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274. REFLEXÃO PARA A VIGÍLIA PASCAL – Lc 24,1-12 – Ano C

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16.04.2022 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
274. REFLEXÃO PARA A VIGÍLIA PASCAL – Lc 24,1-12 – Ano C
Enquanto o evangelho do domingo da ressurreição é sempre o mesmo – Jo 20,1-9 –, o da Vigília Pascal varia conforme o ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ano litúrgico C, o texto lido é Lc 24,1-12. Mais do que um relato de ressurreição propriamente, trata-se de um relato do túmulo vazio. Na verdade, este texto recorda a experiência das mulheres que vão até o túmulo de Jesus e o encontram vazio, sem o corpo. Por sinal, é importante recordar que a ressurreição mesma não é narrada e nem descrita por nenhum dos evangelhos. De fato, nenhum evangelista diz como Jesus deixou o sepulcro, nem o momento em que isso aconteceu, embora a ressurreição seja o evento maior da fé cristã. O que todos os evangelhos contam são indícios, anúncios da ressurreição e experiências de encontro com a pessoa do Ressuscitado.

O relato lido hoje possui versão paralela nos outros dois sinóticos (cf. Mt 28,1-8; Mc 16,1-8), com aproximação também ao relato de João (cf. Jo 20,1-9), embora com menos pontos em comum. É um texto rico, com muitos detalhes próprios de Lucas, embora tenha ficado um pouco esquecido ao longo da história, já que o destaque do capítulo 24 sempre foi considerado o episódio dos discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35), que é o segundo texto mais conhecido do Terceiro Evangelho, ficando atrás apenas da parábola do filho pródigo (cf. Lc 15,11-32). Pode-se dizer, então, que houve uma certa injustiça em relação ao trecho lido na liturgia de hoje, inclusive porque, sem ele, o relato dos discípulos de Emaús se torna incompleto. Todo o capítulo 24 de Lucas é dedicado à ressurreição, embora não chegue a descrevê-la, como já acenamos acima. E o ponto de partida é o texto de hoje.

Eis o início do texto: “No primeiro dia da semana, bem de madrugada, as mulheres foram ao túmulo de Jesus, levando os perfumes que haviam preparado” (v. 1). O texto começa com duas indicações temporais bem relevantes. O “primeiro dia da semana” é o domingo, o dia seguinte ao sábado. Ora, o sábado foi o último dia da antiga criação. Com essa expressão, o evangelista quer dizer que uma nova criação está em curso, um novo tempo e um novo mundo estão sendo gestados. A indicação “bem de madrugada” indica a situação da comunidade logo após a morte de Jesus: em trevas, no escuro. E quem tem coragem de enfrentar as trevas, até rompê-las, são as mulheres, as primeiras a tomarem iniciativa na ausência de Jesus. Ora, em todos os evangelhos, as mulheres são as primeiras personagens a tomar iniciativa no primeiro dia da semana e, consequentemente, as primeiras a experimentarem a ressurreição. Contudo, em Lucas esse fato tem um significado ainda mais forte, tem em vista que, ao longo de todo o seu Evangelho, as mulheres foram mais evidenciadas e valorizadas como autênticas discípulas de Jesus.

Se tem uma nova criação em curso, os protagonistas serão as mulheres, uma categoria que representa todos os grupos de pessoas marginalizadas, de acordo com a teologia de Lucas. As mulheres vão ao túmulo para embalsamar o corpo morto de Jesus, o que era um costume típico da cultura semita. Chegando lá, se surpreendem, pois “elas encontraram a pedra do túmulo removida” (v. 2). Certamente, ficaram ainda mais surpresas ao entrar no túmulo, pois lá “não encontraram o corpo do Senhor Jesus” (v. 3). Embora se trate de dois fatos impactantes – túmulo aberto e ausência do corpo – ainda não há evidência da ressurreição. Mas já há sérias motivações para uma reflexão com muitas interrogações, obviamente, além da preocupação e inquietação, como afirma o afirma o evangelista, que as mulheres “ficaram sem saber o que estava acontecendo” (v. 4a). Poderia ser uma reação de medo, mas as mulheres discípulas de Jesus não podem ter medo. Elas ficam perplexas, mas não medrosas, diante de uma situação tão complexa.

