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231. Reflexão para o 23° Domingo do Tempo Comum – Mc 7,31-37 (Ano B)

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04.09.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
231. Reflexão para o  23° Domingo do Tempo Comum – Mc 7,31-37 (Ano B)
O evangelho deste vigésimo terceiro domingo do tempo comum é Mc 7,31-37, texto que compreende o relato da cura de um surdo-mudo por Jesus, em terras pagãs. É um texto exclusivo do Evangelho de Marcos, e que possui grande significado para a sua teologia. Isso se evidencia pela riqueza de pormenores que traz, desde a dimensão espacial até a forma como se dá a relação de Jesus com o personagem por ele curado. De todos os relatos de cura atribuídas a Jesus, esse é o mais rico em detalhes, carregado de gestos simbólicos.  Trata-se, portanto, de um episódio paradigmático. Nele, Jesus revela o máximo da sua pedagogia do cuidado e da atenção. Para compreendê-lo de modo mais adequado, seguimos com a contextualização.

Tendo decretado a inutilidade e o fim das leis de pureza alimentar, como refletimos no domingo passado (Mc 7), Jesus praticamente aboliu, pelo menos para os seus seguidores, qualquer obstáculo que impedisse a relação com os povos pagãos. Ora, como nada do que é externo pode tornar a pessoa humana impura, mas somente o que é gerado no coração, não pode mais haver impedimento para o contato físico e a convivência fraterna com as pessoas de outras etnias, culturas e religiões diferentes. Por isso, Jesus fez, logo em seguida, uma pequena campanha missionária em terras pagãs, cumprindo, também ali, sinais semelhantes aos já cumpridos na Galileia, com duas curas exemplares: a expulsão de um demônio da filha de uma mulher pagã, a siro-fenícia (7,24-30) – episódio saltado pela liturgia – e a cura de um surdo-mudo, episódio relatado no evangelho de hoje: 7,31-37.

Os relatos de milagres de Jesus relacionados com os olhos, os ouvidos e a língua têm um significado simbólico muito relevante, sobretudo no Evangelho de Marcos. Muito mais do que uma demonstração de poderes sobrenaturais de Jesus, são oportunidades para o evangelista chamar a atenção da comunidade cristã a respeito das suas necessidades concretas, com as deficiências que a impedem de um seguimento mais perseverante e fiel. Significa que, na comunidade cristã, todos os seus membros tenham capacidade e oportunidade de ver, ouvir e falar. É também uma forma de reforçar, entre os membros da comunidade, a responsabilidade na luta pela superação de todas as barreiras que impedem as pessoas de viverem com a justa e necessária dignidade, bem como um convite à inclusão, tolerância e respeito às diferenças individuais e culturais.

A grande densidade simbólica do episódio narrado no evangelho de hoje já se evidencia no primeiro versículo, com a descrição de uma dimensão espacial completamente improvável: “Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galileia, atravessando a região da Decápole” (v. 31). A forma como o versículo está estruturado no texto litúrgico não denuncia a incoerência do percurso, mas em uma tradução melhor isso se torna muito evidente. Porém, como sabemos, os evangelhos não são livros de crônicas, mas de teologia. O importante nessa descrição é a passagem de Jesus por regiões pagãs, abrindo o horizonte da comunidade para essa necessidade. Logo, a inconsistência do dado geográfico não reflete desconhecimento do evangelista, mas é fruto de suas intenções teológicas. Tanto Tiro, quanto Sidônia e as dez cidades da Decápole eram terras pagãs. Com isso, o evangelista diz que, ao contrário da Lei, o evangelho não é destinado apenas a Israel, mas ao mundo inteiro. Nenhuma barreira cultural ou religiosa pode impedir a difusão do evangelho, a boa notícia que, de fato, comunica vida.

