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212. Reflexão para o 5º Domingo da Páscoa – Jo 15,1-8

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01.05.2021 | 12 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
212. Reflexão para o 5º Domingo da Páscoa – Jo 15,1-8
Todos os anos, a liturgia do quinto e do sexto domingo do tempo pascal utiliza textos do chamado “testamento de Jesus” do Quarto Evangelho (Jo 13–17). Esses capítulos, que correspondem à última ceia, contém o ensinamento mais precioso de Jesus no contexto narrativo do Evangelho de João. Trata-se de um conjunto de diversos discursos que o evangelista reuniu como se fosse apenas um discurso, apresentado como síntese de tudo o que Jesus fez e ensinou durante a sua vida. Por isso, o conjunto começa com o gesto do lava-pés (Jo 13,1-12), expressão máxima do agir serviçal de Jesus, e é concluído com a oração sacerdotal (Jo 17,1-26), na qual Jesus expressa sua intimidade com o Pai, marcada pela confiança e entrega, e seu cuidado com a humanidade, suplicando unidade e fraternidade. Do lava-pés à oração de Jesus, portanto, está a síntese de toda a sua vida.

O evangelista fez isso como resposta às necessidades da sua comunidade, que passava por crises, e das comunidades de todos os tempos. Na época da redação do Evangelho de João, últimos anos do primeiro século, em decorrência das perseguições, havia fortes tendências ao desânimo e à falta de entusiasmo na vivência da fé em diversas comunidades. Na verdade, além das perseguições, também o conteúdo da pregação e os fundamentos da fé geravam dúvidas e questionamentos, sobretudo sobre ressurreição de Jesus. O texto lido hoje – Jo 15,1-8 – responde a alguns desses questionamentos. Diante da hostilidade do ambiente, as pessoas sentiam-se cada vez mais necessitadas de unirem-se a Jesus, mas tinham dificuldade de assimilar a maneira de fazer. Também sentiam falta de sinais da sua presença no mundo. A isso, o evangelista responde afirmando que está unido a Jesus quem se deixa conduzir pela sua palavra, o que se verifica pelos frutos produzidos, ou seja, pelo agir no mundo. Por isso, as expressões “dar fruto” e “permanecer em mim” funcionam como refrões no texto de hoje.

Olhemos, então, para o texto, que é marcado pela auto apresentação de Jesus a partir da imagem da videira: “Eu sou a videira verdadeira e meu Pai é o agricultor” (v. 1). Com a afirmação “Eu sou” (em grego:  Ἐγώ εἰμι – egô eimi), Jesus confirma sua identidade divina, como vimos no domingo passado, ao refletir sobre a sua apresentação como Pastor autêntico. Essa é a fórmula clássica de revelação de Deus, como tinha se revelado a Moisés (cf. Ex 3,14). Portanto, a ação libertadora e salvífica de Jesus é a mesma do Deus libertador de sempre. A videira, juntamente com a oliveira e a figueira, está entre as plantas clássicas da tradição bíblica para representar a relação de Deus com o seu povo. A videira leva vantagem em relação às demais, por gerar a matéria prima do vinho, símbolo da alegria, da felicidade e do amor. Tanto os profetas quanto a tradição sapiencial fizeram uso dessa imagem, referindo-se a Israel como destinatário do amor de Deus (cf. Is 5,1-7; Jer 2,21; Ez 15,1-6; 17; 19,10-14; Sl 80), embora no Antigo Testamento prevalecesse mais a figura coletiva da vinha – a plantação de videiras – do que a figura individual da videira, como Jesus aplica a si.

É importante observar que Jesus não se apresenta simplesmente como videira, mas como “a videira verdadeira”. Com isso, o evangelista ensina que pode existir outras videiras que não são verdadeiras e, por isso, a comunidade pode se enganar. É necessário, portanto, que a comunidade de discípulos e discípulas esteja atenta para unir-se somente à verdadeira. É importante também perceber o papel do Pai: ele é o agricultor da videira verdadeira. Ora, o Pai que assume a função de agricultor, é o mesmo que destituiu os maus pastores que tinham apascentado a si mesmos, deixando perecer o rebanho (cf. Ez 34); por isso, o Pai enviou Jesus como pastor autêntico, para substituir os mercenários, a casta sacerdotal de Jerusalém. O mesmo aconteceu com os antigos agricultores que não cuidaram da vinha como deveriam, e o resultado foi a produção de “uvas azedas” (cf. Is 5,1-7). Por isso, o Pai assume pessoalmente a função de cuidar da videira verdadeira, o seu Filho Jesus e, nele, fazer frutificar um novo povo. A imagem da videira era usada também para representar a Lei. Com isso, o evangelista contrapõe Jesus e seus ensinamentos à Lei de Moisés.

