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450. REFLEXÃO PARA O 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 20,1-16 (Ano A)

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23.09.2023 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
450. REFLEXÃO PARA O 25º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Mt 20,1-16 (Ano A)
Neste vigésimo quinto domingo do tempo comum, o evangelho proposto pela liturgia é Mt 20,1-16, texto que compreende a parábola dos trabalhadores da vinha, que também pode ser chamada de parábola do patrão generoso ou, simplesmente, do proprietário da vinha. Trata-se de uma parábola exclusiva do Evangelho de Mateus, na qual Jesus compara o Reino dos Céus a uma vinha, imagem clássica do povo de Israel, segundo as tradições do Antigo Testamento. Mas Jesus ressignifica a imagem, apresentando-a sob nova perspectiva, mostrando o jeito novo de Deus relacionar-se com seu povo e com a humanidade inteira. Na verdade, mais do que descrever o Reino propriamente, a parábola enfatiza as novas relações que marcam a dinâmica do Reino e os critérios para dele fazer parte, o que passa necessariamente pela assimilação de uma nova imagem de Deus. É a passagem da concepção de um Deus calculista e justiceiro para o Deus justo e amoroso de Jesus. Em Mateus, constam três parábolas com a imagem da vinha, sendo duas exclusivas, enquanto nos outros sinóticos há apenas uma, que é contada também por Mateus. Essas parábolas são: “dos trabalhadores da vinha” (Mt 20,1-16); “dos dois filhos” (Mt 21,28-32); “dos vinhateiros homicidas” (Mt 21,33-41; Mc 1,1-12; Lc 20,9-19). Esse dado evidencia a afinidade maior do primeiro evangelista com as tradições do Antigo Testamento.

O contexto narrativo da parábola dos trabalhadores da vinha é a seção do caminho de Jesus com seus discípulos para a cidade de Jerusalém. Em Mateus, o caminho ocupa apenas dois capítulos (Mt 19–20), enquanto no Evangelho de Lucas ocupa dez capítulos (Lc 9-19). Mas o fato de ocupar menos espaço não significa que o caminho possua pouca importância no Evangelho de Mateus. Tudo o que Jesus faz e ensina nessa seção possui grande relevância para a formação do discipulado e a construção do Reino. Em Lucas, obviamente, a relevância é maior porque ele faz do caminho o lugar privilegiado do ensinamento de Jesus, transformando-o em imagem da própria da própria comunidade. Mas também para Mateus o caminho é importante, pois constitui uma etapa indispensável e, por isso, irrenunciável da vida de Jesus, que devia passar da Galileia para Jerusalém, onde conclui os seus ensinamentos e a sua vida terrena. Quanto mais Jesus se aproximava de Jerusalém, mais necessidade tinha de instruir seus discípulos sobre a natureza do Reino que ele estava propondo. Ora, os discípulos e as multidões que seguiam Jesus continuavam sonhando com a restauração do reino davídico-salomônico e, por isso, tinham dificuldades de compreender e aceitar o Reino como ele apresentava.

Diante da incompreensão e resistência dos discípulos, Jesus procurava cada vez mais apresentar as particularidades do Reino dos Céus e a mudança de mentalidade que esse exigia para ser assimilado e construído. Considerando o conteúdo e a posição da parábola de hoje na dinâmica narrativa do Evangelho de Mateus, podemos concluir que ela constitui o ápice do ensinamento de Jesus aos discípulos sobre o Reino dos Céus. Ao chegar em Jerusalém, ele continuará ensinando, mas ali os destinatários e interlocutores primeiros já não serão exclusivamente os discípulos, e sim os fariseus, saduceus, doutores da lei e sacerdotes, ou seja, as lideranças do judaísmo, que possuíam também forte influência na vida política de Israel, na época. Portanto, o ensinamento exclusivo aos discípulos é praticamente concluído com esta parábola. Diante, disso, para compreendê-la ainda melhor, é importante recordar os acontecimentos que antecedem: o encontro de Jesus com o jovem rico (19,16-22) e a reação dos discípulos ao desfecho desse encontro (19,23-30).

Os discípulos tinham ficado perplexos com o diálogo entre Jesus e o jovem rico, sobretudo por causa das exigências apresentadas. Diante isso, Pedro, em nome do grupo, fez a seguinte a Jesus: «E nós que deixamos tudo e te seguimos, que recompensa teremos?» (19,27). Ora, percebendo a falta de coragem do jovem rico para o despojamento e o seguimento, Pedro quis tirar vantagem da situação, insinuando que ele e os seus colegas discípulos de primeira chamada seriam merecedores de privilégios. Jesus lhe assegurou que não ficará sem recompensa quem deixar tudo para segui-lo, mas não promete privilégios, uma vez que «muitos dos primeiros serão últimos, e muitos dos últimos serão primeiros» (19,30). Essa expressão proverbial corresponde ao último versículo do capítulo 19 e a parábola começa no primeiro versículo do capítulo 20. Ao concluir a parábola, Jesus repete essa mesma máxima, embora modificando a ordem: «Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos» (20,16). A parábola é, portanto, uma explicação ilustrada desse pensamento que propõe uma reviravolta na história, uma inversão total da ordem vigente, começando pela maneira de conceber as relações com Deus. E os primeiros necessitados dessa explicação são os próprios discípulos.