Após os indicativos espaciais, o evangelista apresenta o personagem com quem Jesus irá interagir: um homem surdo, que falava com dificuldade. Além de mostrar a necessidade de inclusão das pessoas portadoras dessas necessidades, o evangelista quer descrever a situação da comunidade: fechada para ouvir a boa nova, essa se torna também incapaz de anunciar, ou seja, de falar do amor e da justiça propostos por Jesus. Essa precisa ser ajudada, como foi o personagem do evangelho: “Trouxeram então um homem surdo, que falava com dificuldade, e pediram que Jesus lhe impusesse a mão” (v. 32). O gesto de alguém ter levado o homem até Jesus revela a necessidade da comunidade para a experiência da fé. É importante que quem já conhece o evangelho facilite para que outras pessoas também possam conhecê-lo, não obstante as dificuldades e barreiras. A surdez era sinônimo de maldição, conforme a mentalidade judaica, pois impedia a pessoa de ouvir a proclamação e a explicação da Torá; ora, sem as normas da Torá, o ser humano estava perdido, sem rumo, impedido de caminhar retamente. Ao colocar Jesus em contato com um homem surdo-mudo, o primeiro ensinamento transmitido pelo evangelista é a acolhida e a inclusão.

A acolhida de Jesus ao homem deficiente que lhe portaram revela a grandeza da sua pedagogia: ele olha para cada um em particular, e age de acordo com as reais necessidades. A imagem da multidão no evangelho, tem um papel ambíguo e, na maioria das vezes, negativo; representa a indecisão, a falta de compromisso, a superficialidade e a indiferença ao Evangelho. Por isso, um passo importante para a conversão e adesão ao Evangelho é afastar-se da multidão, como mostra o evangelista: “Jesus afastou-se com o homem, para fora da multidão; em seguida, colocou os dedos nos seus ouvidos, cuspiu e com a saliva tocou a língua dele” (v. 33). Esse afastar-se não significa puritanismo nem exclusão, mas a profundidade da relação estabelecida por Jesus: o contato com ele é pessoal, ele olha e toca em cada um e cada uma em particular, olha nos olhos, interage, cria relação. Afastar-se da multidão é, também, o primeiro passo para se tornar discípulo e discípula.

Os gestos descritos pelo evangelista são muito significativos, e é isso o que mais impressiona neste relato. Até então, Jesus tinha curado pessoas e feito exorcismos usando a palavra e o gesto de um simples toque apenas. Dessa vez, tudo é diferente. Ele toca nos ouvidos e cospe com a saliva. Isso supõe um contato mais demorado com o enfermo, e não um encontro acidental. Esses gestos significam o cuidado ímpar que Jesus dispensa a cada pessoa necessitada, e o evangelista ensina que essa deve ser a postura da comunidade. Ao tocar, ele deixa sua marca no outro, transmite a sua essência. É também um modo de denúncia à tendência de espiritualizar demais o cristianismo, problema vivido pela comunidade de Marcos e por tantas outras ao longo dos séculos. O cristianismo deve ser a religião do toque contato e do cuidado; só se cuida bem tocando, sem medo e nem preconceitos. O toque é um modo de comprometer-se com a situação do outro. Ao tocar nos ouvidos, Jesus transmite o dom da escuta ao Evangelho. As palavras comprometedoras do Evangelho não conseguem ressoar em quaisquer ouvidos; antes de tudo, é um dom, como ele estava concedendo aquele homem. Do dom da escuta, nasce o do anúncio; é esse o sentido do tocar na língua com a saliva. Para a mentalidade semita, a saliva continha o espírito da pessoa; por isso, o evangelista quer afirmar que Jesus transmitiu seu espírito vivificador àquele homem, tornando-o apto também para o anúncio do Evangelho e para expressar suas necessidades, externar seus dramas. Com isso, ensina o evangelista que a comunidade não é espaço de silenciamento. Todos devem ter vez e voz na comunidade onde há seguimento autêntico de Jesus.

