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91. Sobre dízimos e hóstias, em tempo de igrejas fechadas

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08.04.2021 | 9 minutos de leitura
Frei João F. Júnior - OFMCap
Diversos
91. Sobre dízimos e hóstias, em tempo de igrejas fechadas
Hoje, um post me deixou intrigado. Não propriamente porque me surpreendeu, mas sobretudo porque escancarou uma realidade que há alguns dias eu vinha procurando palavras para descrever. O post dizia: “Campanha católica: sem sacramento, sem dízimo. [...] Enquanto não doer no bolso, não ouvirão o grito do povo [...]”. E não é só da relação mercadológica que estou falando – embora ela seja a primeira estranheza que transpareça. Uma lógica que, em si, não deveria ter nada a ver com sacramento e nem mesmo com dízimo. A menos que estejamos na lógica de “fazer da casa do Pai uma casa de comércio” (Jo 2,16) ou da relação com Ela uma relação comercial (com trocas diversas, em moedas diversas...), uma lógica que Jesus já ensinou a superar. A questão me parece mais curiosa do que esse simplista [e grave] equívoco, pois aponta para uma confusão religiosa e outra política.
Do ponto de vista religioso, não se está discutindo – neste ou em qualquer outro momento desta pandemia – se a atividade religiosa é ou não é essencial. Até porque a definição de “serviço essencial” [propositadamente] inexiste na legislação, deixando a cada estado da federação ou a cada município essa arbitrária classificação. Para quem vive do trabalho, todo trabalho será essencial. E para quem vive da esperança, toda esperança será essencial. Para quem tem fé, a fé será sempre essencial. Mas não é disso que se trata. Assim como quando discuto com uma pessoa que insiste em participar da missa sem máscara, não estou discutindo se existe ou não existe lugar ‘na Igreja’ para ela, mas estou insistindo que ela não pode permanecer ‘no prédio da igreja’ sem a máscara. Compreende a diferença? A Igreja terá sempre lugar para todos os que se dispuserem à fraternidade; mas permanecer em suas dependências sem a máscara, neste momento, não é possível – inclusive por zelo pela fraternidade. Mas também por obediência às recomendações sanitárias, para quem a lei for mais clara e mais importante do que a fraternidade.
Ainda do ponto de vista religioso, a sabotagem parece um golpe bastante baixo no senso de pertença à comunidade. Primeiro, porque não é verdade que os sacramentos estão todos suspensos. Em sua quase totalidade, as igrejas permanecem abertas para visitação, para oração, para atendimento pessoal, para confissão, para administração do viático, para exéquias... Reduzir a pertença eclesial – e por isso mesmo eucarística – à participação da eucaristia neste momento crucial, a ponto de dizer que estamos “sem sacramento” é uma redução que revela uma iniciação muito frágil à vida eclesial. Não que a participação da eucaristia seja pouco – não mesmo! Mas escolhê-la (hairesis – heresia) como única e absoluta forma de eclesialidade é, certamente, uma redução crassa e empobrecedora do “sensus eclesiae”. É compreensível que muitos tenhamos perdido a capacidade de colaborar com o sustento das comunidades e mesmo dos serviços de solidariedade, ao longo da pandemia. E isso também – dividir a carência e a falta – faz parte de sermos Igreja. Mas sabotar a comunidade economicamente significa não forçar o retorno dos cultos públicos, mas obrigar ao fechamento dos serviços que hoje ainda funcionam: o telefone e alguém para atendê-lo nunca foi tão necessário; a limpeza permanente do templo nunca foi tão importante; a manutenção dos serviços administrativos de acolhida, de atendimento e de solidariedade nunca foram tão essenciais.
Do ponto de vista ainda religioso, note-se que o problema não é propriamente que “falte eucaristia”. O problema é que falta “a minha eucaristia”. E pensemos até onde esse “minha” ainda é capaz de conservar o sentido radicalmente eclesial de “eucaristia”. Afinal, falta a celebração da eucaristia em inúmeras comunidades, durante todo o ano, seja nas grandes cidades, seja nas imensidões da zona rural, seja nas cercanias impensáveis da missão. O modelo único de ministério que se hegemonizou na Igreja latina impede que milhares de fiéis tenham acesso à eucaristia, cotidianamente. E, ao que parece, essa realidade não perturba muito a esses que, agora, exigem – à troca de dinheiro – a celebração da “sua” eucaristia. Se realmente acreditássemos que a eucaristia é tão essencialmente identitária no nosso ser Igreja (e ela é!), certamente não negociaríamos sua falta – não provisória, não excepcional, mas permanente e sistemática – em milhares de comunidades cristãs. Aliás, cristãs o suficiente para permanecerem fielmente eucarísticas mesmo quando faltam padre e hóstia.