Diante da perplexidade das mulheres, “dois homens com roupas brilhantes pararam perto delas” (v. 4b). As vestes brilhantes indicam que estes homens são mensageiros divinos, pertencem ao mundo de Deus. Inclusive, recorda a transfiguração de Jesus, quando ele permitiu ser visto por alguns discípulos em sua real condição de Filho Escolhido de Deus (cf. Lc 9,28-36). O número dois credencia o testemunho dos homens como credível, conforme a mentalidade judaica que exigia pelos menos duas testemunhas homens para um fato ser acreditado (cf. Dt 19,15). As mulheres reconhecem os homens como mensageiros divinos, o que se evidencia pela postura delas diante deles: “Tomadas de medo, elas olhavam para o chão” (v. 5a). Mais do que medo, o termo mais justo seria “temor”, enquanto reverência, que é a postura adequada do ser humano diante de Deus, o que se comprova pela atitude de olhar para o chão. É o reconhecimento da grandeza de Deus e dos limites da condição humana diante dele.

Os mensageiros divinos interagem com as mulheres, e começam interrogando-as acerca do estavam fazendo: “Por que estais procurando entre os mortos aquele que está vivo?” (5). Talvez estas sejam as palavras mais importantes de todo o texto. Antes de comentá-las, é importante recordar a relevância deste diálogo, comparando-o, inclusive, com o anúncio do nascimento de Jesus pelo anjo aos pastores (cf. Lc 2,8-12). Tanto os pastores quanto as mulheres pertenciam a categorias de pessoas consideradas inferiores, sem nenhuma reputação nem relevância; eram pessoas marginalizadas. Contudo, estas pessoas são as primeiras a receber as notícias boas de Deus, o que se constata pelo anúncio do nascimento e da ressurreição de Jesus. Isso mostra que Deus sempre teve um lado na história, que é o lado dos pequenos, humildes e humilhados, e isso ficou mais claro a partir de Jesus de Nazaré.

O questionamento que os dois homens fazem às mulheres é decisivo: por que procurar entre os mortos o “Vivente”?. Ao invés da expressão “aquele que está vivo”, o termo “vivente” corresponde melhor à palavra grega empregada pelo evangelista (ζῶντα – zonta). Esta palavra grega significa aquele vive e faz viver, e é essa a condição de Jesus Ressuscitado. Daí, o cuidado que a comunidade deve ter para não procurá-lo no lugar errado. E são muitos os lugares errados onde, não poucas vezes, se tem buscado Jesus. Às vezes, podem ser até assembleias litúrgicas onde há muita emotividade, muitos adornos, muita ortodoxia e pouco compromisso com o próximo. Certamente, uma das principais necessidades das comunidades de hoje é saber procurar e encontrar o Vivente e, consequentemente, tornar-se lugar de encontro com ele. Isso já era uma preocupação das comunidades de Lucas, e deve continuar sendo também hoje.

Após questionar as mulheres por estarem procurando entre os mortos o Vivente, os dois homens explicam a sua real condição, recordando o que ele mesmo tinha ensinado: “Ele não está aqui. Ressuscitou! Lembrai-vos do que ele vos falou, quando ainda estava na Galileia: ‘O Filho do Homem deve ser entregue nas mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia’” (vv. 6-7). Temos aqui uma recordação explícita dos três anúncios da paixão (cf. Lc 9,22; 9,43-45; 18,31-34), que marcaram todo o seu ministério, desde a Galileia até a consumação dos fatos, em Jerusalém, com a paixão e morte de cruz.  Com este convite dos mensageiros divinos para as mulheres recordarem o que Jesus falou sobre o seu destino, o evangelista reforça a condição de discípulas destas mulheres. De fato, desde a Galileia elas acompanharam Jesus (cf. Lc 8,1-3) como autênticas discípulas, e Lucas é o evangelista que mostra isto com mais clareza. Logo, elas estão habilitadas a perceber que a ressurreição é a conclusão lógica de uma vida como a de Jesus.

Conforme foram encorajados pelos dois mensageiros de Deus, “as mulheres se lembraram das palavras de Jesus” (v. 8). Mais uma vez, o evangelista ressalta que elas eram discípulas autênticas. Recordaram as palavras de Jesus porque estiveram com ele, acompanharam todo o seu itinerário, até à cruz (cf. Lc 23,27.49.55). Por “palavras”, aqui, compreende-se todo o ensinamento de Jesus, incluindo o seu agir libertador. Ao dizer que as mulheres “lembraram”, implicitamente o evangelista diz que elas acreditaram na ressurreição anunciada pelos dois homens de vestes brilhantes. E como as mulheres acompanharam Jesus desde o início na Galileia, logo não necessitaram de aparições ou manifestações extraordinárias para acreditar a aceitar sua condição de Vivente. As palavras de Jesus são suficientes. Já os discípulos homens, pelo contrário, só acreditarão quando o verem; as mulheres acreditaram sem vê-lo porque deram adesão verdadeira às suas palavras, assimilaram de modo mais completo os seus ensinamentos. Assim, o evangelista adverte também a sua comunidade e as comunidades de todos os tempos: quem tem acesso às palavras de Jesus, por meio do seu evangelho escrito, está em condição de fazer experiência com o Vivente e ser sinal da sua presença no mundo.