O Pai, como agricultor, tem um papel fundamental e inconfundível: “Todo ramo que em mim não dá fruto, ele o corta, e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda” (v. 2). A última palavra é sempre do Pai. Ora, as crises vividas pela comunidade do evangelista e outras comunidades da sua época, gerava dois efeitos principais: o desânimo, com a tendência à dispersão e ao abandono da fé; e o fechamento de mentalidade, com a tendência ao puritanismo e à hierarquização. Esse versículo funciona como resposta a essa segunda tendência, principalmente. Ninguém pode ocupar o lugar do Pai. A comunidade não é espaço de julgamentos nem acusações. É o Pai que, como agricultor único, a seu tempo, corta e limpa os ramos conforme a capacidade e disponibilidade de produzir frutos em cada um. E todos, frutíferos ou não, necessitam da ação do Pai. É um chamado à confiança no Pai: não obstante os desafios e dificuldades, ele está sempre olhando e cuidado de cada um, respeitando, obviamente, a liberdade de cada pessoa que pode aderir ao não ao seu projeto, unindo-se à videira ou separando-se dela.

O ramo que dá fruto recebe cuidados especiais do agricultor para que produza ainda mais. O Pai chega a limpar esse ramo. Trata-se de uma atividade realizada com as próprias mãos, significa o cuidado especial de Deus, o Pai, por quem se abre ao projeto de Jesus. Esse cuidado é o efeito da própria palavra de Jesus: “Vós estais limpos por causa da palavra que eu vos falei” (v. 3). É a mensagem de Jesus, sua palavra, o que torna uma pessoa limpa, pura. A pessoa que escuta Jesus se torna limpa; porém, não se trata de uma pureza ritual ou espiritualista, mas da capacidade de produzir frutos. É para isso que o Pai limpa, através das palavras de Jesus, ou seja, através do conjunto dos ensinamentos de Jesus. No sistema religioso judaico, a pureza era proporcionada pela ritualidade. E muitos na comunidade do evangelista insistiam em querer conciliar o ensinamento de Jesus com o conjunto de ritos judaicos, principalmente os de purificação. Assim, o evangelista ensina que os rituais de purificação são desnecessários na comunidade cristã. O que purifica é a adesão à Palavra, e isso é atestado pelos frutos produzidos, ou seja, pela prática do amor.

A necessidade da permanência em Jesus é vital para os discípulos e a comunidade: “Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim” (v. 4). Aqui aparece o verbo chave de todo o texto: permanecer (em grego: μένω – méno), que poderia ser traduzido também como morar, ficar dentro; entre os versículos 4 e 8, esse verbo aparece sete vezes. Daí, a importância da permanência dos discípulos e discípulas em Jesus, sendo que o próprio Jesus permanece, ou seja, mora em quem mora nele. Quem escuta as palavras de Jesus e produz frutos, quer dizer, quem age conforme os ensinamentos de Jesus torna-se a sua morada no mundo. No final do primeiro século, já não havia mais o templo de Jerusalém, mas os judeus contavam com as construções das sinagogas, espalhadas em todo o território do império romano. Nas sinagogas estavam guardadas cópias da Lei e, por isso, eram consideradas moradas de Deus. Em algumas comunidades cristãs, questionava-se o porquê de não terem templos, casas específicas para a morada de Deus. O evangelista responde que a morada do Ressuscitado no mundo é toda pessoa que produz frutos, ou seja, quem age conforme o ensinamento de Jesus. E o exemplo do ramo ligado à planta – a videira – ilustra bem essa relação. Só produz frutos de amor e justiça quem permanece atento ao que Jesus ensinou. Os frutos que ele espera de seus discípulos e discípulos são basicamente estes: amor e justiça, compreendendo tudo o que deles deriva. É isso o que suas palavras ensinam, considerando o conjunto da sua mensagem.

