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13. O Natal segundo a espiritualidade cristã

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20.12.2014 | 6 minutos de leitura
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13. O Natal segundo a espiritualidade cristã

A encarnação de Jesus Cristo se revela um mistério maravilhoso que une céu e terra. O Verbo se faz carne e diviniza a humanidade, penetra-a com seu amor. Natal significa que Deus se abaixou, condescendeu com o homem para que o homem transcendesse até Deus. A fronteira entre o divino e o humano se tornou permeável. E isso acontece por amor: Deus não tem nenhuma obrigação de tratar assim o homem. O homem não tem nenhum direito de ser tratado assim por Deus. O natal se explica pela gratuidade do amor.


O Filho de Deus, gerado eternamente no seio Pai, no poder do Espírito Santo, é gerado no seio de Maria no poder do mesmo Espírito para nossa salvação. Natal não é somente o nascimento de um homem que é Deus. Não. O natal nos remete ao próprio mistério da Trindade eterna que emerge na história para elevar a si toda a humanidade. A graça de Deus se manifesta como a essência do natal. E a graça não é uma coisa da qual o ser humano possa se apropriar. Graça é o gesto divino que, quando acolhido pelo homem, o transforma, o regenera, o liberta do pecado e o torna capaz de viver em comunhão com Deus e com os irmãos. Essa graça chega a nós através da fragilidade do menino Jesus. Uma graça que, ao comunicar-se e doar-se, revela toda sua grandeza. “Um menino nos foi dado”; “o verbo se fez carne e veio habitar no meio de nós”; “nasceu-nos um salvador”.


 Jesus nasceu para nós, no meio de nós, em nós. Deus–Pai presenteia a humanidade com a vida do que lhe é mais própria, o Filho. Jesus, Filho de Deus, veio ao mundo para anunciar o Reino e introduzir no seu mistério todos os homens, eis a sua missão. Ela não é extrínseca ao seu próprio ser. Ser e fazer coincidem em Jesus. Humanizou-se para que homens e mulheres pudessem divinizar-se. Fez-se um de nós, tornou-se como nós para que fôssemos como ele e fizéssemos como ele fez. Ele é o Filho que se entrega ao Pai e a nós por amor. Eis a nossa missão: filhos no Filho, nos entregar a Deus e aos irmãos, construindo a fraternidade, o Reino que ele veio inaugurar.


Santo Afonso se encantava com o mistério do Natal e o via como um transbordamento de amor: “Jesus quis nascer não só para ganhar de nós esta forma de amizade a que chamamos estima, mas também um amor de ternura. Pois se todos os meninos sabem conquistar o carinhoso afeto daqueles que cuidam dele, quem não se comoverá de amor vendo um Deus indefeso, tiritando de frio e carente?”. Deus-Pai mostra-nos todo seu amor em Jesus, mas espera o nosso amor em troca, perdoa-nos e usa de misericórdia conosco ainda mais se estivermos unidos a Jesus. Para Santo Afonso, a encarnação de Jesus revela e manifesta o grande amor de Deus por nós. Natal é mistério de graça incompreensível. Loucura de amor de um Deus que se aniquila para atrair a si a humanidade inteira, de um Deus que não tem medo do pecado do homem, mas sai de si para buscá-lo, atraí-lo, conquistá-lo, para comunicar-lhe a sua própria vida na vida entregue do Filho.


Esse grande mistério faz Santo Afonso afirmar que nenhuma devoção se compara àquela ao Verbo encarnado. “Muitos se dedicam a tantas devoções e esquecem exatamente esta. Os pregadores falam pouco do amor a Jesus, a principal, a única verdadeira devoção dos cristãos”. Santo Afonso quer que os cristãos centrem suas vidas em Jesus. Eis o sentido da devoção, seu ponto crucial se encontra no amor a Jesus. A verdadeira devoção aprofunda nossa intimidade com Jesus, nos faz entrar em comunhão com a sua vida entregue por nós desde a encarnação, aí se esconde o segredo do que chamamos salvação. Portanto, tem razão nosso doutor: “o amor a Jesus é a principal, a única verdadeira devoção dos cristãos”.


O Natal nos conduz ao coração do mistério da fé, que é adesão à pessoa do Filho. Para celebrá-lo, não basta enfeitar a nossa casa, dar e receber presentes, preparar uma ceia farta. Tudo isso faz parte da celebração do natal, mas nós, cristãos, vamos além. Sabemos que Cristo estará ausente de muitas ceias. O “aniversariante” permanecerá esquecido, enquanto, lá fora, Herodes continuará a matança dos inocentes. Deus-Pai espera que enfeitemos o nosso coração para receber o menino–Deus, seu Filho. Celebrar o Natal exige acolher Jesus no nosso coração, assumir em nossa vida aquela orientação fundamental que caracterizou a sua vida: solidariedade ilimitada e desinteressada. Cristo nasce para salvar a humanidade, sobretudo os mais pobres e indefesos. O próprio Jesus resumiu assim a sua missão: “Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida para resgatar a multidão” (Mc 10,45). Então natal não é receber, é dar. Não são presentes; é a “presença” de Jesus em nós, no meio de nós, reconciliando-nos uns com os outros e com Deus. A celebração do Natal nos obriga a proclamar que, apesar de todos os problemas e desilusões do mundo, nada nos faz esquecer que o Filho de Deus visitou seu povo e se mostrou aos homens e mulheres de seu tempo. E nós perpetuamos esta visita, sonhando o sonho de Jesus e acreditando que, apesar de tudo, vale a pena apostar na Boa Nova do Reino, porque só ela salva o mundo de todas as suas contradições.


Tudo isto acontecerá se Jesus, Filho de Deus, nascer em nós. Como dizia um místico medieval: “Cristo pode nascer mil vezes em Belém; se ele não nascer pelo menos uma vez em nosso coração, jamais saberemos o que é o natal”. Somos convidados a viver este mistério maravilhoso de amor e graça deixando-nos transformar pelo mistério de Deus que se faz presente em nossa vida no mistério de seu Filho encarnado. Façamos nossa a oração de Santo Afonso: “Desce do céu para ser nosso amigo e companheiro, mas quem te acompanha? Quem te acolhe em Belém? Só José e Maria. Manifesta-nos tua graça salvadora, mas muitos poucos querem acolhê-la. És para nós um irmão, mas te consideramos estrangeiro. Ó Palavra de Deus feita carne por mim! Embora te veja pobre e desvalido, hoje te confesso, meu Senhor. Aqui tens o meu ser, toma-o por presépio e trono. Ó rei da humildade! Toma o comando do meu coração e não deixes que outro me domine”.







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