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217. Reflexão para o 10º Domingo do Tempo Comum – Mc 3,20-35 (Ano B)

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05.06.2021 | 14 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
217. Reflexão para o 10º Domingo do Tempo Comum – Mc 3,20-35 (Ano B)
Neste décimo domingo do tempo comum, a liturgia retoma a leitura sequencial do Evangelho de Marcos, interrompida desde o início da Quaresma até a solenidade da Santíssima Trindade, celebrada no domingo passado. O evangelho proposto pela liturgia de hoje é Mc 3,20-35. Esse texto é bastante significativo para a compreensão de todo o ministério e mistério da vida de Jesus, enquanto Messias e responsável por combater às forças do mal, com a sua mensagem e práxis libertadoras. É um texto que retrata mais um momento da sua atuação na Galileia, com as tradicionais reações de adesão e oposição à sua missão libertadora, mostrando que nenhum esquema religioso, social e cultural é capaz de contê-lo ou controlá-lo. O fato de ser o primeiro episódio narrado por Marcos após a constituição do grupo dos Doze (cf. Mc 3,13-19) reforça ainda mais a importância desse texto, como veremos na contextualização, a seguir.

O episódio narrado faz parte ainda do início do ministério de Jesus na Galileia, embora sua fama já tivesse bem espalhada. Após a última controvérsia com os fariseus, quando curou um homem da mão seca, na sinagoga em dia de sábado (cf. Mc 3,1-6), a multidão que o acompanhava em busca de milagres e prodígios, só crescia (cf. Mc 3,7-12). Isso o levou a constituir o grupo dos Doze (cf. Mc 3,13-19), para que sua ação libertadora se expandisse cada vez mais (cf. Mc 3,14-15). À medida em que as multidões sedentas de dignidade, de justiça e de amor, cansadas de tanta opressão, aumentavam ao redor de Jesus, também aumentava a oposição daqueles que não aceitavam o seu comportamento fora dos padrões estabelecidos pela sociedade e a religião. É isso que o Evangelho de hoje mostra: Jesus rodeado por uma multidão na casa e, ao mesmo tempo, sendo contestado e mal compreendido pelos familiares e pelas autoridades religiosas.

A constituição do grupo dos Doze aconteceu na montanha (cf. Mc 3,13), lugar especial para a oração e o encontro com Deus, conforme a mentalidade judaica. Logo após esse acontecimento, diz o evangelista que “Jesus voltou para casa com os seus discípulos. E de novo se reuniu tanta gente que eles nem sequer podiam comer” (v. 20). Já no primeiro versículo, o texto é carregado de significado. Da montanha, o lugar privilegiado da oração e contemplação, Jesus passa direto para a casa, o lugar do encontro e do contato próximo com as pessoas. A casa (em grego: οἶκος – oikos) tem um valor muito significativo para o Evangelho de Marcos: é a alternativa proposta por Jesus para a realização do seu projeto em sua primeira dimensão espacial, como oposição à sinagoga e a qualquer instituição. A casa é o espaço eclesial por excelência, pois é o espaço da fraternidade, da partilha. É na casa onde Jesus fala abertamente com seus discípulos e vice-versa. A Igreja primitiva adotou a casa como o lugar da liturgia, da catequese e do encontro. Se é na casa onde acontece a vida, deve ser na casa o culto ao Deus da vida; um culto não ritual, mas serviçal.

Aqui, não se trata da casa de Nazaré, mas da casa adotada por ele em Cafarnaum, provavelmente a casa dos irmãos André e Pedro. A multidão reunida ao seu redor demonstra a aceitação de sua proposta pelas camadas mais populares da sociedade. Com tanta gente ao redor, Jesus e seus discípulos “nem sequer podiam comer”, porque a prioridade era o serviço; com essa expressão o evangelista ressalta o aparente sucesso e, ao mesmo tempo, a dimensão do serviço na vida da comunidade. O discípulo deve pensar mais no outro do que em si próprio; nada de egoísmo na comunidade de Jesus. Com esse dado, o evangelista quer mostrar que a atenção primeira na comunidade deve ser dada às necessidades do próximo. Ora, Jesus e os discípulos “nem sequer podiam comer” porque estavam dando atenção às pessoas que lhes tinham procurado.