Eis que chegamos ao centro do texto: “Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim, e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (v. 5). Jesus tinha se apresentado como a videira verdadeira logo no primeiro versículo (v. 1), tinha falado dos ramos referindo-se aos discípulos (vv. 2.4), mas não de modo tão claro como agora. Novamente, destaca que a produção dos frutos – amor e justiça – dependem essencialmente desta relação recíproca: os discípulos morando nele, e ele morando nos discípulos. Destacado da planta, nenhum ramo pode frutificar. Se a característica dos discípulos e discípulas é produzir frutos, isso só se faz estando unidos à videira que é Jesus. E para que os frutos sejam bons é necessário que a planta à qual devem estar unidos seja verdadeira. Por isso, é a Jesus que devem estar unidos, pois é ele é a videira verdadeira. É por isso que, sem ele, a comunidade nada pode. São os frutos, portanto, que atestam se uma comunidade está unida ou não a Jesus.

O sentido da vida depende da permanência em Jesus. Separar-se dele, como um ramo se separa da planta, equivale à destruição da própria existência, significa perder o sentido da vida. Por isso, ele declara: “Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados” (v. 6). Não temos aqui a ameaça de um castigo, mas a imagem de uma vida sem sentido, até porque o Evangelho de João não contém trechos apocalípticos, como nos sinóticos (Mt, Mc e Lc). Por sinal, essa é a única passagem em que aparece a palavra fogo (em grego: πῦρ – pyr) no Quarto Evangelho, o qual não contém mensagem ameaçadora em nenhum trecho. O fogo aqui é imagem de uma existência inútil e sem sentido. A falta de amor e justiça faz perecer a existência de qualquer pessoa. Quem ama, consciente ou não, está unido a Cristo; da mesma forma, quem não ama está separado, mesmo que tenha vínculos religiosos e participe de ritos e sacramentos.

A permanência do discípulo em Jesus, semelhante à do ramo à videira, garante a sintonia entre ambos, a ponto de a vontade de um ser confirmada pelo outro: “Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. Não se trata de uma confiança ilusória ou quase mágica no poder da oração, mas de uma afinidade de sentimentos e de percepção das coisas. O discípulo e discípula que ama, vive com Jesus uma relação de tamanha transparência, semelhante àquela entre Jesus e o Pai: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). O que garante essa relação é a atenção às palavras de Jesus, que consistem no conjunto da sua mensagem, transmitida por ele mesmo aos discípulos e discípulas de primeira hora, e às futuras gerações pelo(s) evangelista(a). São palavras para serem, acima de tudo, vividas, praticadas no dia a dia. A escuta da oração, por Jesus e pelo Pai, passa pela sintonia entre a prece da comunidade e o ensinamento de Jesus. Quem vive conforme as palavras de Jesus, já faz da própria vida uma contínua oração; por isso, sabe também o que pedir e só pedirá o que estiver de acordo com a sua vontade.

Na conclusão, Jesus recorda que Deus, o seu Pai e nosso, não se sente glorificado pela ritualidade cultual, mas simplesmente pelos frutos de amor e justiça que os seus discípulos e discípulas produzem: “Nisto meu Pai é glorificado: que deis fruto e vos tornais meus discípulos” (v. 8). Como já tinham recordados os antigos profetas clássicos de Israel (cf. Os 6,6), a verdadeira celebração da glória de Deus não se dá por meio de solenidades e ritos, mas pela vida conforme a justiça e o amor. E é importante perceber que não se torna discípulo para dar frutos, mas é dando frutos que se torna discípulo. Aqui o evangelista recorda à sua comunidade e às comunidades de todos os tempos que o discipulado é algo dinâmico, não é um status; ninguém nasce discípulo, mas se torna discípulo à medida em que vai conduzindo a sua existência pelo amor e a justiça, ou seja, produzindo frutos conforme a vida de Jesus. E quanto mais pessoas se tornam discípulos ou discípulas, o amor de Jesus se espalha pelo mundo e, nisso, o Pai é glorificado.