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459. REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – Mt 25,31-46 (Ano A)

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25.11.2023 | 13 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
459. REFLEXÃO PARA A SOLENIDADE DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO – Mt 25,31-46 (Ano A)
Na liturgia do trigésimo quarto domingo do tempo comum, o último do ano litúrgico, a Igreja celebra a solenidade de Jesus Cristo como rei do universo. As leituras desta solenidade variam conforme o ciclo litúrgico. Neste ano, por ocasião do ciclo litúrgico A, o evangelho proposto é Mt 25,31-46, texto que contém a parábola do juízo final, uma exclusividade do evangelista Mateus. Na verdade, há estudiosos que não classificam esse texto como parábola, mas apenas como uma “cena de julgamento”, um recurso próprio do gênero apocalíptico, ao qual pertence todo o discurso escatológico do Evangelho de Mateus (Mt 24–25). Porém, antes de tratarmos do texto bíblico e seu contexto narrativo-literário, consideramos oportuno fazer algumas considerações sobre a origem e a história desta solenidade. Trata-se de uma festa relativamente nova, considerando que a maioria das festas e devoções cristãs encontram raízes ainda nos primeiros séculos do cristianismo. A solenidade de Cristo Rei já foi instituída pelo Papa Pio XI, no ano de 1925, em um momento muito conturbado para a Europa e todo o mundo. Fazia pouco tempo que a primeira guerra mundial tinha terminado, já se desenhava o cenário da segunda. A ganância pelo poder com as consequências drásticas que desse derivam estavam em efervescência. Já estavam consolidados alguns regimes totalitários, como o fascismo na Itália e o stalinismo na Rússia, enquanto o nazismo estava sendo gestado na Alemanha. Também em Portugal e Espanha estavam sendo gerados projetos ditatoriais, consolidados na década de 30.

Em resposta a este cenário, sobretudo aos regimes totalitários, o Papa Pio XI instituiu esta festa como advertência e recordação de que Jesus Cristo é o único rei e Senhor do universo. Com isso, não se pretendia restabelecer o poder temporal da Igreja, o que também seria um contraexemplo evangélico. O que se quis foi alertar o mundo para o perigo dos totalitarismos e recordar o senhorio de Jesus Cristo, cujo reinado deve começar no coração de cada pessoa. Apesar de oportuna para o momento histórico, a maneira como a festa foi instituída poderia gerar interpretações distorcidas e equivocadas da realeza de Cristo, alimentando pretensões triunfalistas na Igreja. Por isso, ela foi ressignificada com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, começando pela mudança de data; antes, era celebrada no último domingo do mês de outubro, como preparação solenidade de todos os santos. Com a reforma do Vaticano II, passou a ser celebrada no último domingo do ano litúrgico, como a culminação de um percurso e de um projeto universal de salvação, marcado pela inclusão e vida em abundância, correspondente ao que Jesus apresentou, ao longo de sua existência terrena, como o Reino de Deus. E, como se sabe, o Reino de Deus é incompatível com os projetos humanos de poder, tendo em vista que Deus reina quando o ser humano é plenamente respeitado em todas as suas dimensões, quando é realmente humanizado.

Conforme acenamos anteriormente, neste ano (ano A) o evangelho da festa de Cristo Rei é Mt 25,31-46. Esse texto é a conclusão solene do último dos cinco discursos de Jesus no Evangelho de Mateus, o chamado “discurso escatológico” (Mt 24–25). Contém as últimas palavras de Jesus antes do relato da paixão (Mt 26–27). Esse dado reforça ainda mais a importância do texto, pois é o fechamento de todo o ensinamento de Jesus, exatamente no Evangelho que mais evidenciou a sua atividade de ensinar. E o mais importante e comprometedor é que, na conclusão desse ensinamento, a opção pelos pobres e pequenos ocupa a centralidade. Como temos afirmado nos últimos domingos, esse discurso foi construído com a finalidade de chamar a atenção da comunidade do evangelista que vivia um momento de crise, com um esmorecimento na vivência da fé e preocupações com o tardar do retorno do Senhor. Com isso, o evangelista incentiva a comunidade a trabalhar os talentos confiados pelo Senhor, fazendo-os frutificar, sem preocupar-se com o tempo. Portanto, a exemplo das parábolas anteriores (parábolas dos dois servos – Mt 24,45-51; parábola das dez virgens – Mt 25,1-12; parábola dos talentos – Mt 25,14-30), também essa tem a finalidade de despertar uma vigilância ativa na comunidade.

