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243. REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DO ADVENTO – Lc 21,25-28.34-36 – Ano C

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27.11.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
243. REFLEXÃO PARA O 1º DOMINGO DO ADVENTO – Lc 21,25-28.34-36 – Ano C
Neste domingo – o primeiro do advento – a Igreja inicia um novo ano litúrgico, convidando-nos, mais uma vez, a percorrer o caminho de Jesus Cristo, contemplando o mistério da sua vida, desde o nascimento até a ressurreição e ascensão. O tempo do advento, iniciado hoje, é a primeira etapa desse itinerário catequético-espiritual. O termo advento (adventus em latim) significa “visita”, “chegada” ou “vinda”; possui o mesmo significado do termo grego parusia (παρουσία). Fazia parte do vocabulário das religiões pagãs no império romano, sendo usado em referência às supostas visitas das divindades aos seus respectivos templos, e no âmbito civil era usado para designar as visitas de funcionários ilustres e dos imperadores às cidades e províncias do império. Por volta do século IV, o cristianismo absorveu a palavra advento, passando a utilizá-la no contexto do natal, a visita de Deus ao mundo, por excelência, uma vez que já estava consolidado o uso do termo grego “parusia” para designar a segunda vinda de Cristo. Como o próprio termo evoca, uma visita especial é sempre motivo de esperanças e expectativas, e essa é uma das características principais do tempo do advento.

Com o início do novo ano litúrgico, iniciamos também a leitura do Evangelho segundo Lucas, porém, não do seu início, mas do seu final, precisamente do seu discurso escatológico. Por isso, o texto proposto para hoje é Lc 21,25-28.34-36. O discurso escatológico está presente nos três evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), e trata simbolicamente das realidades últimas e finais da história, antecedendo as narrativas da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A princípio, parece até paradoxal que a preparação para o natal seja iniciada com palavras sobre as realidades últimas. Porém, é necessário compreender o advento como uma oportunidade de preparação para a vinda constante do Senhor na vida de cada pessoa, tornando essa vinda uma presença contínua, ao invés de apenas alimentar uma expectativa futurista e preparar para uma única data ou evento. É importante recordar que o evangelho de hoje é praticamente a repetição daquele do penúltimo domingo do ano litúrgico precedente, quando foi lido o mesmo episódio, porém, na versão de Marcos (Mc 13,24-32). É claro que tem variações significativas entre uma versão e outra, mas a mensagem é semelhante. Com isso, percebe-se a continuidade do tempo: o ano (litúrgico) começa e termina animando a comunidade à esperança e advertindo-a à vigilância.

O trecho do Evangelho lido hoje pertence ao conjunto das últimas palavras de Jesus antes do relato da paixão. É necessário fazer uma pequena contextualização para uma compreensão mais adequada do mesmo. Jesus se encontrava em Jerusalém, na sua última semana, ensinando no templo, denunciando os escribas e fariseus, observando as verdadeiras e falsas práticas religiosas (cf. Lc 21,1-4), e os discípulos, em sua maioria camponeses e pescadores, se admiravam com a beleza e a grandeza do templo (cf. Lc 21,5). À admiração dos discípulos, Jesus respondeu: “vós contemplais estas coisas, mas dias verão em que não restará pedra sobre pedra que não seja derrubada” (Lc 21,6). Curiosos e espantados com essa afirmação de Jesus, os discípulos perguntaram: “Mestre, quando acontecerá isso? Qual o sinal de que isso está para acontecer?” (Lc 21,7). O questionamento dos discípulos é compreensível, tendo em vista o impacto das palavras de Jesus.