A memória das palavras de Jesus geram consciência missionária, desinstalam, afasta o comodismo, como aconteceu com as mulheres que, logo após as recordarem, “voltaram do túmulo e anunciaram tudo isso aos Onze e a todos os outros” (v. 9). Elas se tornaram as primeiras anunciadoras da ressurreição, as primeiras mensageiras do Vivente, as primeiras a contribuir com Deus na construção do mundo novo, logo nas primeiras horas do primeiro dia da nova criação. E anunciaram tudo, quer dizer que não omitiram nada. Também aqui, certamente, o evangelista quer chamar a atenção dos seus leitores de todos os tempos a anunciar tudo o que compõem a mensagem e a vida de Jesus, o Vivente, independentemente se o anúncio será aceito ou não. Algumas das mulheres são citadas por nome, mas havia outras além delas (v. 10), um dado que reforça ainda mais a certeza de que o discipulado de Jesus sempre foi fortemente marcado pela presença feminina, apesar das diversas tentativas de ofuscamento e silenciamento delas, desde o início até hoje.

O testemunho das mulheres não era considerado credível na sociedade vigente, e os discípulos homens estavam totalmente condicionados àquela sociedade; isso reforça o fato de que eles ainda não tinham assimilado a novidade de Jesus que propunha ruptura com o sistema. Por isso, eles não deram credibilidade ao anúncio das mulheres, como denuncia o evangelista: “Mas eles acharam que tudo isso era desvario, e não acreditaram” (v. 11). Além de não acreditar, os discípulos homens acharam que o anúncio das mulheres não passava de um “delírio”, um termo mais fiel à palavra grega empregada pelo evangelista (λῆρος – lêros), que o lecionário traduziu por desvario. E a história mostra que o anúncio fiel da totalidade da mensagem de Jesus, o “tudo isso” anunciado pelas mulheres aos Onze e demais discípulos, quase sempre é considerado delírio, loucura ou subversão. A história também mostra que a rejeição ao “tudo isso” de Jesus, muitas vezes, começa naqueles que deveriam ser os primeiros a acreditar e acolher, como os Onze.

Apesar da descrença generalizada entre os discípulos homens, o evangelista destaca uma postura diferenciada entre eles: “Pedro, no entanto, levantou-se e correu ao túmulo. Olhou para dentro e viu apenas os lençóis. Então voltou para casa, admirado com o que havia acontecido” (v. 12). Como se vê, o texto não diz que ele deu crédito ao anúncio das mulheres, mas mostra uma atitude diferente em relação aos demais. Pelo menos, ele ficou curioso, a ponto de correr ao túmulo. Olhando para dentro, constatou que, de fato, o corpo não mais estava lá. De curioso que estava, a ponto de sair correr em direção ao sepulcro, Pedro ficou admirado, embaraçado, e esse é um primeiro estágio para a fé. A admiração também foi a primeira reação de Maria, a mãe de Jesus, diante do anúncio do anjo (cf. Lc 1,29). Com este dado, Lucas está preparando o futuro protagonismo de Pedro na primeira comunidade, o que será bastante evidenciado no segundo volume de sua obra, o livro dos Atos dos Apóstolos. A imagem de Pedro ficou bastante comprometida após as negações, durante a paixão de Jesus. É necessário, portanto, reabilitá-lo para tornar credível a sua liderança na comunidade, e parece que o processo de reabilitação começa aqui, na perspectiva de Lucas.

É importante perceber e assimilar a mensagem da ressurreição transmitida pelo evangelho de hoje como a conclusão lógica da vida de Jesus, considerando seus primeiros passos, desde a concepção e o nascimento. Toda a sua vida foi uma doação constante de amor e por amor, com suas escolhas incompreensíveis até pelos familiares, sua predileção pelos pequeninos e humilhados. Tudo isso, sempre foi sinal claro de ressurreição. Devemos então, recordar tudo o que ele disse e fez, e anunciar sem medo, mesmo que pareça delírio. Para isso, é claro, devemos não podemos continuar procurando-o onde só há morte.
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