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468, REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mc 1,21-28 (Ano B)

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27.01.2024 | 14 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
468, REFLEXÃO PARA O 4º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mc 1,21-28 (Ano B)
O evangelho deste quarto domingo do tempo comum – Marcos 1,21-28 – está em perfeita continuidade com o do domingo anterior (cf. Mc 1,14-20), tanto em relação à sequência de versículos quanto ao conteúdo. Após ter começado a anunciar a chegada do Reino de Deus e iniciado a composição da comunidade de discípulos, chamando seus quatro primeiros seguidores, eis que Jesus inaugura definitivamente o seu ministério na Galiléia. Até então, o evangelista fizera referências muito genéricas e sintéticas sobre o início do ministério de Jesus (cf. Mc 1,14-15), chegando a descrever com detalhes somente o chamado dos primeiros discípulos (cf. Mc 1,16-20). Sendo assim, a primeira narrativa descritiva da atuação de Jesus, quando ele de fato começa a tornar manifesto o Reino anteriormente anunciado, é o evangelho de hoje. Isso, obviamente, confere um valor ímpar a esse texto, tornando-o paradigmático. Inclusive, contém o seu primeiro milagre no Evangelho de Marcos. Como elementos centrais do texto a serem observados, destacamos: as dimensões de tempo e espaço (Cafarnaum-sinagoga/sábado), ensinamento e cura-exorcismo (palavra/ação), admiração e confronto. Esses elementos são muito representativos para a imagem de Jesus que Marcos pretende construir ao longo do seu Evangelho.

Eis o texto: «Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar» (v. 21). É muito significativo esse primeiro versículo. A cidade de Cafarnaum, cujo nome significa “aldeia da consolação”, se torna o centro das atividades iniciais de Jesus na Galiléia. Apesar de itinerante, Jesus escolhe essa cidade como ponto de apoio para o seu movimento. Embora não fosse grande, Cafarnaum era uma cidade estratégica pela sua localização às margens do mar (lago) da Galiléia; possuía uma economia forte e uma população bastante diversificada. Era mesmo a cidade ideal para a “pesca de homens”, como Jesus definiu simbolicamente a missão dos seus discípulos. A designação dos discípulos como “pescadores de homens” possui um significado muito forte: longe de ser um convite ao proselitismo religioso, é um convite à promoção do ser humano em sua dignidade plena. Significa a missão do discípulo de promover a libertação do ser humano de toda e qualquer situação de perigo, injustiça e morte. Enfim, é a síntese da humanização que o Evangelho deve causar no mundo. Embora a tradução litúrgica faça referência apenas a Jesus entrando na sinagoga, em outras traduções percebe-se que ele estava acompanhado dos primeiros discípulos, os quatro que tinha chamado no episódio anterior, lido no domingo passado. Esse também é um dado importante. Se trata da primeira aparição pública de Jesus com seus discípulos. Desse momento em diante, ele estará sempre acompanhado dos discípulos, cujo grupo crescerá ao longo do Evangelho.

Neste texto, Marcos não faz qualquer referência ao conteúdo do ensinamento de Jesus, mas a descrição da reação do auditório faz supor que fosse um ensinamento ousado, emancipatório, questionador da ordem vigente, como é próprio do Evangelho do Reino. Certamente, um ensinamento que extrapolava ou até contradizia o ensino da religião oficial. E isso será confirmado pela ação posteriormente descrita, ao libertar um homem de um espírito mau e, sobretudo, pela reação do auditório. Por isso, é muito significativo que a primeira ação libertadora de Jesus aconteça na sinagoga e num dia de sábado. A sinagoga era o lugar sagrado do culto, da reunião da comunidade, da catequese; o espaço privilegiado da pregação no judaísmo e, consequentemente, do ensino da preservação das tradições e do cumprimento dos preceitos da Lei. Inclusive, funcionava até como escola, nas pequenas aldeias. O sábado era o dia sagrado por excelência para o povo judeu; dia do repouso e do culto, da escuta atenta da Lei e dos Profetas. Ao longo do seu ministério, Jesus vai ser acusado de transgredir o sábado, ao realizar curas nesse dia. Inclusive, o episódio de hoje é uma exceção, pois não há contestação ao seu agir libertador em dia de sábado. Ora, Jesus não vai ao culto apenas como devoto e fiel observador dos preceitos; ele vai também para questionar e denunciar que a religião também aliena e oprime. Por isso, o primeiro espaço visitado por ele com sua mensagem e ação libertadoras é a sinagoga, porque ele via a alienação religiosa como a mais danosa de todas as alienações. O espaço religioso é, portanto, o mais necessitado de libertação, e Jesus compreendeu bem isso.