Por fim, uma compreensão política desse fenômeno não parece demasiado complicada. Somos testemunhas, desde março de 2020, de uma política deliberada de proliferação e de infestação da COVID-19. O governo brasileiro acreditou (ainda acredita?) na real possibilidade de imunizar a população pelo contágio da doença e não pela vacina. E afirmou isso várias vezes, de várias formas; seja implicitamente, encorajando as pessoas àquelas posturas que sabidamente espalham o vírus, seja explicitamente (para os menos dados à abstração) ao afirmar que “todos vão pegar mesmo”, ou sugerindo “enfiar a máscara no...” fundo de lugares pouco apropriados. Essa opção política deliberada pela “imunidade de rebanho” mostrou-se desastrosa ao custar centenas de milhares de vidas, o esgotamento completo dos sistemas de saúde e o risco global das cepas mais perigosas que a doença já conheceu, nessa sua breve existência. De modo que chamar “genocida” essa política e seus executores não é um exagero.
Mas, nos altos e baixos dessa breve e longuíssima travessia, algo deu errado nessa necropolítica: a “cruzada anti-vacina” do governo brasileiro falhou. E, não obstante os investimentos periódicos na desmoralização da ciência, das universidades e das autoridades sanitárias, ou mesmo a insistência na falsa oposição entre defesa da vida e defesa da economia, o povo optou pela vacina. A começar pela elite putrefata e ignorante que tanto defendeu os “tratamentos precoces” (sic!) – para outros, claro, pois para si também preferiu a vacina, tão logo foi possível acessá-la. Aos poucos, compreende-se que as portas, tanto dos comércios quanto das igrejas, estão fechadas porque faltou responsabilidade e vacina na hora certa. E que reabrirão quando responsabilidade e vacina forem prioridade – em detrimento da insanidade da população e da bestialidade de seu governo. A falta de rumo do governo brasileiro, nas últimas semanas – as piores até agora – revela o quanto ele realmente não esperava que essa ideológica “cruzada anti-vacina” falhasse. E redirecionar o rumo dessa bússola tem custado muito – vida, dinheiro e arranjos nos cargos públicos.
Que fazer, então? Uma bela saída, sempre à disposição, é transformar a já entrincheirada discussão sócio-econômica numa discussão religiosa. E, enquanto os catolicíssimos brigam por hóstias na porta dos templos, demonstrando a fragilidade de sua iniciação cristã e de seu senso de cidadania, ignoram-se as grandes questões – as mesmas, desde o início da pandemia. Ignora-se, por exemplo, que a proposta de reabertura das igrejas chegou ao STF pelas mãos da ANAJURE – Associação Nacional de Juristas Evangélicos, cuja pauta e, sobretudo, cujas estratégias merecem ser visitadas com olhos bastante cuidadosos – pois revelam-se no fim bem pouco evangélicas, no sentido de comprometer-se com o Evangelho. Ignora-se que essa discussão é a face nova e pseudamente religiosa (nesse sentido, a cara deste governo) de recolocar a já encardida oposição entre defesa da vida e defesa das “atividades econômicas não essenciais”. Ignora-se que o problema de fundo, para muitas igrejas pouco cristãs e muito mercantis, não é a manutenção das atividades religiosas ou o consolo dos fiéis em meio ao desespero (que aliás elas já fazem há muito tempo pelos meios de comunicação), mas sim a manutenção de seus cofres, inacessíveis quando as portas estão fechadas. Nisso, talvez, o post tenha toda razão. E verificar de que lado (e não só dois) as instituições pretensamente cristãs se colocam neste momento, e sob que argumentos, pode ser um critério bastante assertivo do “sensus fidei” no reconhecimento daquela fidelidade ao Mestre que diz: “nisto (e não em outra coisa), reconhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros como vos amei” (Jo 13,35).
É um tempo difícil, certamente. E ninguém de nós gosta ou deseja ver as igrejas vazias. Pelo contrário, todos que trazem o dom da fé comunitária desejamos o retorno à vida eclesial, o encontro fraterno, a celebração pública dos sacramentos... É evidente que transmissão das missas pela TV ou pela internet somente servem à excepcionalidade deste momento, improvisando a presença que é possível. E ainda mais evidente que o fracasso dessas transmissões revelam o quanto o mistério da presença de Deus é necessariamente maior do que as paredes de qualquer igreja e mais livre do que o limite de qualquer rito. Felizmente. “Ele vai à vossa frente para a Galileia, lá vós o vereis” (Mc 16,7). Não é nisso que cremos? Mas ultrapassam-se as cifras bélicas de quatro mil mortes por dia. E, em face de uma realidade como essa, cada vez mais perto de nós, de nossas famílias, de pessoas amadas, mas também mais perto dos mais vulneráveis social, política ou emocionalmente, nossa reposta de fé poderia – deveria, por fidelidade à eucaristia e a seus apelos – ser maior do que uma querela em torno de hóstias e dízimos. Uma querela que revela muito mais sobre nossa mesquinhez e nossa miopia espiritual (quando não de nossos ideais antipolíticos ou imorais cuidadosamente disfarçados) do que sobre o verdadeiro sentido da eucaristia.