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215. Reflexão para a Solenidade de Pentecostes – Jo 20,19-23

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22.05.2021 | 11 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
215. Reflexão para a Solenidade de Pentecostes – Jo 20,19-23
O evangelho proposto pela liturgia no domingo de Pentecostes é sempre Jo 20,19-23, independentemente do ciclo litúrgico. Trata-se do relato da primeira manifestação do Senhor Ressuscitado aos seus discípulos, ao anoitecer do primeiro dia da semana, ou seja, o domingo mesmo da ressurreição. Inclusive, esse texto já foi lido na liturgia dominical deste tempo pascal, como parte do evangelho do segundo domingo; naquela ocasião, como ocorre todos os anos, fora lido um trecho mais longo: Jo 20,19-31, que compreende a manifestação do Ressuscitado também no domingo seguinte à ressurreição, ou seja, “oito dias depois” (cf. Jo 19,26). Portanto, embora estejamos de fato há cinquenta dias da Páscoa, o evangelho de hoje nos remete ao dia mesmo da ressurreição.

Pentecostes era uma das três maiores festas do calendário litúrgico judaico, juntamente com as festas da Páscoa e das tendas. Era celebrada cinquenta dias após a Páscoa. Na Bíblia hebraica é chamada de “festa das semanas” (שָּׁבֻעוֹת – shavuot), pois contavam-se sete semanas após a Páscoa, mais um dia, totalizando cinquenta dias (7x7+1=50). Por isso, recebeu o nome de “Pentecostes” (em grego: πεντηκοστή – pentecostê) a partir da dominação grega, cujo significado é simplesmente quinquagésimo dia (cf. Tb 2,1; 2Mc 12,32). Como todas as festas judaicas, também pentecostes tem suas origens ligadas à vida agrícola do povo: era a festa da colheita. Os peregrinos iam a Jerusalém agradecer pela colheita, levando os melhores grãos e frutos da terra como oferta, em gratidão a Deus.

Com o passar do tempo, essa festa perdeu sua relação com a agricultura, e foi ganhando um novo significado, com uma conotação mais religiosa e histórica. O motivo da celebração passou, então, a ser o agradecimento a Deus pelo dom da Lei ao seu povo. Na época de Jesus e dos apóstolos, esse novo sentido já estava consolidado: os judeus de todas as partes do mundo, conforme as condições econômicas, iam a Jerusalém, para agradecer a Deus pelo dom da Lei, transmitida através de Moisés. Lucas, autor dos Atos dos Apóstolos, se serve desse contexto e faz coincidir o envio do Espírito Santo com a festa judaica de Pentecostes, como artifício literário e teológico, para ensinar às suas comunidades que a nova lei é o Espírito Santo. Com isso, ele ensinar que, para permanecer fiel a Jesus e à sua mensagem, a comunidade cristã já não necessita das prescrições da Lei de Moisés; deve apenas estar sensível e aberta aos dons do Espírito Santo.

Por outro lado, o autor o evangelista João faz de tudo para que os referenciais da sua comunidade não coincidam com os esquemas litúrgicos judaicos. Para ele, as grandes festas dos judeus em Jerusalém sempre foram muito conflituosas para Jesus; eram momentos de confronto e ameaça (cf. 2,13ss; 5,1.18; 7,1ss; 10,31; 11,56). Por isso, ele situa a doação do Espírito Santo por Jesus aos discípulos, no dia mesmo da ressurreição. Embora a Igreja tenha adotado o esquema cronológico de Lucas, a perspectiva joanina tem mais sentido e responde melhor às necessidades dos discípulos, como mostra o Evangelho de hoje: “Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: A paz esteja convosco!” (v. 19). Ora, amedrontada e sem poder de ação, essa comunidade não teria condições de esperar cinquenta dias para receber o Espírito Santo. É somente pela força do Espírito Santo que as portas são abertas e os dons comunicados pelo Ressuscitado podem ser experimentados por todos.