O discurso escatológico é, portanto, a resposta de Jesus a essa pergunta dos discípulos. Pertence ao gênero literário apocalíptico, derivação da palavra apocalipse (em grego: ἀποκάλυψις = apocalípsis), cujo significado é “revelação”, “manifestação da verdade” ou “tornar conhecido algo que estava escondido”. O gênero apocalíptico foi bastante distorcido ao longo da história, passando a ser sinônimo de catástrofes e desastres, causando medo, quando, na verdade, é um gênero literário usado pelos autores bíblicos para transmitir mensagens de esperança e resistência. Portanto, ao invés de causar terror e medo, a mensagem do evangelho de hoje deve nos animar, como veremos no decorrer da reflexão. Não é uma descrição de eventos catastróficos, mas uma forma simbólica de apresentar o triunfo de Deus sobre a história. Por isso, é muito oportuno o seu uso no advento, tempo pautado por mensagem e espiritualidade marcadas pelo tema da esperança.

E o texto de hoje já começa com palavras de grande impacto: “Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas” (v. 25). A princípio, parece uma cena aterrorizante, mas na verdade é um sinal de esperança. Os astros (sol, lua e estrelas) eram imagens de divindades nos mundos greco-romano e egípcio. Embora Lucas não afirme, como Marcos, que esses astros irão desmoronar, ele diz que entrarão em caos, o que representa o colapso dos sistemas de dominação responsáveis pelas perseguições vividas pelas comunidades da época da redação do evangelho. Até mesmo o mar, onde residiam as forças do mal para a mentalidade semita, será abalado; isso ignifica que o mal será cortado pela raiz. Obviamente, tais acontecimentos trarão angústia e medo para o mundo todo, até então, conformado com a ordem injusta das coisas. Por isso, “Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas” (v. 26). As forças do céu aqui não são divindades, mas a ordem e harmonia do cosmos; esse abalo faz parte do processo de reordenamento do mundo. 

O que parece catastrófico é, na verdade, apenas pretexto para a passagem de uma fase à outra da história. O mundo até então ordenado com falsa segurança e sistemas injustos, como era o império romano, não permaneceria para sempre. Perseguidos e já quase sem esperanças, como estavam muitos cristãos nas comunidades lucanas, não era fácil acreditar em transformação. Mas o evangelista não desiste e reconstrói as palavras de Jesus que seriam de grande importância para o seu contexto: “Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque vossa libertação está próxima” (vv. 27-28). A construção de um mundo novo requer a destruição das estruturas velhas de poder e dominação. É esse o sentido do texto até aqui. O mundo velho, governado por tiranos que se sentiam iluminados por falsas divindades (os astros), sustentadores de um sistema tão nocivo para o ser humano quanto às forças do mar, não seria eterno; haveria de dar lugar a um mundo novo, o Reino de Deus.

A imagem do Filho do Homem vindo das nuvens evoca o reinado e senhorio de Deus sobre o mundo, através do seu filho Jesus Cristo, prestes a ser condenado, no contexto imediato do discurso escatológico. Para o Reino de Deus acontecer em sua plenitude é necessário que uma nova ordem seja estabelecida no mundo. Na verdade, o Reino é a nova ordem. Portanto, o caos descrito nos primeiros versículos e a manifestação do Filho do Homem evocam a necessidade de transformação da humanidade, para o estabelecimento de um mundo novo, justo e fraterno. Embora ainda não realizado, esse é o ideal e o que deve manter nos cristãos a chama da esperança acesa. Há, em curso, um processo de libertação plena para a humanidade, iniciado com a encarnação e o nascimento de Jesus, que um dia há de ser completamente realizado. Por isso, os cristãos não podem desanimar, por mais difícil que seja a situação, devem manter-se “de cabeça erguida, porque a libertação está próxima” (v. 28); a cabeça erguida é o sinal da dignidade e a consciência da pessoa que não reconhece os poderes injustos e opressores deste mundo, e nem é conivente com eles; é a postura de quem não se curva diante de falsos deuses e mantém firme a esperança somente no Deus de Jesus Cristo, que é o Libertador, por excelência.