Feita a contextualização, podemos voltar a atenção diretamente para o texto, começando pelo primeiro versículo: «O Reino dos Céus é como a história de um patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha» (v. 1). Como se vê, Jesus está introduzindo uma parábola do Reino dos Céus, o que confere grande importância ao texto, tendo em vista a centralidade do Reino em sua pregação. É importante recordar que as parábolas apresentam comparações por imagens, e não descrições do Reino propriamente. Ora, como o Reino consiste em um mundo novo, uma sociedade alternativa, completamente diferente das sociedades humanas até então experimentadas, ele não pode ser descrito, uma vez que ainda não fora inteiramente experimentado plenamente. Em relação ao protagonista da parábola, ao invés do termo patrão, como traz a tradução do lecionário, é mais adequada a expressão “dono da casa” ou “pai de família”, uma imagem mais suave e mais fiel ao termo empregado pelo evangelista na língua original (em grego: οἰκοδεσπότῃ – oikodéspote). Segundo o texto, «Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha» (v. 2). O pagamento acordado, traduzido por uma moeda de prata – em grego: δηνάριον – denárion – corresponde ao básico para um dia de trabalho em praticamente todo o império romano, e era suficiente para o sustento diário de uma família.

O fato de ser o próprio dono da casa quem sai em busca de operários já indica tratar-se de alguém acessível, interessado em conhecer pessoalmente os trabalhadores da sua vinha. E dono da vinha da parábola representa o próprio Deus. Com esse primeiro detalhe, Jesus acena para a ilegitimidade da mediação dos líderes religiosos do seu tempo, principalmente o sacerdócio do templo. Ora, aqueles líderes já não tinham legitimidade para falar em nome de Deus, até porque tinham distorcido a sua imagem, transformando-o de Pai, que ama e cuida, em patrão vingativo e castigador. A imagem do “dono da casa” da parábola, portanto, se aproxima do “Deus Conosco” que Jesus veio revelar (Mt 1,23; 18,20; 28,20). É uma imagem que recorda também aquela do “Pai misericordioso” da chamada “parábola do filho pródigo” de Lucas (Lc 15,11-32), pois não recompensa conforme os méritos, mas age por pura bondade e gratuidade. Esse dono demonstra um zelo ímpar para com a sua vinha, comparável ao zelo de Deus pela humanidade inteira. Ele sai várias vezes – cinco no total – durante o dia em busca de trabalhadores: pela madrugada (v. 1), às nove da manhã (v. 3), ao meio-dia (v. 5), às três (v. 5) e às cinco da tarde (v. 6). O contato direto dele com os trabalhadores deixa ainda mais claro o advento das novas relações entre a humanidade e o Deus da vida que Jesus revelou. Um Deus presente, realmente “Conosco”, como apresenta Mateus ao longo de todo o seu Evangelho (1,23; 18,20; 28,20). Um Deus que chama porque ama, que confia a construção do seu Reino a todos os que encontra parados nas praças, calçadas, estradas, que nunca tinham sido reconhecidos nem chamados por ninguém. E, ao chamar, esse Deus não pede currículo algum, porque sua intenção é a inclusão: ele não quer que ninguém fique fora do seu Reino, ao contrário da religião que segregava e excluía, ao classificar as pessoas entre justos e pecadores. Ele quer que todas as pessoas se sejam humanizadas pela sua misericórdia e amor, independentemente da hora em que se sintam chamadas.

De todas as idas em busca de trabalhadores, uma das que mais chama a atenção é a última, já às cinco da tarde, faltando apenas uma hora para terminar a jornada de trabalho. E é nela que o proprietário demonstra mais cuidado e preocupação, como se percebe pelo diálogo criado: «Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí dia inteiro desocupados?’. Eles responderam: «Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’» (vv. 6-7). A pergunta revela o interesse do proprietário pela vida das pessoas encontradas na praça. A história de cada um é importante para compreender sua maneira de viver. A resposta dos últimos contratados demonstra tratar-se de pessoas marginalizadas, esquecidas, excluídas da vida social e religiosa. Se estavam naquela situação, é porque ninguém tinha se interessado por elas: «Porque ninguém nos contratou». Além de mostrar o interesse de Deus por todos, com predileção pelos últimos, esse diálogo adverte para a importância de interessar-se pela vida do outro e conhecer as causas do abandono em que milhões de pessoas se encontram no mundo, sem trabalho, sem alimento, sem moradia e sem os mínimos direitos respeitados. Muitas vezes, na própria comunidade, as pessoas são rotuladas e julgadas pelas situações a que foram submetidas. É claro que a parábola não pode ser lida à luz das relações trabalhistas e as respectivas leis, mas é impossível não se deixar interpelar por ela sem aplicá-la a situações concretas atuais.

