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68. Abrir as mãos para viver

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24.09.2020 | 8 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Diversos
68. Abrir as mãos para viver

“Há mais alegria em dar do que em receber” (At 20,35)

Já faz anos que a Igreja no Brasil tem o costume de dedicar o mês de setembro à reflexão bíblica. Não foi à toa que essa prática foi implantada. Os católicos andavam distantes da Escritura Sagrada. No divórcio litigioso entre a Igreja Católica e os reformadores no século XVI, a parte católica ficou com os sacramentos e a parte da Reforma ficou com a bíblia. Lutero traduziu a bíblia para o alemão e, entre os católicos, essa tradução para a língua vernácula foi posterior. Por longos anos, a bíblia mais popular era a vulgata, em latim. Como ninguém mais sabia o latim, a bíblia se tornou um livro perigoso de capa preta, empoeirado na estante das casas de uns poucos privilegiados. Ela não era objeto de reflexão, meditação ou estudo, sendo inclusive desaconselhada a sua leitura.
 Foi com o movimento bíblico, que precedeu o Concílio Vaticano II e que foi confirmado por ele, que o trauma bíblico foi superado. No Brasil, os cursos bíblicos, especialmente fomentados pelo frei Carlos Mesters, teve esse mérito de quebrar os tabus em torno da bíblia e de apresentá-la como um livro da fé de um povo, para a fé de nosso povo. Mesters conseguiu tecer o inconsútil fio entre a fé e a vida nas linhas da Escritura.
Desde então, o mês de setembro passou a ser intitulado em nossas comunidades de “mês da bíblia”, sempre com a escolha de um lema retirado de algum versículo do livro a ser estudado nesse tempo.
Nesse ano de 2020, o lema do mês bíblico é “Abre tua mão para teu irmão” (Dt 15,11) e, em tempos de pandemia, esse lema não poderia ser mais oportuno. Em plena crise sanitária gerada pelo coronavírus, a economia despencou no mundo inteiro e, no Brasil onde as desigualdades sociais já eram gritantes, tudo ficou agravado. Milhões de invisibilizados se posicionaram nas filas das agências da Caixa Econômica para pleitear o auxílio emergencialou para retirá-lo,auxílio só aprovado pelo governo a muito custo, sob pressão da oposição, do Congresso e do Senado. Impressiona a insensibilidade da elite brasileira e dos poderosos de plantão, que, mesmo em meio ao grande caos, têm dificuldades de abrir as mãos para o irmão necessitado. São escravos de suas cifras e não conhecem a alegria da gratuidade. Perversos, só se realizam sobre a desgraça dos outros e parecem ter gozo com o sofrimento de uma multidão.
Para quem assumiu a fé cristã como guia, a lógica da vida é bem outra. “Há mais alegria em dar do que em receber” (At 20,35), escreveu Lucas, o autor de Atos dos Apóstolos. Mas essa alegria é para poucos, apenas para os que não constroem sua vida sob as ilusões vãs do muito possuir.
A partilha, assumida por Jesus numa mesa de refeição como símbolo de sua presença e ocasião de fazer sua memória, exige o reconhecimento do rosto do outro. Sem esse reconhecimento não é possível o movimento de saída de si. O rosto do outro interpela, incomoda, causa reviravoltas nas entranhas, exige compaixão e empatia. Quando o outro é reconhecido como um rosto, não como um objeto da paisagem urbana, torna-se impossível não abrir as mãos, pois o coração já está escancarado.
Antes de abrir a mão, é preciso abrir os olhos e o coração. Não são os pobres do Brasil que são invisíveis. São os olhos dos governantes que não conseguem ver. Estão cegados pelo egoísmo, pela ganância e só reconhecem a si mesmos, num movimento narcísico diante do espelho de outros olhos que confirmam sua prepotência. O coração empedernido não é tocado quando os olhos só veem o que querem. Esse processo seletivo do ver aprimora o empedernecimento do coração. E as mãos se mantêm em punho, prontas para atacar, em vez de se abrirem para acolher, oferecer e acariciar.
Abrir as mãos para os irmãos não significa somente fazer o bem ao desvalido, mas especialmente é fazer o bem ao explorador. Não se trata de fazer um favor ao pobre, oferecendo-lhe o resto de uma sociedade consumista e marcada pelo desperdício. O movimento de abrir as mãos é uma oportunidade de libertação para os gananciosos da Terra. Escravizados por cifras e ilusões, os que acumulam para si mergulham numa areia movediça perigosa; quanto mais se debatem mais se afundam na lama e falta-lhes ar para viver.