A comunidade dos discípulos estava em crise, profundamente abalada. Até aquele momento, somente Maria Madalena e o Discípulo Amado tinham convicção da ressurreição (cf. Jo 20,8.16-18). A morte de Jesus na cruz foi um alerta para os discípulos: quem continuasse propagando ideias como as dele, poderia terminar da mesma forma. Por isso, estavam as portas trancadas, devido ao medo. Por “medo dos judeus” entende-se o medo das autoridades, e não de todo o povo; é típico de João usar o termo “judeus” referindo-se às autoridades de Jerusalém (cf. Jo 9,22; 12,42; 16,16). Apesar do medo, o fato de estarem reunidos é um sinal de esperança; significava que não tinham perdido completamente as esperanças; o ideal que os unia não tinha ainda se apagado. Porém, não poderiam continuar naquela situação, ou seja, acuados pelo medo. Ora, o medo impede a missão, as portas fechadas bloqueiam o anúncio da Boa Nova. Enfim, o medo é falta de experiência com o Ressuscitado.

Ao medo dos discípulos, o Ressuscitado responde com o dom da sua paz. Aqui, a paz não significa simplesmente a saudação típica do povo judeu, o famoso “shalom” (שָׁלוֹם). Inclusive, a tradução correta da expressão não é “a paz esteja convosco”, como está no texto litúrgico, mas “paz a vós”, sem a forma verbal “esteja”. O Ressuscitado não transmite um desejo de paz, mas traz a paz efetivamente, faz a paz acontecer. E quem faz experiência com Ele já tem a paz dentro de si, embora seja uma paz inquieta, como ele mesmo viveu. E imediatamente os discípulos sentiram a paz neles e entre eles, pois passaram do medo à alegria (v. 20). A paz é plenitude de vida e equilíbrio, o bem-estar da pessoa em todas as suas dimensões, condição indispensável para a felicidade. Jesus comunica a sua paz estando no meio, quer dizer, no centro da comunidade. Para que os dons do Ressuscitado sejam realmente acolhidos, é necessário que a sua centralidade na comunidade seja respeitada; isso vale para todos os tempos e lugares. Para uma comunidade viver realmente os propósitos do Evangelho é necessário, antes de tudo, que no centro do seu existir esteja o Ressuscitado e somente Ele, pois é Ele o único ponto de referência e fator de unidade. Por isso, ao se manifestar, o Ressuscitado aparece sempre no meio.

Na continuidade da experiência, diz o texto que Jesus “mostrou-lhes as mãos e o lado” (v. 20a). Ao mostrar as mãos e o lado, Jesus mostra a continuidade entre o Ressuscitado e o Crucificado; se trata da mesma pessoa. O Ressuscitado traz as marcas do Crucificado, porque cruz e glória não se separam. Nas mãos e no lado de Jesus está a sua identidade de quem viveu para servir e amar. As mãos são símbolo e recordação do serviço e de todo o bem que Jesus fez: são as mãos que tocaram em leprosos, mesmo sendo proibido (cf. Mc 1,40), mãos que deram carinho a crianças (cf. Lc 18,15-16; Mt 19,13-15), mãos que abriram olhos de cegos (cf. Jo 9,6), mãos que curaram enfermos e expulsaram demônios (cf. Lc 4,40; 13,13), mãos que lavaram os pés dos discípulos (cf. Jo 13,1-12); enfim, são mãos que promoveram a vida e combateram o mal.

As marcas da cruz não apagaram a força das mãos de Jesus. Essas mãos continuam à disposição da comunidade, e a comunidade, por sua vez, tem a missão de fazer no mundo o mesmo que aquelas mãos do Ressuscitado fizeram, ou seja, servir infinitamente e sem distinção. Também o lado, ou seja, o peito aberto, tem o mesmo significado de continuidade: é o mesmo coração com o qual Ele amou até o fim (cf. Jo 13,1), e continua amando da mesma forma. As mãos e o lado de Jesus são, portanto, a síntese da sua vida, da sua mensagem e da sua práxis. Ele doa o Espírito Santo aos discípulos para que suas mãos e o seu coração continuem presentes no mundo servindo e amando de modo ainda mais eficaz. Por isso, “os discípulos se alegraram por verem o Senhor” (v. 20b). Como fruto da paz transmitida pelo Ressuscitado, a alegria deve ser também uma das características da comunidade que deve viver para amar e servir.

