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181. Reflexão para o 28º Domingo do Tempo Comum – Mt 22,1-14 (Ano A)

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10.10.2020 | 11 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
181. Reflexão para o 28º Domingo do Tempo Comum – Mt 22,1-14 (Ano A)
Com o evangelho deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum – Mt 22,1-14 – conclui-se a leitura da série de três parábolas consecutivas, contadas por Jesus em seu primeiro confronto direto com as lideranças religiosas e políticas de Jerusalém. O contexto, portanto, é o mesmo dos dois últimos domingos. Jesus se encontra em Jerusalém, vivendo a última etapa de seu ministério, e enquanto estava ensinando no templo, foi questionado pelos sacerdotes e anciãos a respeito da sua autoridade para ensinar (Mt 21,23-23). Como resposta, Jesus contou três parábolas sobre o Reino de Deus (ou dos Céus, como prefere Mateus), sendo a de hoje a terceira. Como a contextualização já foi bastante enfatizada nos dois últimos domingos, não é necessário repeti-la minuciosamente hoje.\r\n\r\nA parábola lida hoje se destaca sobre as outras duas da série, lidas na liturgia dos dois últimos domingos: a de “um pai que tinha dois filhos e uma vinha” (Mt 21,28-32) e a dos “vinhateiros homicidas” (Mt 21,33-43). Na de hoje, o Reino dos Céus é comparado a um banquete, mais precisamente a uma festa de casamento do filho de um rei. Enquanto a imagem da vinha, predominante nas duas primeiras, possuía um significado mais restrito, impactante apenas para a cultura semita, a imagem de um banquete possui um significado bem mais universalista, podendo ser compreendida com mais facilidade também em outras culturas. Convém recordar, ainda, que essa parábola encontra-se também no Evangelho de Lucas, embora localizada num contexto diferente e com algumas modificações internas (Lc 14,15-24).\r\n\r\nO primeiro versículo nos insere diretamente no contexto, e nos faz perceber que essa parábola é a continuidade de um discurso já iniciado, embora a tradução do texto litúrgico não expresse bem isso, ao afirmar que “Jesus voltou a falar em parábolas” (v. 1). Essa expressão dá a entender que houve uma interrupção no discurso. Conforme o contexto narrativo do Evangelho e a língua original do texto, o grego, a tradução mais adequados para essa expressão introdutória seria “Jesus continuou falando em parábolas”. O auditório é o mesmo das duas parábolas anteriores: os sumos sacerdotes e anciãos do povo, ou seja, a elite religiosa de Jerusalém, e não houve interrupção entre a parábola anterior e a de hoje que conclui a sequência. A propósito do auditório, deve-se recordar sempre que independente de quem sejam os interlocutores diretos de Jesus na narrativa, neste caso os sacerdotes e anciãos, os destinatários primeiros do ensinamento são sempre os discípulos e discípulas de todos os tempos.\r\n\r\nEis a parábola: “O Reino dos Céus é como a história do rei que preparou a festa de casamento do seu filho” (v. 2). Apesar de impactante, essa imagem não chega a ser novidade na linguagem bíblica. Os profetas já tinham anunciado a consumação dos tempos messiânicos com a imagem do banquete (Is 25,6-10). É uma imagem que evoca amor, alegria, fraternidade. Aqui, Jesus dispensa a linguagem litúrgico-religiosa. Não faz menção a sacrifício, nem a culto, nem a peregrinações, nem a um templo, mas a uma festa comum a todos os povos e culturas. E a festa por excelência na antiguidade, era a festa de casamento, sobretudo no mundo oriental. Era uma festa que durava em média sete dias, podendo ser ainda prolongada, a depender das condições econômicas dos noivos. No caso da parábola, sendo o casamento do filho de um rei, a duração seria bem maior. Dessa imagem usada por Jesus, evocamos, de imediato, duas das mais importantes características do Reino: a alegria, o amor e a perenidade.