O evangelista Lucas compreendeu muito bem isso. Seu Evangelho e os Atos dos Apóstolos retratam a assimilação dessa máxima de Dt 15,11. Para ele, bem-aventurados são os pobres (Lc 6,20), não porque a pobreza seja louvável mas porque a felicidade está diretamente relacionada com a liberdade de não acumular. Ainda no Evangelho de Lucas, são muitos os relatos sobre os que não sabem partilhar e cujo final é uma vida vazia de sentido e plena de uma solidão, tão gigante quanto o monte de riqueza acumulada. É o caso do rico avarento que, tendo colhido muito, em vez de aumentar a mesa, aumentou os celeiros. Na visita noturna da morte, estava de mãos vazias para fazer sua oferenda (Lc 12,13-21). E o que dizer daquele outro ricaço que vivia fazendo festas enquanto o pobre Lázaro – que significa amparado por Deus – mendigava à sua porta? Visitado pela morte, suplicava ao pai Abraão o dedo molhado daquele que ele ignorou em vida para aliviar sua sede. Enquanto isso, Lázaro gozava de liberdade na companhia de seu patriarca (Lc 16,19-31). E,em Atos, ainda tem Ananias e Safira,que mentiram para a comunidade por ocasião da venda de uma propriedade. Caíram estatelados no chão surpreendidos pela companheira certeira, a irmã morte, sem desfrutar da alegria do convívio fraterno (At 5,1-11). São metáforas para dizer da inconveniência do acúmulo e da impossibilidade de coadunar avareza e fé cristã. Para Lucas, sem abrir as mãos conforme ensina o Deuteronômio, não é possível uma autêntica profissão da fé cristã, nem é possível a liberdade que essa proporciona. Acumular reverbera em prejuízo para os pobres, que ficam privados dos bens essenciais pela ganância dos ricos, e em dano para os ricos, pois ficam privados da liberdade de ser.
Triste realidade a dos desavisados acumuladores! Desconhecem a liberdade; passam a vida escondendo suas tramas escusas, sempre em alerta com medo da chegada do ladrão. Lembro-me certa vez de ter ido visitar um conhecido em uma cidade vizinha. Ao chegar na cidade, paramos o carro e perguntamos pelo tal. Não sabia eu que o interrogado era um desses loucos lúcidos que humilham nossa sensatez. Ele respondeu-me: “Fulano de tal? Ah, ele mora ali, logo ali. Ele está em casa. Ele sai de casa não. Fulano tem carro, caminhão, casa, sítio e muito dinheiro. Precisa ficar quieto em casa para vigiar tudinho, porque senão vem o ladrão e leva tudo”. Estarrecida com a verdade crua e nua, não sabia o que fazer. Segui para a casa do tal senhor e lhe dei o recado, sem hesitação.
Desde então, tenho pensado na escravidão dos que escravizam; nas cadeias dos que prendem inúmeras multidões nos porões da humanidade; nas amarras que impedem a verdadeira saciedade dos que têm as despensas cheias às custas da fome de milhões. Não é à toa que os gananciosos habitam os submundos das drogas, do sexo desregrado, do crime e da traição. Não os invejo. Não desejo riquezas. Não pretendo acumular, mas apenas guardar o mínimo necessário para uma velhice digna, própria de quem sabe que “caixão não tem gaveta”. Abrir as mãos para os irmãos é atitude libertadora. Liberta o oprimido da fome, do frio, do descaso, da indiferença... Liberta o opressor do vazio, da solidão e do não-sentido.
Para nós cristãos, em tempos de crescimento da corrupção e da acumulação de uns poucos, resta perguntar como abrir as mãos. Primeiramente, abrindo os olhos para ver as injustiças sociais. Depois, abrindo o coração em generosidade com quem nos rodeia, com o necessitado que está sob nossos olhos. Terceiro – e mais importante passo – abrindo a mão para digitar o número certo nas próximas eleições. Não adianta falar de abrir a mão aos necessitados se continuamos colocando perversos no poder. Essa caridade que alivia as consciências e apaga as culpas é mero paliativo. As eleições se aproximam e teremos a chance de dar um basta a muitos poderosos acostumados a mamar nas tetas do Brasil. Se de fato, a gente leva a sério o que diz Dt 15,11, não hesitaremos em dizer um basta ao sistema injusto, que gera milhões de famintos e de abandonados pelas ruas.