada em outras categorias, dita com formatos que ultrapassam a o simples regresso à sua vida anterior. Ele vive agora numa outra dimensão, na glória do Pai de onde exerce seu senhorio, na transcendência. A missão de construir o Reino que ele inaugurou com sua vida, morte e ressurreição se torna tarefa dos apóstolos e de seus discípulos. “Recebereis a força do Espírito Santo, que descerá sobre vós e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia, na Samaria e até os confins da terra” (At 1,8).


Jesus, no entanto, permanece junto à sua Igreja e no mundo pelo Espírito Santo e vem sempre nos encontrar através da sua Palavra, dos sacramentos, dos irmãos, sobretudo dos mais pobres e abandonados, nos acontecimentos mais humanos e mais corriqueiros. O relato de Lucas, embora se passe em Jerusalém, se harmoniza teologicamente com o relato da última aparição em Mateus, que acontece em Nazaré. “De Deus recebi todo o poder no céu e na terra. Portanto, ide e ensinai a todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo o que vos ordenei. E eu estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,16-20). Jesus, desde a glória do Pai, envia seus discípulos para que continuem sua missão no mundo.


Assim, do mesmo modo que a descida de Jesus à “mansão dos mortos” ou “aos infernos” não significa sua ida a um lugar de condenação, sua “subida aos céus” não quer dizer que ele vá a lugar geograficamente situado chamado “céu”. Aliás, a moderna astronomia superou a antiga visão segundo a qual o mundo se divide em três níveis ou andares: o que está abaixo de nós, aquele em que vivemos e o que está acima (inferno, terra, céu). A complexidade do universo mostra que o planeta terra não é sequer ponto de referência absoluto, mas apenas um planeta em meio a milhares de outros, alguns ainda nem descobertos. “Céus”, portanto, nesse artigo do Credo, não se refere a lugar. O Credo não faz alusão a categorias espaciais. A afirmação central que deseja transmitir é teológica, não geográfico-cósmica.


O termo “céus” ou “céu” expressa a plenitude da comunhão com Deus à qual todo ser humano é chamado. A união do ser humano com Deus numa dimensão de eternidade expressa o que queremos dizer quando dizemos “céu”. Tal união se concretizou de maneira única em Jesus Cristo, plenamente Deus e plenamente homem. Ao se encarnar e assumir nossa condição histórica marcada pelo pecado, Jesus, o Filho eterno de Deus, percorreu o caminho que vai da finitude ao infinito, do tempo à eternidade, do provisório ao definitivo. Ele passou da vida biológica à vida nova, no próprio seio de Deus, no qual é gerado desde toda a eternidade. “Subiu aos céus” quer dizer que ele foi totalmente assumido na existência pneumática de Deus.


Em sentido estrito, não seria possível diferenciar temporalmente a ressurreição de Jesus de sua ascensão aos céus, definida pelo Credo. Sua ressurreição coincide com sua glorificação e divinização. O Pai o assume em sua vida divina ao ressuscitá-lo. É um erro grave que precisa ser evitado, o de pensar que Jesus volta a ser junto do Pai o mesmo que era antes de se encarnar. Ele não se desencarna, mas, sem deixar de ser o que sempre foi, carrega agora nossa humanidade. O Pai o assume e o glorifica nessa condição. Eis aqui um dos maiores mistérios da nossa fé: crer que nossa humanidade está em Deus através de seu Filho Jesus Cristo.


“Subiu aos céus” não significa, portanto, mudança de lugar geográfico, mas atesta que Jesus retorna ao ponto de partida: veio de junto do Pai e volta para o Pai, volta para o Pai depois de ter realizado a sua missão: assumir nossa condição humana e anunciar o Reinado de Deus, o sonho de Deus para a humanidade. O Pai o enviou como mediador do Reino e foi sempre o horizonte último de sua missão. Na “ascensão”, ele regressa ao Pai com a colheita da semeadura: mostrou ao ser humano o caminho para Deus anunciando o seu reinado, que não se refere apenas a realidades espirituais, mas também a realidades que se encarnam na histórica pelo amor, pela solidariedade desinteressada, pelo serviço misericordioso e desarmado aos irmãos. Voltando ao Pai, ele mostra ao ser humano que o destino último da história se encontra na consumação da fraternidade para além do tempo e da história.







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