Como já acenamos, a acolhida à mensagem de Jesus não era igual entre todos os grupos ou classes sociais. Ao contrário da multidão que o buscava constantemente, havia quem o contestasse e procurasse desqualificar a sua atuação libertadora, seja por incompreensão ou mesmo por maldade e medo de perder privilégios. Entres os que não o compreendiam, estavam os seus familiares: “Quando souberam disso, os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo, porque diziam que estava fora de si” (v. 21). Ora, Jesus já tinha deixado a família em Nazaré há algum tempo, e adotado a cidade de Cafarnaum como ponto de apoio para seu ministério itinerante. Porém, como sua fama se espalhava com facilidade, também chegaram notícias suas em Nazaré e, por sinal, não muito boas. Envergonhados pelo seu comportamento subversivo, seus familiares chegaram à conclusão de que ele só podia estar “fora de si”; na verdade, a expressão mais adequada, conforme a língua original do texto é “tinha enlouquecido”.

A maneira como Jesus se relacionava com todos, sobretudo o amor e a acolhida para com as pessoas desprezadas da sociedade, dava a impressão de que ele estava louco, para quem estava apegado à mentalidade conservadora da época, imposta pela sociedade e a religião. Na verdade, louco e subversivo, era isso que Jesus parecia, conforme os padrões de comportamento da época. Diante disso, seus familiares tomaram a decisão de procurá-lo para prendê-lo, levá-lo para casa e, assim, evitar que ele continuasse a envergonhar o nome da família com um comportamento fora dos padrões estabelecidos. O verbo que o texto litúrgico traduz por agarrar significa mais precisamente “prender à força” ou “capturar” (em grego: κρατέω – kratêo), de acordo com a língua original do texto. Jesus estava se comportando tão fora do normal, que seus familiares saíram de Nazaré para Cafarnaum dispostos a levá-lo à força. A proximidade de Jesus com a escória da sociedade – prostitutas, enfermos, pecadores, etc – rendiam-lhe o rótulo de louco, e isso causava vergonha nos seus familiares, incluindo a mãe.

Com rapidez, a fama de Jesus chegou também em Jerusalém, centro do poder religioso e político, onde estavam as autoridades constituídas para manter a ordem e o controle social e ideológico. Se na pequena Nazaré Jesus era considerado louco, na capital era visto como “endemoniado”, provocando a ida de uma comitiva oficial a Cafarnaum, para tentar impedir que ele continuasse o seu ministério. Assim atesta o evangelista: “Os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém, diziam que ele estava possuído por Beelzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele expulsava os demônios” (v. 22). Os mestres da Lei ou escribas constituíam a elite intelectual da época; eram refinados teólogos, intérpretes oficiais da Lei e de toda a Escritura. Para a religião oficial da época, eram eles quem decidiam se uma doutrina era válida ou não, ou seja, se vinha de Deus ou de satanás. E a acusação que fazem a Jesus é bastante grave, considerando o teor e contexto. Enquanto Jesus anuncia a chegada do Reino de Deus, compreendido como um projeto de sociedade marcado pela igualdade, justiça e amor, seus adversários tentam desqualificá-lo, acusando-o de agir em nome do demônio; Beelzebu, cujo nome significa “senhor das moscas” ou “senhor do esterco”, era uma divindade filisteia, considerado portador de doenças em Israel. Era a expressão máxima do mal para os judeus mais devotos. Associar Jesus a essa divindade era desqualificar sua atividade ao extremo.

