141. Há graça até na culpa

“No amor não há temor” (1Jo 4,18)
“Esqueceram de nos contar que Deus é amor”
(Adélia Prado)
Ao longo da vida, fui cultivando o hábito de se sempre procurar perceber o lado positivo das coisas e das pessoas. Há sempre uma saída, uma luz no fim do túnel. Talvez porque sou jovem demais, talvez pelas oportunidades que tive na vida, eu não consigo ver o mundo como algo ruim; para mim, a vida é boa demais.
No entanto, algumas pessoas insistem em dizer que o mundo é ruim e que as coisas do mundo não são boas e, por isso, temos que evitá-las, pois elas nada nos acrescentam e que ainda nos desviam do nosso alvo que é o céu. Também dizem que o ser humano é ruim. Vivemos nessa tensão: terra e céu.
Ao longo da história do ocidente, parece que, nos caminhos da evangelização, a culpa foi mais valorizada do que a graça de Deus e, assim, não conseguimos anunciar a alegria do evangelho. Parece que desvirtuamos a mensagem do evangelho de Jesus. Pregamos mais a punição do que a redenção. No entanto, o evangelho não deveria fazer de nós escravos do medo, mas pessoas livres, capazes de até mesmo, na culpa, encontrar a graça de Deus, o perdão divino a nós ofertado gratuitamente.
Apesar do amor benevolente de Deus, ainda hoje carregamos nos ombros o peso da culpa. Como canga de um carro de boi, esse fardo sobrecarrega nossas costas. O pecado de Adão nos esmorece. Parece que ainda não compreendemos que a culpa foi remida de uma vez por todas por Cristo no alto do calvário.
No relato do cego de nascença presente no Evangelho de João, os judeus perguntam a Jesus: “Quem pecou para que ele nascesse assim: ele ou seus pais?” E, Jesus respondeu assim: “Nem ele nem seus pais” (Jo 9, 1-3). Para Jesus, as doenças e outras mazelas da vida não são castigo divino ou resultado de punições de Deus. Nosso Deus é amor e não juiz implacável. A vida tem seu peso, sua dor, e isso não tem nada a ver com Deus.
Jesus também tinha essa estranha mania de transformar coisas ruins em algo bom. Inclusive, a Igreja canta na Vigília Pascal: “Ó pecado de Adão indispensável, pois o Cristo o dissolve em seu amor. Ó culpa tão feliz que há merecido a graça de um tão grande redentor”. Para a teologia cristã, o pecado de Adão, ou seja, a desobediência humana, está intimamente ligado à redenção de Cristo. Maior que o pecado é o amor de Cristo que nos envolve, cura e salva.
Certamente, tal constatação de pecado definitivamente remido por Jesus não leva os cristãos a cair numa espécie de laxismo, que permite tudo, uma vida cheio de perversões e a ausência do amor. Não, o pecado acontece quando nos desviamos de Deus, mas ele é só um acidente de percurso. O cristão não se permite acomodar no pecado, pois sua meta é o seguimento de Jesus Cristo. Com a força do Espírito podemos ser melhores, podemos nos superar, podemos viver remidos de toda culpa, na graça de Deus.
Como disse a poetisa Adélia Prado: “Sou miserável, mas quando escrevo ‘sou miserável’ a miséria diminui um pouco. Aquilo que não é eu, ou melhor, aquilo que eu não sou, este aquilo me salva e o seu nome é GRAÇA”.
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