Feitas as devidas considerações introdutórias e contextualização, olhamos para o texto, que apresenta, em forma de parábola, uma cena de julgamento final conduzida pelo Filho do Homem, título com o qual Jesus se refere a si mesmo. É importante recordar que o tema principal do discurso escatológico é a vigilância, ou seja, a espera atenta pelo desfecho final da história; por isso, o texto inicia com esta expressão: «Quando vier o Filho do Homem em sua glória acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso» (v. 31). O verbo “vir” relaciona essa cena as parábolas anteriores do mesmo discurso, sendo que expressa mais um manifestar-se do que propriamente um retorno. Com isso, o evangelista quer mostrar que o Senhor nunca foi embora, ou seja, nunca se ausentou, mas sempre esteve presente na comunidade. Inclusive, esse é um dos ensinamentos principais da parábola: mostrar que, mesmo depois da ascensão, o Senhor permaneceu na comunidade através dos pobres e pequenos. Um dos desafios da comunidade de Mateus era compreender e aceitar essa realidade, o que explica a ênfase do evangelista com o tema da presença do Senhor, o Deus conosco, Emanuel (Mt 1,23; 18,20; 28,20). Do começo ao fim, o evangelista mostra em sua obra que o Senhor já está na comunidade; agora, ele está falando da manifestação gloriosa.

O assentar-se no trono glorioso recorda a realeza do Filho do Homem; de fato, ele é rei. O que surpreende, no entanto, é a maneira como exerce essa realiza, o que vem indicado nos versículos seguintes, que o apresentam como juiz universal e como pastor. Eis a primeira consequência da vinda/manifestação do Filho Homem: «Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos» (v. 32). A reunião de todos os povos da terra, mesmo que seja seguida de uma separação, já evoca a realização de uma fraternidade universal. Acabou-se o privilégio de Israel, que agora passa a ser contado como um entre todos os povos da terra. Como os critérios de juízo já não serão mais religiosos, Israel não tem vantagem sobre as demais nações, pois o que conta é o amor ao próximo, traduzido em ações concretas de serviço e solidariedade. A imagem do pastor é extremamente significante; evoca cuidado, conhecimento do rebanho e intimidade com ele. Significa a dimensão serviçal do poder, incluindo o amor, a compreensão e o cuidado humanizante. É o contrário do poder tirânico. A separação das “ovelhas dos cabritos” é uma imagem muito comum no mundo pastoril, sobretudo no antigo Oriente. Nos tempos de frio, todos os dias, ao anoitecer, os pastores faziam esse trabalho: as ovelhas dormiam ao descoberto, pois possuíam a lã como proteção natural, enquanto as cabras e cabritos eram colocadas para dormir em locais cobertos, uma vez que não possuíam um meio natural de proteção.

Ao reunir “todos os povos” diante de si, o Filho do Homem irá fazer a separação. O critério da separação é o mais surpreendente: ao invés de considerar distintivos religiosos, como bons e maus, puros e impuros, dignos e indignos, santos e pecadores, ortodoxos e hereges, o critério utilizado pelo juiz universal é o que alguém fez ou deixou de fazer aos “pequeninos” ou “menores” dos irmãos, ou seja, às pessoas marginalizadas. A atenção aos “menores dos irmãos” é o critério de participação na vida definitiva, ou seja, o «reino que o Pai preparou desde a criação do mundo» (v. 34). Em Mateus, a mensagem de Jesus foi condensada nos cinco discursos e é importante perceber o nexo que une esses discursos: o primeiro, o da montanha, foi iniciado com as bem-aventuranças, nas quais Jesus introduzia a sua opção preferencial pelos marginalizados e sofredores (pobres, aflitos, mansos, perseguidos... Mt 5,1-12); agora, no último discurso, como mostra o texto de hoje, essa opção é reforçada e confirmada. Podemos dizer que, do começo ao fim, a mensagem de Jesus tem a atenção voltada de maneira especial para os “menores dos irmãos”, ou seja, toda a sua vida foi marcada por uma clara opção por aquelas pessoas desprezadas pela sociedade.

