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242. Reflexão para a Solenidade de Cristo Rei – Jo 18,33b-37 (Ano B)

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20.11.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
242. Reflexão para a Solenidade de Cristo Rei – Jo 18,33b-37 (Ano B)
Chegamos ao último domingo do ano litúrgico, o qual vem intitulado pela liturgia como solenidade de nosso Senhor Jesus Cristo, rei do universo. Esse título, por si só, já nos desperta bastante atenção e curiosidade, despertando também a necessidade de profunda reflexão para não distorcermos a natureza da realeza de Jesus. Ao falar de alguém como rei, a tendência imediata é atribuir-lhe as características próprias dos reis deste mundo, como coroa, trono, cetro e poder; associar Jesus a esses sinais de realeza é trair completamente o seu Evangelho, mesmo que as imagens e representações usadas em muitas igrejas façam isso. Podemos dizer que dar a Jesus trono, cetro e coroa é zombar dele; independente do contexto histórico, é repetir a zombaria dos soldados que o crucificaram: “Os soldados, tendo feito uma coroa de espinhos, colocaram-na em sua cabeça, e o envolveram com um manto de púrpura” (Jo 19,2).

Mesmo concentrando a nossa reflexão no texto evangélico proposto – João 18,33b-37 – é oportuno e necessário fazermos uma pequena contextualização histórica sobre a instituição desta solenidade. Trata-se de uma festa nova, instituída somente no ano de 1925, pelo papa Pio XI. Aquele era um momento conturbado para a Europa e todo o mundo: a primeira guerra mundial tinha acabado há pouco tempo e já se sentia o clima da segunda; o desejo desenfreado de poder com as consequências que desse derivam estavam em efervescência, mais do que nunca. Na época, já estavam consolidados o fascismo na Itália, o stalinismo na Rússia, e o nazismo estava em gestação na Alemanha. Havia muita gente querendo ser “senhor do mundo”. Foi nesse contexto que o papa Pio XI instituiu, com muita sabedoria, a solenidade de Cristo Rei, como um lembrete e advertência para aqueles que almejavam o senhorio da história e o domínio do mundo.

Uma vez instituída e consolidada, essa festa não deixa de trazer certos perigos em sua interpretação. O problema se dá na concepção e representação que se tem feito da realeza de Jesus. Combater os reinos deste mundo para implantar o Reino de Deus não é uma simples substituição na detenção do poder, mas uma mudança radical na forma de conceber o Reino. Assim como Jesus não pretendeu ocupar o lugar de César (o imperador romano), jamais pretenderia também ocupar o lugar de Mussolini, Stálin, Hitler ou qualquer outro dirigente totalitário, comos os que ameaçam a democracia da atualidade. A proposta de reinado (ou Reino) de Jesus é totalmente incompatível com as experiências de poder até hoje experimentadas pela humanidade. Jesus não propõe apenas um mundo diferente deste que tem proporcionado os detentores de poder, mas um mundo totalmente oposto, com relações completamente novas, capazes de gerar paz, justiça e fraternidade. Enfim, ele propõe um mundo novo e exige a colaboração dos seus discípulos e discípulas de todos os tempos na sua construção. E a exigência básica consiste em viver radicalmente o amor.

O texto evangélico específico para a liturgia de hoje faz parte do relato da paixão de Jesus no Quarto Evangelho. É um trecho do processo de Jesus diante de Pilatos, governador romano da província da Judéia, na época. A capital da província era a cidade de Cesaréia Marítima, onde morava o governador; porém, nos períodos das grandes festas, como a páscoa, a governadoria se transferia para Jerusalém, tanto para monitorar possíveis rebeliões e combate-las, quanto para mostrar a força do poder romano, o que era visto pelos judeus como motivo de humilhação. Por isso, Pilatos teve a oportunidade de interrogar Jesus, pois já se encontrava em Jerusalém por ocasião da páscoa. Jesus estava sozinho diante de Pilatos, pois os judeus não podiam entrar no palácio, com medo de ficarem impuros e, assim, não poderiam celebrar a páscoa no dia seguinte. Por isso, Jesus entrou sozinho no pretório para ser interrogado. O encontro de Jesus com Pilatos é apenas uma formalidade, pois a sua morte já estava decidida. A cúpula da religião judaica, incomodada com a pregação e a práxis de Jesus já planejava a sua morte há muito tempo. Estava decidido que daquela páscoa ele não passaria! Como os chefes religiosos não tinham poder de execução, mesmo com a pena já decidida, era necessário convencer o poder romano a fazer a execução.