\r\n\r\nA festa em si, é sinônimo de alegria e fartura, ainda mais preparada por um rei. É certa a abundância de comida e bebida, música e muita alegria entre os convivas. O fato de ser uma festa de casamento, lembra o amor, elemento indispensável para a vida da comunidade. Sendo uma festa com duração de sete dias ou mais, lembra a perenidade: um tempo completo e perfeito, que transmite uma ideia de eternidade. Por isso, a festa de casamento (em grego: γάμος – gamos) era a mais bela de todas as festas, inclusive sonhada por tanta gente. As pessoas, na antiguidade, aguardavam com ansiedade um convite para uma festa assim. Era o momento de exagerar na alegria, inclusive na bebida (Jo 2,1-12), como atesta a própria Bíblia. É surpreendente que seja com esse tipo de festa que Jesus comparou o Reino, ao invés de uma reunião litúrgica ou vigília.\r\n\r\nAlém de um ensinamento para o presente, com essa parábola Jesus dá uma verdadeira aula sobre a história da salvação aos seus interlocutores. Diz ele que o rei “mandou os seus empregados para chamar os convidados para a festa, mas estes não quiseram vir” (v. 3). Aqui, Jesus recorda aos seus interlocutores que foi Israel o destinatário predileto de Deus, a quem foram enviados os profetas, os quais não foram ouvidos. A recusa ao convite de um rei equivale a uma rebelião. Nesse caso, Jesus enfatiza a rebelião de Israel aos apelos de seu Deus. Um povo fechado, de coração duro, que não escuta o seu Senhor. Como Deus não desiste do seu povo, e nem da humanidade, eis que o convite continuou sendo feito até que, aborrecidos pela insistência do rei, os primeiros convidados passaram da indiferença à violência, chegando a matar os emissários do rei (vv. 4-5). Com a insistência do convite e a recusa dos destinatários, Jesus apresenta uma síntese de toda a história da salvação, denunciando Israel e advertindo os seus seguidores de outrora e de sempre.\r\n\r\nO versículo sétimo é, certamente, um acréscimo posterior da comunidade de Mateus, uma vez que ele não consta na versão desta parábola no Evangelho de Lucas (Lc 14,15-24). Na época da redação do Evangelho de Mateus, Jerusalém já tinha sido destruída pelas tropas romanas e, no auge do conflito da comunidade de Mateus com a sinagoga, a destruição da cidade e do templo servia como resposta e explicação para a rejeição dos judeus à mensagem cristã. A própria lógica temporal interna da parábola não comporta tal atitude da parte do rei: se todo o reino estava concentrado e voltado para a festa, e a comida já estava à mesa, não teria sentido algum parar tudo de repente para guerrear e depois recomeçar a festa.\r\n\r\nA parábola continua a sua sequência natural no versículo oitavo: “Em seguida, o rei disse aos empregados: a festa de casamento está pronta, mas os convidados não foram dignos dela” (v. 8) A conclusão do rei é uma acusação ao fechamento dos primeiros convidados – Israel – à não aceitação do convite, ou seja, à conversão. De fato, é notório que, ao longo da história, o quanto a mensagem profética foi rechaçada em Israel, sobretudo pelas autoridades religiosas. A falta de dignidade dos convidados fora comprovada pela indiferença e violência com que trataram os enviados do rei. Porém, a rejeição dos primeiros convidados não muda os propósitos salvíficos de Deus para com a humanidade inteira, ou seja, não levam o rei a desistir da festa.\r\n\r\nA nova determinação do rei corresponde à insistência de Deus e à continuidade de sua oferta de vida para toda a humanidade: “Portanto, ide até às encruzilhadas dos caminhos e convidai para a festa todos os que encontrardes” (v. 9). Podemos considerar esse o versículo central de toda a parábola. Aqui está o embrião de uma Igreja-comunidade em saída! A expressão “encruzilhadas” significa o encontro com as periferias. A expressão usada na língua original do texto significa a literalmente a saída da cidade (em grego: διεξόδος – diecsódos). Era lá onde ficavam todas as pessoas de atividades “vergonhosas”, ou seja, o que era considerado escória da sociedade, como prostitutas, mendigos, assaltantes e doentes considerados impuros. Quem não tinha acesso aos bens que a cidade oferecia, incluindo os serviços religiosos. Esse versículo é um convite claro para que os seguidores e seguidoras de Jesus se voltem para as margens, para as periferias. Aqui, de modo definitivo, é apresentada a nova dinâmica do Reino, destacando seu aspecto inclusivo: todos os que forem encontrados devem ser convidados! Acabou o tempo das distinções, dos rótulos, das separações.