Além de perversa e hipócrita, a acusação dos mestres da Lei era também contraditória, por isso foram desmascarados instantaneamente: “Então Jesus os chamou e falou-lhes em parábolas: ‘Como é que Satanás pode expulsar Satanás?” (v. 23). Ora, se toda a atividade de Jesus, desde o início do seu ministério, consistia no anúncio do Reino de Deus e, consequentemente, na eliminação do mal, a acusação dos mestres da Lei não tinha o mínimo fundamento. “Satanás” é a expressão do antagonista de Deus, conforme a mentalidade bíblica e, por isso, era o opositor de Jesus, aquele que precisava ser derrotado. Para deixar ainda mais claro o quanto os mestres da Lei estavam mal-intencionados, Jesus aprofunda a contradição deles com duas mini parábolas: tanto um reino quanto uma casa não podem sobreviver com divisões internas; as divisões são sempre causas de ruína e destruição (v. 24-27). A argumentação de Jesus é lógica e sensata. Com isso, ele afirma de maneira incontestável que sua missão é combater o mal, como já tinha demonstrado nas ações ou milagres até então realizados, incluindo o perdão dos pecados. Portanto, não tinha fundamento a afirmação dos mestres da Lei. Jesus combate Satanás e todo o mal presente no mundo, não com rituais e fórmulas doutrinárias, como os mestres da Lei e sacerdotes da época, mas fazendo o bem: curando, amando e perdoando.

Jesus encerra a discussão com os mestres da Lei, com uma declaração solene bastante impactante: “Em verdade vos digo: tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, como qualquer blasfêmia que tiverem dito. Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca será perdoado, mas culpado de um pecado eterno” (v. 28-29). A introdução solene “em verdade vos digo” (em grego: Ἀμὴν λέγω ὑμῖν – Amén lêgo hymin) significa que aquilo que está para ser anunciado é de fundamental importância para o auditório, como é o que ele declara aqui: o pecado contra o Espírito Santo é imperdoável. Mas, qual é mesmo o pecado contra o Espírito Santo? Ora, é exatamente aquilo que os mestres da lei estavam fazendo: de maneira lúcida e voluntária, eles negavam a ação de Deus e do seu Espírito em Jesus. É inadmissível que não se reconheça que tudo o que Jesus fazia e faz é trazer Deus para a vida das pessoas, tornando-o acessível. Na verdade, era essa acessibilidade a Deus, livre e gratuita, oferecida por Jesus, o que irritava os mestres da Lei e as demais autoridades religiosas do seu tempo, pois isso significava para elas perda de poder e privilégios.

Conhecendo o Deus amoroso revelado por Jesus, as pessoas deixavam de aceitar e de submeter-se ao Deus juiz, vingativo e mercantilista do templo. A pregação de Jesus era uma ameaça à sobrevivência daquela religião e de qualquer instituição que negasse a liberdade das pessoas, incluindo a família. Por isso, as autoridades faziam de tudo para impedir Jesus de continuar o seu ministério. E para Jesus, a tentativa de bloquear a ação de Deus na história, revelada por ele com sua mensagem e práxis, é a verdadeira blasfêmia, é o grande pecado. O pecado contra o Espírito Santo é, portanto, a pretensão de todo sistema religioso de determinar ou negar o agir de Deus na história. O que as lideranças religiosas da época, representadas no texto pelos mestres da Lei, consideravam blasfêmia de Jesus era a sua maneira de curar, amar, perdoar e acolher as pessoas marginalizadas. Ora, a acolhida de Jesus a essas pessoas desmentia o que era ensinado pela religião, por isso, ele era detestado pelos mestres da Lei, sacerdotes e fariseus.

Após desmascarar as autoridades religiosas, representadas no texto pelos mestres da lei, o evangelista volta a atenção para o conflito de Jesus com os seus familiares que pretendiam prendê-lo: “Nisto chegaram sua mãe e seus irmãos. Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo. Havia uma multidão sentada ao redor dele. Então lhe disseram: ‘Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura’” (vv. 31-32). Jesus estava na casa e circundado por uma multidão que, certamente, o escutava atentamente. De propósito, o evangelista enfatiza duas posturas opostas diante de Jesus: ficar do lado de fora e apenas ouvir o que se diz a seu respeito, ou entrar na casa e sentar-se ao seu redor, experimentando pessoalmente o amor e a plenitude de vida que ele transmite. Quem fica do lado de fora, sabe pouco sobre ele; e o pouco que sabe, o sabe de superficialmente. Quem senta ao seu redor, pelo contrário, não apenas o escuta, mas olha nos seus olhos, sente a sua presença, como deve ser a postura da comunidade dos seus discípulos e discípulas. À medida em que ficam do lado de fora, seus familiares de sangue não estão sendo sua família, não tem sequer coragem de dirigir-se diretamente a ele, mandam um recado. Esse é o retrato da relação superficial.