Eis o que diz o texto: “Pilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: “Tu és o rei dos judeus?” (v. 33b). A pergunta dá a entender que Pilatos já sabia que aquele caso se tratava de uma questão muito interna da religião judaica, embora representasse também uma ameaça de rebelião que poderia trazer consequências para o poder romano. Na verdade, todos os governadores romanos enviados para a província da Judéia já iam prevenidos do risco constante de rebeliões de líderes radicais dos movimentos populares do judaísmo, principalmente da parte dos galileus, como era Jesus. A pergunta de Pilatos revela também uma espécie de surpresa: o homem que está diante dele não aparenta causar perigo algum à ordem imperial, embora tenha sido entregue como agitador. Parece que Pilatos não vê Jesus como ameaça. Além de surpresa, essa pergunta também expressa escárnio. Mas Jesus não se intimida com a pergunta do governador, e faz o diálogo fluir: “Estás dizendo isto por ti mesmo ou outros te disseram isto de mim?” (v. 34). É costume de Jesus responder a uma pergunta com uma nova pergunta. Com isso, ele chama a atenção de Pilatos para pensar por conta própria sem deixar-se manipular pela opinião dos outros.

Na continuidade do diálogo, Pilatos reage à pergunta provocatória de Jesus: “Pilatos falou: “Por acaso, sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizestes?” (v. 35). A intenção do governador é isentar-se o máximo possível da responsabilidade pela condenação de Jesus. Ao tentar provar neutralidade, Pilatos exerce a pior das hipocrisias: a indiferença diante da injustiça. Ao mesmo tempo, sintetiza uma realidade que já fora demonstrada ao longo de todo o Quarto Evangelho: toda a classe dirigente dos judeus estava contra Jesus: a expressão “o teu povo e os sumos sacerdotes” significa o complô dos grupos judaicos hegemônicos com os dirigentes do templo. No final, por mais que o poder romano tenha sido conveniente e executor da condenação de Jesus, o evangelista deixa claro de onde partiu a iniciativa: das autoridades religiosas judaicas, que se viam ameaçadas diante da mensagem emancipadora de Jesus.

Pilatos tinha perguntado o que Jesus tinha feito para ser entregue pelo seu próprio povo; a essa pergunta Jesus não respondeu, mas preferiu voltar para o tema da primeira pergunta, a respeito da natureza do seu reino: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui” (v. 36). A declaração “o meu reino não é deste mundo” é bastante esclarecedora, mas também complexa e, por isso, fácil de ser distorcida. Antes de tudo, não se trata de uma contraposição entre o céu e a terra. Aqui, Jesus se refere à origem, à concepção do seu reino, e não à sua efetivação; os reinos deste mundo se sustentam com o uso da força, da violência, da injustiça e da hipocrisia de um modo geral. Jesus, com essa afirmação, diz que seu reino não se baseia nesses meios. Porém, ele não está falando de um reino para o além ou outro mundo. O seu reino, baseado na justiça, no amor e na fraternidade deve ser efetivado nesse mundo, onde estão as pessoas com suas necessidades e angústias. O reino de Jesus não é deste mundo por não se assemelhar aos reinos deste mundo, mas deve ser construído e vivido já nesse mundo. É um projeto de mundo novo, humanizado pelo amor.