Embora certa, a libertação pode retardar bastante, o que tende a levar muitos cristãos ao desânimo e até mesmo a abandonarem a fé, sobretudo quando são vítimas de injustiças e opressão. Por isso, paralelo à certeza de que a ordem injusta não é eterna, pois é certo que um dia a libertação acontecerá, o evangelista alerta para a necessidade da vigilância, para não serem surpreendidos, uma vez que não há uma data exata para isso acontecer: “Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós, pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra” (vv. 34-35). O cuidado para não deixar o coração ficar insensível é muito significativo; inclusive, é uma exclusividade de Lucas, no contexto do discurso escatológico. Ora, sendo ele o evangelista da misericórdia, já tinha mostrado Jesus pedindo aos discípulos para serem misericordiosos como o Pai é misericordioso (cf. Lc 6,36). A insensibilidade de coração é, portanto, a ausência de misericórdia, o que é incompatível com a vida cristã. Deixar o coração insensível equivale à indiferença diante das injustiças, é a naturalização do mal e do sofrimento do próximo. Por isso, Jesus exorta o seu discipulado a manter-se de coração sensível, sempre.

Os elementos que poderiam contribuir para a insensibilidade de coração dos discípulos – comida, bebida e preocupações da vida – não constituem, aqui, um elenco de vícios a serem combatidos, como nas cartas de Paulo, mas representam o cotidiano, o dia-a-dia das pessoas, do qual os cristãos não podem privar-se, mas não podem viver somente em função disso. É uma advertência a mais: viver somente em função do cotidiano, sem almejar algo a mais na vida é perigoso; além de tornar insensível o coração, fecha o horizonte à esperança. É também sinal de comodismo e egoísmo. Quem reduz a sua existência ao comer, ao beber e às suas próprias preocupações, está fechado ao cuidado com o próximo e à esperança de mudança e transformação do mundo. Por isso, a cotidianidade não pode fechar o horizonte do discípulo. Quanto ao caráter improviso “desse dia”, trata-se de um aspecto tradicional na Bíblia, desde o anúncio do “Dia do Senhor” pelos antigos profetas (cf. Jl 2,31; Am 5,18, etc.). É preciso viver continuamente em comunhão com Deus para não ser surpreendido. Quem já vive no dia-a-dia a presença constante do Senhor, através da oração e do cultivo de relações humanas autênticas e fraternas, não será sofrerá surpreendido.

Como Lucas é o evangelista que mais privilegia a oração, ele apresenta essa como a mais consistente das formas de vigilância: “Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar de tudo o que deve acontecer e para ficardes em pé diante do Filho do Homem” (v. 36). A oração sincera, junto com o espírito de vigilância mostram, acima de tudo, que os cristãos não podem acostumar-se à ordem vigente, não podem ser tolerantes com as injustiças e opressões, mas devem estar sempre em busca de um mundo melhor, não apenas esperando, mas também construindo, no dia-a-dia, as condições necessárias para o reinado de Deus se estabelecer definitivamente sobre o mundo, o que não acontecerá passivamente, mas somente com a destruição de todas as forças de morte, conforme a descrição dos primeiros versículos. E isso exige muito empenho da comunidade cristã. É importante recordar a ênfase que o evangelista dá à oração: o convite é para “orar a todo momento”, e o efeito da oração é a força para suportar as dificuldades e manter-se de pé, o que não significa uma mera sobrevivência, mas estar consciente da realidade e pronto para nela intervir; é também a postura de quem não se curva diante das injustiças, além de evocar a importância da vigilância. Ficar de pé diante do Filho do Homem é, portanto, estar com a consciência tranquila de ter lutado para o seu Reino acontecer.

Que o novo ano litúrgico e, sobretudo, o tempo do advento renovem o entusiasmo de nossas comunidades na expectativa do Reino de Deus, não como um evento extraordinário, mas como uma realidade que se constrói cotidianamente. Para isso, é necessário manter os corações sensíveis aos acontecimentos e situações que exigem solidariedade, empatia, amor e justiça. A indiferença ao próximo e a conivência com as injustiças retardam a libertação e, consequentemente, a construção do Reino de Deus. Que o advento seja, portanto, tempo de esperança e, ao mesmo tempo de advertência e resistência.
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