\r\n\r\nFinalmente, o convite tornou-se efetivo: quando foi endereçado a todos, sem distinção: a maus e bons. O resultado foi a sala cheia de convidados (v. 10). Enquanto os enviados dirigiam-se a uma elite privilegiada e indiferente, a sala permaneceu vazia. Somente quando saíram para as margens o convite encontrou adesão. Aqui está um alerta da comunidade de Mateus para as comunidades de todos os tempos. O convite, ou seja, o anúncio, deve ser feito a todos e todas, sem distinção alguma. Maus e bons são convidados para o Reino. Porém, aceitar o convite-anúncio comporta exigências e compromissos da parte do convidado.\r\n\r\nNinguém é excluído do Reino, mas alguém pode se auto excluir, ao não fazer comunhão com os demais. É esse o sentido do convidado que não portou o “traje de festa” (v. 11). Caso se tratasse de uma veste real, nenhum dos convidados estaria apto, afinal, todos foram pegos de surpresa com o convite feito de última hora. Através da percepção do rei, o evangelista, chama a atenção da sua comunidade, fazendo uma advertência que serve para as comunidades de todos os tempos: não basta estar na sala, participar de reuniões e atos litúrgicos, receber sacramentos, sem disposição para a vida comunitária. O traje de festa é, aqui, o sinal de unidade entre os convivas do banquete e, portanto, dos membros da comunidade cristã: a prática das bem-aventuranças, o conteúdo programático do discipulado no Evangelho de Mateus. Todas as pessoas são convidadas e podem entrar na sala de festa, mas só permanece quem se abre ao espírito das bem-aventuranças. É o “revestir-se” de Cristo, expressão que foi inserida nas fórmulas de batismo desde as primeiras comunidades cristãs (Rm 13,14; Gl 3,27).\r\n\r\nA reação do rei ao convidado sem o traje de festa parece violenta (vv. 12-13), mas apenas reflete o uso do gênero literário apocalíptico, tão empregado na época entre os rabinos e utilizado também pelos pregadores cristãos. Não significa castigo, mas a auto exclusão do próprio convidado. A ausência do traje de festa é a falta de disposição para “revestir-se” de Cristo, ou seja, é o fechamento ao espírito das bem-aventuranças (Mt 5,1-12). As bem-aventuranças são o caminho da felicidade e da realização plena; quem não as vive, priva-se de viver plenamente feliz e realizado, e é isso o que a imagem tão forte indica: perder o sentido da vida. Ter os pés e as mãos amarrados, chorar e ranger os dentes (v. 13), é a imagem do desespero último do ser humano. Só é desesperado quem não aceita participar do banquete da vida. Não se trata de uma descrição, mas de uma comparação, como é toda a parábola. Não aceitar participar do banquete com alegria, amor e justiça é privar-se da vida em plenitude.\r\n\r\nO evangelista ensina, com tudo isso, que o simples fato de alguém participar de uma comunidade ou igreja não é sinal de nenhuma garantia de vida. Só vive plenamente quem aceita fazer comunhão e pratica o programa de vida de Jesus. A parábola é concluída com uma nota proverbial explicativa: “Porque muitos são os chamados, e poucos são os escolhidos” (v. 14). Mesmo dentro da comunidade, lugar do início da concretização do Reino, há sérios riscos de alguém ficar privado de vida plena. O evangelista enfatiza exatamente isso: não basta ter sido convidado ou convidada, afinal, todos são, indistintamente: bons e maus. O importante é, ao sentir o chamado, conduzir a vida segundo o programa de vida daquele que chama.\r\n\r\nPortanto, que ninguém se sinta seguro por estar na Igreja. Todos são chamados, mas só participa plenamente da festa, ou seja, do Reino, quem porta o traje das bem-aventuranças, sinal único e distintivo dos cristãos e cristãs. O certo mesmo é que Deus quer a sala cheia; para as igrejas e comunidades eclesiais precisam ir às encruzilhadas e fazer o convite com amor, alegria diálogo e espírito de acolhimento.