A Pilatos, Jesus dá uma prova muito concreta de que seu reino, de fato, não é deste mundo: não tem exército nem guardas para lutar contra a sua condenação. Um exército era a primeira necessidade para a formação de um reino na antiguidade; o aparato básico para alguém considerar-se rei era ter um exército à disposição. Inclusive, os movimentos judaicos de resistência que, de vez em quando, preocupavam à casta sacerdotal e ao poder romano, proponham sempre a luta armada, faziam recruta de militantes; nem com esses o movimento de Jesus se assemelhava. Para Jesus e seus seguidores, a violência nunca pode ser a resposta. À violência, ao ódio e à injustiça e ao mal em geral, a resposta ensinada por Jesus é sempre o amor. Por isso, é sempre incoerente caricaturá-lo com os sinais de realeza terrena, come ele vem representado na maioria das imagens e pinturas. É uma verdadeira traição ao seu projeto. Por isso, também é clara contradição ao seu Evangelho propagar políticas armamentistas, por exemplo. Ao invés do uso da força, Jesus propõe a construção do seu Reino pelo amor.

Ao dizer que tem um reino, mesmo não sendo deste mundo, Jesus despertou ainda mais a curiosidade de Pilatos, que perguntou novamente: “Então tu és rei?” (v. 37a). A insistência com a mesma pergunta revela a insegurança e o medo de um possível concorrente, o que faz parte da lógica dos reinos deste mundo, compostos por oprimidos e opressores, privilegiados e não privilegiados. A concorrência é a negação da fraternidade e da igualdade. À nova indagação de Pilatos, finalmente, Jesus confirma que é rei, mas faz questão de reforçar a incompatibilidade entre o seu reino e aquele que Pilatos representava: “Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. ‘Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz’” (v. 37). Pilatos perguntou, no início, se Jesus era rei dos judeus; a essa pergunta Jesus se negou a responder. Quando responde ser rei, não se diz de um povo específico, o que mostra o alcance universal de sua mensagem. Trata-se de um detalhe importante, pois Jesus não veio ao mundo com uma missão restrita e destinada a um povo específico, mas trouxe um projeto de reino universal, inclusivo, alicerçado na verdade.

A verdade (em grego:  ἀληθείᾳ = alethéia) é uma palavra-chave para a construção da missão e da identidade de Jesus no Evangelho segundo João. Já no prólogo, no versículo principal daquele poema, quando o evangelista afirma que “a Palavra se fez carne, como Unigênito do Pai”, ele diz que esse Unigênito – Jesus – veio “cheio de verdade” (cf. Jo 1,14); também no prólogo, ainda, o evangelista contrapõe a graça à lei, dizendo que junto com a graça, veio a verdade ao mundo, por meio de Jesus Cristo (cf. Jo 1,17). Na ceia, ao responder a uma pergunta de Tomé, Jesus se revelou como “o caminho, a verdade e a vida” (cf. Jo 14,6). Finalmente, no processo, diante de Pilatos, Jesus reafirma a sua relação com a verdade e sua missão de testemunhá-la. E foi uma missão irrenunciável, a ponto de custar-lhe a vida. A verdade é um atributo de Jesus e ao mesmo tempo a sua meta e missão, como deve ser de seu discipulado. Não se trata de uma doutrina para ser preservada e anunciada, mas de uma realidade a ser vivida e testemunhada, o que só é possível em estreita comunhão de vida com ele. Ora, a verdade é, junto à felicidade, a mais alta aspiração do ser humano. E, como Jesus é a verdade, significa é a comunhão com ele que torna o ser humano plenamente realizado, ou seja, verdadeiramente humanizado. E a comunhão se dá à medida em que se dá adesão à sua proposta de vida em abundância, de mundo novo. É essa comunhão que faz nascer o verdadeiro reino por Jesus anunciado.

Que neste domingo em que a Igreja no Brasil celebra também o Dia Nacional do Laicato, despertemos para uma autêntica busca da Verdade, a começar pela ressignificação da imagem de realeza que se tem de Jesus. É preciso recuperar a imagem da Testemunha da Verdade, que caminha lado a lado com os pequeninos, diferente do imaginário soberano. O despertar para o “caminhar juntos”, meta de uma Igreja que vive a sinodalidade, precisa sentir a presença de Jesus na caminhada, muito mais do que nos tronos.