A sequência do episódio mostra, ainda mais, a sua importância. O evangelista diz que, Jesus “olhando para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abre-te!” (v. 34). Ora, o detalhe de Jesus olhar para o céu é raro ao longo dos evangelhos. Ele não faz isso em qualquer situação. Esse gesto significa a oração e a comunhão com Deus, o Pai. É o reconhecimento dos limites das forças humanas e a confiança no divino, o que revela ainda mais a importância desse sinal. O imperativo “abri-te” (em aramaico: efatá) é uma ordem dada não apenas aos órgãos deficientes (ouvidos e língua), mas a toda a pessoa. O verbo grego usado pelo evangelista (διανοιγω – dianóigo) significa abrir completamente, escancarar, como deve ser o ser humano diante do Evangelho, para que esse possa ser um elemento transformador. Certamente, o homem curado tinha muito para desabafar, muitos dramas para compartilhar e denúncias a fazer, sobretudo pelo sofrimento causado pela deficiência, que na época era considerada maldição, castigo de Deus.

À ordem de Jesus, segundo o texto, “imediatamente seus ouvidos se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade” (v. 35). Isso revela a mudança radical que a palavra de Jesus é capaz de provocar no ser humano. O evangelista insiste, com isso, na urgência com que a comunidade cristã deve estar atenta ao Evangelho. É preciso ter ouvidos abertos e atentos para ouvir, e a língua livre para anunciar. Sendo aquele homem um pagão, o evangelista quer dizer que o anúncio do Evangelho não é privilégio de um povo, como era a Lei, mas um dom ofertado a todas as nações. Os critérios de etnia, religião e cultura não tem valor algum diante da palavra de Jesus. O que importa é ter coração disponível para o amor.

Como é praxe em Marcos, mais uma vez “Jesus recomendou com insistência que não contassem a ninguém. Mas, quanto mais ele recomendava, mais eles divulgavam” (v. 36). Esse pedido de Jesus nunca era atendido. Ele costumava pedir segredo quando cumpria um gesto prodigioso. Ele temia que sua fama de messias se espalhasse com distorções, embora nesse episódio essa ordem não tenha muito sentido, pois a fama de messias se espalhava entre os judeus e, nesse caso, ele se encontrava em território pagão. A ênfase aqui é dada na difusão da sua atividade também em terras pagãs, ou seja, fora de Israel.

A conclusão é muito significativa, pois associa a obra de Jesus à obra do Deus criador: “Muito impressionados, diziam: “Ele tem feito bem todas as coisas: aos surdos faz ouvir e aos mudos falar” (v. 37). Fazer bem todas as coisas é a característica do Deus Criador que, ao final de cada obra criada, contemplava que aquilo era muito bom (cf. Gn 1). Fazer bem as coisas é, portanto, agir como Deus, cuja ação é sempre em favor do bem das pessoas e de toda a criação. Fazer os surdos ouvir e os mudos falar é a realização das expectativas messiânicas anunciadas pelo profeta Isaías (cf. Is 35,5), o que significa uma nova criação. Assim, Jesus, restituindo a vida e a dignidade àquele homem, re-cria, à maneira do Pai, fazendo bem, e elevando a criação à sua máxima realização.

Como destinatários do evangelho, hoje, somos chamados, antes de tudo, a permitir que sejam escancarados nossos ouvidos a tudo o que Jesus ensinou, para que, vivenciando seu ensinamento, seja autêntico o nosso anúncio. Devemos também lutar para que seja reconhecido o lugar de fala de cada pessoa; que ninguém seja silenciado por posturas autoritárias e antievangélicas. Como comunidade de fé, devemos promover a libertação em todas as instâncias, sobretudo, identificando na multidão, quem necessita de cuidado e atenção especiais, como fez Jesus com o homem surdo-mudo. Que a ordem “abri-te” continue ecoando, para tornar nossas comunidades mais acolhedoras, compreensivas, inclusivas e abertas.
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