A paz como bem-estar do ser humano é novamente oferecida: “novamente Jesus disse: A paz esteja convosco” (v. 21a). Novamente, não é um desejo, mas a afirmação de um dom já presente, já verificável. A passagem do medo à alegria poderia tornar-se uma simples euforia, por isso a paz é doada novamente para equilibrar a comunidade. Aqui, a paz não significa alívio ou tranquilidade, mas sinal de liberdade e vida plena; é a capacidade de assumir livremente as consequências das opções feitas. Tendo plenamente comunicado a paz como seu primeiro dom, o Ressuscitado os envia, como fora ele mesmo enviado pelo Pai: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v. 21b). É importante recordar que, embora cada evangelista narre as aparições do Ressuscitado à sua maneira, todos os quatro recordam um elemento comum: o envio missionário.  E trata-se de um elemento determinante para a construção da identidade da comunidade cristã, a Igreja. Não há seguimento de Jesus sem disposição para a missão. A Igreja nasceu para estar em saída. E a fonte da missão é o amor do Pai, o que confere à comunidade cristã uma responsabilidade ímpar: fazer no mundo o mesmo que Jesus fez, pois ele está enviando seus discípulos de todos os tempos conforme fora enviado pelo Pai.

Como Jesus tinha prometido o Espírito Santo aos discípulos na última ceia (cf. Jo 14,16.26; 15,26). Agora, a promessa é cumprida: “E depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: Recebei o Espírito Santo” (v. 22). Aqui, o evangelista usa o mesmo verbo empregado no relato da primeira criação do ser humano: “O Senhor modelou o ser humano com a argila do solo, soprou-lhe nas narinas um sopro de vida, e o ser humano tornou-se vivente” (Gn 2,7). Com isso, o evangelista quer dizer que está sendo realizada uma nova criação. O verbo soprar (em grego: έμφυσάω – emfysáo) significa doação de vida. Assim, podemos dizer que Jesus recria a comunidade e, nessa, a humanidade inteira. Ao receber o Espírito, a comunidade se torna também comunicadora dessa força de vida. É o Espírito quem mantém a comunidade alinhada ao projeto de Jesus, porque é Ele quem faz a comunidade sentir, viver e prolongar a presença do Ressuscitado como seu único centro e fundamento, colocando à disposição da humanidade mãos e coração para servir e amar continuamente. O Espírito Santo é força dinâmica e vivificadora; é movimento. Logo, a Igreja não pode parar no tempo, não pode acomodar-se.

Na sequência, o Ressuscitado recorda os efeitos principais do Espírito Santo na vida da comunidade, conferindo-lhe uma grande responsabilidade: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem não perdoardes, eles lhes serão retidos” (v. 23). Por muito tempo, esse versículo foi usado simplesmente para fundamentar o sacramento da penitência ou confissão. No entanto, não é um sacramento o que Jesus está instituindo, tampouco conferindo um poder aos seus discípulos para determinar se um pecado pode ser perdoado ou não. O que perdoa mesmo os pecados é o amor infinito de Deus que Jesus revelou. Logo, ficam pecados sem perdão quando os discípulos e discípulas de Jesus deixam de comunicar esse amor. Em outras palavras, os pecados ficarão retidos quando houver omissão da comunidade, ou seja, quando essa deixar de produzir os frutos que Jesus pediu (cf. Jo 15,1-17). Ora, Jesus envia os discípulos como Ele mesmo fora enviado pelo Pai (v. 21), confiando-lhes a continuidade da sua própria missão. E a missão de Jesus foi sintetizada pelo Batista como “tirar o pecado do mundo” (cf. Jo 1,29). Tirar o pecado do mundo significa promover intensamente o bem até eliminar o mal pela raiz, o que só se faz através do amor, com ousadia profética. Agora, é Jesus quem confia à sua comunidade de discípulos essa responsabilidade. Logo, os pecados são perdoados à medida em que o amor de Jesus vai se espalhando pelo mundo, quando seus discípulos se deixam conduzir pelo Espírito Santo.

É na comunidade que o Ressuscitado se manifesta, fazendo essa perder o medo e insegurança. Somente uma comunidade que tem o Ressuscitado como centro, pode viver plenamente reconciliada, em paz e animada pelo Espírito. São essas as condições para que a alegria do Evangelho seja, de fato, anunciada! Deixando-se conduzir pelo Espírito Santo, a comunidade atualiza e prolonga, no tempo e no espaço, a missão única do próprio Jesus de revelar o amor de Deus a todas as pessoas.
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