A diferença entre a pregação inovadora de Jesus e a pregação tradicional dos mestres da Lei e rabinos da época logo foi percebida pelo povo: «Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei» (v. 22). A afirmação é forte e impactante porque os mestres da Lei ou escribas eram os que ensinavam com mais qualidade e autoridade na época. Constituíam a elite intelectual de Israel. Eram os pregadores e mestres oficiais da religião judaica, autorizados pelos sacerdotes do templo. De repente, percebe-se que o ensinamento (em grego: διδαχῇ – didakê) de um simples carpinteiro nazareno é superior ao deles. Temos aqui um sinal claro de reviravolta na história. Na verdade, essa afirmação declara o ensinamento dos mestres da Lei como ilegítimo, eles tinham usurpado o nome de Deus. A contraposição dos ensinamentos mostra que era falsa a autoridade dos mestres da Lei; eles eram impostores, mercenários, aproveitadores da religião transformada em comércio pelos sacerdotes de Jerusalém. E a autoridade com a qual Jesus ensinava consistia na sua coerência de vida e fidelidade ao Pai. A palavra grega empregada pelo evangelista, traduzida pelo lecionário como autoridade (ἐξουσία – ecsussia) pode ser traduzida também por poder. E o poder de Jesus não consiste em realizar sinais extraordinários, mas em fazer a vontade do Pai. Ao fazê-la, ele humaniza o mundo, por isso, deixa todos admirados. As pessoas, habituadas a ouvir repetições de fórmulas, sermões repressivos e moralistas, logo se admiram com a novidade apresentada por Jesus. Ora, o Reino de Deus, objeto da pregação de Jesus, tinha sido bloqueado pela religião. Os mestres da Lei eram funcionários do sagrado; praticavam autoritarismos, ao invés de autoridade; ensinavam para dominar. Jesus, ao contrário, ensina para libertar e humanizar as pessoas.

À medida em que o anúncio de libertação ecoa, eis que as forças do mal se evidenciam, sentindo-se ameaçadas, pois não aceitam a prática libertadora de Jesus, como constata o evangelista: «Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: ‘Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus’» (vv. 23-24). A presença desse homem no reduto sagrado da sinagoga comprova a completa ineficácia da religião ali praticada. Até então, o ensinamento ali oferecido pelos mestres da Lei não tinha ido de encontro ao mal instalado na sociedade, incluindo a comunidade religiosa. O mal não era combatido por eles, porque na verdade eram aliados. Isso comprova que a autoridade dos mestres da Lei era falsa, ilegítima. Na verdade, quando a religião não é libertadora e humanizante, ela é aliada do mal. Jesus não compactua com o mal; na verdade, ele veio para destruir o mal e tudo o que aprisiona o ser humano, como o próprio espírito mau reconheceu: «vieste para nos destruir?». É provável que aquele homem com o espírito mau frequentasse a sinagoga há anos, mas a pregação dos mestres da Lei não o tinha ameaçado. Quando Jesus chega, ele se sente ameaçado porque Jesus traz amor e justiça, ele passa fazendo o bem (cf. At 10,38), por isso, liberta o ser humano em sua totalidade. E a incompatibilidade entre Jesus e o mal deve, obviamente, repercutir na comunidade cristã. Significa que os cristãos e cristãs não podem compactuar com nenhuma forma de expressão do mal, como violência, injustiças, preconceito, discurso de ódio, segregação, etc.

O texto mostra claramente que aquilo que ameaça o mal é a presença do bem, e Jesus é, por excelência, o portador do bem, o enviado do Pai e possuidor do Espírito Santo em plenitude. Até então, o mal instalado não tinha se sentido ameaçado, porque não havia quem irradiasse o bem de modo pleno naquele ambiente. Ao invés de aliviar, os pregadores convencionais imponham ainda mais fardos sobre as pessoas. Ao invés de livres, as pessoas saíam do culto cada vez mais acorrentadas, devido à pregação repressiva, legalista. Por isso, a presença de Jesus desestabiliza. O homem possuído pelo espírito mau, com quem a religião convivia tão bem, se sente ameaçado pelo ensinamento libertador de Jesus com sua autoridade. Quanto mais o Reino de Deus se aproxima e se instala no mundo, mais o domínio do mal se sente ameaçado e começa a desaparecer. Por isso, o homem pergunta o que Jesus veio fazer. O poder da morte, a anti-vida se sente com os dias contados diante de Jesus, o Filho do Deus da vida. O mal sente-se destruído com a implantação do Reino de Deus. Por isso, mais na frente, será articulado o complô da morte entre a religião e o império romano para fazer calar a voz de Jesus. Convém recordar que, para a mentalidade da época de Jesus e da comunidade do evangelista, espírito mau, espírito impuro ou possessão demoníaca eram, na maioria das vezes, as explicações que se davam para os casos de doenças ainda desconhecidas pela medicina da época, principalmente os transtornos mentais.