A partir de seis situações (ações) concretas, o evangelho de hoje mostra como alguém pode ser herdeiro ou não do Reino de Deus: «dar comida aos famintos, dar água aos sedentos, acolher os estrangeiros, vestir os nus, cuidar dos enfermos e visitar os presos» (vv. 35-40). Chamadas de “obras de misericórdia”, estas ações já eram recomendadas na Bíblia, ao longo do Antigo Testamento, especialmente em textos proféticos (Is 58,7; Ez 18,7.17). Portanto, Jesus não as inventa, mas dá um novo sentido, transformando-as em critérios exclusivos para o acesso definitivo ao Reino de Deus. Enquanto juiz e senhor da história, o Filho do Homem, conduzirá o julgamento com um diálogo bastante franco e sincero, iniciado com um convite: «Vinde benditos de meu Pai!” (v. 34a). Em seguida, são dadas as razões pelas quais são chamados de benditos do Pai: «Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar» (vv. 35-36). Chama a atenção a surpresa dos que são tratados como benditos (em grego: εὐλογημένοι – euloguêmenoi): eles perguntam quando viram o senhor naquelas situações e o serviram. Essa surpresa é registrada pelo narrador para reforçar o caráter desinteressado e gratuito do amor transformado em serviço: fazer o bem, sem olhar a quem! Eles praticaram o bem sem esperar recompensa, e é isso o que o Senhor espera de todos. A surpresa aumenta ainda mais quando o senhor diz: «todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!» (v. 40). Famintos, sedentos, estrangeiros, nus, doentes e presos sintetizam todas as categorias de marginalizados e são expressões da presença real de Jesus na comunidade cristã. Isso quer dizer que, em qualquer momento da história e em todos os lugares, qualquer pessoa pode ver Jesus e servi-lo; basta olhar para as pessoas que estão nessas situações e fazer-lhes o bem.

Fazia parte dos métodos rabínicos ensinar a mesma coisa duas vezes: uma em sentido positivo, e outra em sentido negativo, sobretudo quando se tratava de um ensinamento muito importante, mas de difícil aceitação, como Jesus faz nesta parábola. Assim, o diálogo com o segundo grupo se desenvolve a partir da mesma dinâmica, embora com desfecho contrário, a começar pelo convite inicial: «Afastai-vos de mim, malditos» (v. 41). Da mesma forma como fez com aqueles considerados benditos, o rei-juiz dá as razões pelas quais esses últimos são chamados de malditos (em grego: κατηραμένοι – katêramenoi): não ter feito aquilo que fizeram os primeiros (v. 43). Também esses recebem a sentença com surpresa: «Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?» (v. 44). A resposta do rei só faz aumentar a surpresa: «Todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!» (v. 44). Assim como o terceiro empregado da parábola dos talentos (liturgia do 33º domingo), a sentença de condenação não é consequência de maldades cometidas, mas de omissões. O que há de mais sério na vida do ser humano, e que pode levá-lo à privação da vida em plenitude, é a omissão, a indiferença ao sofrimento do próximo, a carência de ações praticadas em favor dos menos favorecidos. Logo, a sentença final (v. 46) não é um castigo divino, mas simplesmente consequência de opções contrárias à essência do Evangelho, o que torna a vida sem sentido.

Como conclusão do discurso escatológico, o texto de hoje reforça a vigilância e dá um novo sentido a ela: não se deve ficar esperando pelo encontro com o Senhor na consumação dos tempos, em um tempo remoto; é preciso ter capacidade, maturidade e amor para encontrar-se com ele todos os dias, fazendo o bem àqueles nos quais o Senhor está presente, já elencados repetidas vezes aqui (faminto, sedento, estrangeiro, nu, doente e preso). A parábola é um alerta para a comunidade de Mateus, tão ansiosa pelo retorno do Senhor, mas incapaz de ver o Senhor já presente nos mais necessitados. Certamente, esse alerta continua válido também para os cristãos de hoje. O cristão verdadeiro encontra-se com o Senhor todos os dias, não tem medo nem anseia por um encontro final e decisivo, mas sabe que Ele já está aqui conosco. A presença de Jesus, por sinal, é o fio condutor do Evangelho segundo Mateus: do anúncio a José – Emanuel, Deus conosco (Mt 1,23) – ao envio dos discípulos após a ressurreição: «Eis que eu estou convosco todos os dias» (28,20). Portanto, não há razões para a comunidade perguntar quando virá o Senhor; o importante é perceber a sua presença no cotidiano, nas situações concretas da vida.

Todos foram pegos de surpresa: tanto os considerados “benditos” quanto os ditos “malditos”, pois ou fizeram ou deixaram de fazer o bem. O bem a ser praticado deve ser completamente desinteressado. O Senhor não marca nem rotula nenhum daqueles nos quais ele deve ser reconhecido. Basta reconhecer o outro como ser humano, pessoa com dignidade, imagem e semelhança do criador; essa é a única marca e não é impressa por nenhuma religião, mas pelo Deus que é Pai e Criador. Ao Senhor, interessa o bem praticado, o serviço doado, o amor vivido! Reconhecer a realeza de Jesus sobre o universo é reconhecê-lo em cada irmão e irmã, sobretudo nos mais necessitados.