É claro que o evangelista não pretende mostrar nem criar oposição ou rivalidade entre os familiares de Jesus e a comunidade dos discípulos; ele quer apenas ajudar a sua comunidade a compreender que, aceitar a proposta de vida de Jesus implica assumir uma maneira diferente de viver, com novos critérios de pertença e relação. É isso que fica claro com a resposta de Jesus: “Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?’ E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: ‘Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (v. 33-35). Com essa afirmação, ao invés de menosprezar os seus familiares de sangue, Jesus está dando a oportunidade de também eles entrarem na dinâmica do Reino de Deus e, ao mesmo tempo, mostrando que qualquer pessoa, independentemente da origem, pode fazer parte da sua família. É muito provável que essa afirmação seja uma advertência do evangelista à comunidade pós-pascal de Jerusalém, dirigida por Tiago, parente muito próximo de Jesus. Conforme dados de Atos dos Apóstolos e da Carta aos Gálatas, esse personagem pretendia monopolizar as decisões da comunidade. A reivindicação do parentesco com Jesus poderia favorecer a imposição de ideias e costumes sobre a comunidade.

Independentemente do provável pano de fundo histórico, o importante é que a afirmação atribuída a Jesus propõe uma ressignificação de conceitos e de valores. Ora, juntando o que ele diz sobre a família ao desmascaramento do poder religioso, no embate anterior com os mestres da Lei, ele desestabiliza as principais instituições da sociedade israelita: a família e a religião. É claro que Jesus não faz oposição à família em si, até porque o seu projeto de sociedade baseia-se na fraternidade, na irmandade, o que pressupõe o cultivo de relações familiares. A própria casa, como instância espacial primeira da comunidade, evoca a necessidade de relações familiares. O que ele propõe são novos critérios de pertença. A vivência do amor fraterno não pode ser limitada à consanguinidade, e o que importa na sua comunidade é a vivência do amor fraterno e materno; por isso, Jesus não cita a figura do pai no modelo de família que deve ser a comunidade cristã. Ora, na sociedade patriarcal o pai é sinônimo de concentração de poder e domínio absoluto; tudo na família depende das suas decisões. Por isso, o pai não figura no modelo de família que Jesus propõe enquanto comunidade. É claro que tem espaço para os pais de família na comunidade de Jesus, mas não com as funções que a sociedade patriarcal lhes atribui. O que não tem espaço na comunidade é a concentração de poderes absolutos por uma única pessoa, como o pai na família patriarcal.

Irmãos e irmãs significam a disposição de viver intensamente a fraternidade, mãe significa a capacidade de amar gerar Cristo para o outro. Todo mundo que vive o amor fraterno e, com o jeito de viver, gera Cristo para o próximo, esse é irmão, irmã e mãe de Jesus. É isso o que ele ensina com a conclusão do evangelho de hoje, e é essa a missão de todo cristã e cristã. Para isso, é necessário sentar ao seu redor e ouvi-lo. A adesão ao Reino exige uma conversão completa, ou seja, mudança de mentalidade, inclusive na concepção de família. O seguimento a Jesus não comporta meios termos. Seu projeto de vida exige tomada de decisão. As notícias a seu respeito se espalhavam de Jerusalém a Nazaré, o que gerava muitas incompreensões. Diante de isso, era e continua sendo indispensável “entrar na casa” e sentar-se ao seu redor para escutá-lo; sem essa experiência, qualquer juízo sobre a sua pessoa será distorcido ou parcial.
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