Por não suportar o mal ao seu redor, «Jesus o intimou: Cala-te e sai dele!» (v. 25). A essa ordem, segue-se o seu efeito: «Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu» (v. 26). Quem está dominado por forças hostis como a violência, a corrupção, a mentira e o ódio, não consegue livrar-se com facilidade. Mas, a palavra de Jesus tem uma eficácia imensurável e, mesmo sofrendo violência, consegue vencer. Aqui está um dos principais elementos do relato: a coerência entre a palavra e a ação de Jesus. Ensinamento e cura-exorcismo – expulsão do espírito mau – na mesma cena significam que em Jesus não há incoerência entre o falar e o agir. Ele é totalmente coerente. Essa é a sua práxis! Com a ordem de Jesus para o espírito mau calar-se, Marcos inaugura um dos temas principais de sua obra: o segredo messiânico. O espírito mau tinha reconhecido a identidade messiânica de Jesus como “Santo de Deus”, mas Jesus só aceita que esse reconhecimento seja fruto de uma experiência que passa pela cruz; por isso, até mesmo aos discípulos ele ordenará que se calem quando dirigirem-se a ele como o Messias (cf. Mc 8,29-30). Mas a ordem ao espírito mau não é apenas que ele se cale, mas que saia do homem, que o deixe livre. E assim acontece: o espírito mau saiu do homem, não sem resistência, mas saiu. O gesto violento de sacudir o homem quer dizer o quanto é árdua a luta contra o mal, e que todo processo de libertação implica confronto, pois o opressor emprega todas as formas de força e violência possível. O grito do espírito mau significa seu último respiro, é um grito de morte. O conjunto da cena – sacudir o homem e gritar – simboliza a força de Jesus no confronto com o mal. É uma demonstração de que a presença de Jesus sufoca o mal.

Se só o ensinamento de Jesus já causava admiração (v. 22), essa aumenta ainda mais quando os seus ouvintes percebem a novidade também na prática: «E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: ‘O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus e eles obedecem!’» (v. 27). É importante perceber a passagem da admiração ao espanto. No começo (v. 22), enquanto Jesus apenas ensinava com autoridade, todos se admiravam; agora, quando o ensinamento se concretiza em gesto libertador, todos ficam espantados. Essa é a única vez que o evangelista aponta uma reação assim diante de um milagre. Ele só vai voltar a empregar o mesmo verbo utilizado aqui (θαμβέομαι – thambéomai) para descrever a reação dos discípulos diante da lição de Jesus sobre a incompatibilidade entre as riquezas e o Reino de Deus (Mc 10,23.32). É a reação de algo nunca visto antes e quase inacreditável. Chama a atenção da assembleia o fato de Jesus não tolerar o mal diante de si. Para os mestres da Lei, pregadores e intérpretes oficiais, não importavam as situações concretas vivenciadas pelos participantes do culto; eles se preocupavam apenas em transmitir a doutrina, em dar o sermão, conforme o costume. Jesus, pelo contrário, colocava a vida e o bem-estar do ser humano em primeiro plano, por isso incomodava as forças do mal ali instaladas. Essa novidade evidencia ainda mais a sua autoridade.

E a novidade da práxis de Jesus gera admiração, fama e aceitação da parte do povo, como recorda o evangelista: «E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galiléia» (v. 28). As pessoas estavam saturadas de uma religião indiferente à vida e até conivente com as forças opressoras. Jesus inova no falar e no agir, tirando a doutrina do centro e colocando a vida do ser humano em primeiro lugar. Obviamente, como vai ser mostrado ao longo do Evangelho, muitos conflitos virão como fruto de suas opções, levando-o à cruz, inclusive. Como o episódio retratado no evangelho de hoje foi a primeira aparição pública de Jesus com os discípulos, ainda não terminou em conflito. Certamente porque ainda não deu tempo de os chefes religiosos perceberem o perigo que ele representa para os seus interesses. Nas próximas vezes que ele entrar numa sinagoga em dia de sábado, quase sempre terminará em conflito. Por enquanto, o que ele provoca é a admiração e espanto, tamanha a novidade da sua mensagem e do seu jeito de ser e de agir. Isso faz a sua fama se espalhar rapidamente, sobretudo na região da Galileia, escolhida por ele como a pátria do Evangelho, o ponto de partida da Boa Notícia do Reino, até chegar em todo o mundo. De início, essa fama é toda positiva, pois expressa a acolhida das pessoas simples, necessitadas de libertação e humanização. Mais tarde, essa fama se tornará também pejorativa, tanto pelas autoridades, por vê-lo como perigoso, quanto pelos próprios familiares, que tentarão prendê-lo por imaginá-lo louco (cf. Mc 3,20-21). Ele está apenas no começo da “pesca de seres humanos”, em companhia dos primeiros discípulos, dando ainda os primeiros passos na construção do Reino.

Portanto, tendo no domingo passado designado os primeiros discípulos como “pescadores de seres humanos”, hoje Jesus nos ensina a natureza dessa pesca: ser agente de libertação para a humanidade, livrando o ser humano das situações de opressão e morte. Como de todas as alienações a pior é aquela religiosa, foi no espaço dito sagrado que Ele iniciou sua missão libertadora, pois era ali onde mais se permitia que os seres humanos fossem “afogados”, ou seja, privados de sua liberdade e vida plena, carentes de humanização. Hoje, seu discipulado é também interpelado a reconhecer quais são as estruturas de domínio do mal, e combatê-las. Vale a pena recordar que, muitas vezes, o mal ainda continua disfarçado de doutrinas, ritos e preceitos religiosos.