A interação do proprietário com os últimos trabalhadores contratados explica a motivação da parábola e vai justificar a conclusão: «Os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos» (Mt 19,30; 20,16). Ora, aqueles trabalhadores que ainda não tinham sido contratados por ninguém eram mais necessitados; provavelmente tinham passado a vida toda às margens, até a chegada de um proprietário generoso que fosse ao encontro deles e lhes chamassem pessoalmente, restituindo-lhes a dignidade, até então negada. Por isso, eles terão prioridade na hora do pagamento, como imagem da nova ordem que compreende o Reino de Deus. Ora, ao contrário do sistema vigente na época de Jesus e no período da redação do Evangelho de Mateus, no Reino por ele anunciado, não há lugar para a competitividade, nem para a meritocracia. É claro que nem todos conseguiam assimilar com facilidade essa nova mentalidade inclusiva, que consistia na passagem da religião da lei para a da misericórdia e da bondade. Essa dificuldade é demonstrada na parábola pela reação dos primeiros contratados no momento do pagamento. Os primeiros a receber foram os últimos contratados, sendo que trabalharam apenas uma hora, pois foram chamados já às cinco da tarde e a jornada de trabalho terminava às seis. E «cada um recebeu uma moeda de prata» (v. 9). Temos, obviamente, uma grande surpresa, pois eles recebem o mesmo valor que tinha sido combinado para os primeiros contratados.

A surpresa aumenta com o pagamento dos primeiros contratados, embora tenham recebido o valor combinado no momento da contratação: «Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que ia receber mais. Porém, cada um deles recebeu uma moeda de prata» (v. 10). Considerando o valor pago aos últimos, esperava-se que os primeiros recebessem no mínimo o dobro deles, afinal, os primeiros tinham trabalhado de sol a sol, enquanto os últimos trabalharam apenas uma hora. Contudo, o pagamento combinado era suficiente para o sustento diário. Temos aqui, portanto, um apelo à igualdade e um combate à ganância e à cultura do acúmulo. O importante é que haja igualdade, que todos tenham o suficiente para o pão de cada dia, de modo que ninguém tenha nada em excesso nem falte o essencial para ninguém. Ora, ao pagar primeiro aos últimos contratados, e dar-lhes o mesmo valor dado aos contratados ainda na madrugada, o patrão inverteu completamente a lógica da economia, fez uma reviravolta total nas relações: ao invés de agir conforme a lei, ele agiu com misericórdia e bondade. E isso deixou furiosos aqueles que tinham sido contratados primeiro, como diz o texto: «ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão: ‘Estes últimos, trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’» (vv. 11-12). O patrão tinha duas opções: agir conforme a lei e, assim, perpetuar a desigualdade, ou agir pela bondade e, assim, promover a igualdade. Como preferiu a segunda opção, foi duramente contestado.

Com a reação dos primeiros contratados, Jesus denuncia a mentalidade competitiva entre os discípulos e, ao recordar isso, Mateus também denuncia a situação da sua comunidade, composta predominantemente por cristãos provindos do judaísmo, que reivindicavam vantagens e privilégios sobre os cristãos convertidos do paganismo. Como os primeiros contratados da parábola que alegavam ter suportado cansaço e calor, os cristãos de origem judaica alegavam conhecer e observar a Lei e os profetas, como primeiros destinatários da revelação de Deus e povo eleito, imaginando que isso lhes daria privilégios dentro da comunidade do Reino, por serem os verdadeiros herdeiros das antigas promessas. Esse comportamento se assemelha ao do filho mais velho na parábola do “Pai misericordioso” ou “Filho pródigo” de Lucas (Lc 15,11-31), de modo que podemos equipará-las na ênfase à misericórdia do Pai revelada por Jesus, como já acenamos anteriormente, e no comportamento mesquinho dos primeiros contratados. A reação do patrão ao murmúrio dos primeiros contratados é a clara denúncia de Jesus e de Mateus às pessoas religiosas que queriam controlar o agir de Deus, prendendo-o a doutrinas e normas: «Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja porque estou sendo bom?» (v. 15).

O desconforto de uma religião sustentada pela mentalidade meritocrática, retributiva e legalista é grande quando se descobre que o Deus verdadeiro é um Pai que ama, perdoa, vai pessoalmente ao encontro das pessoas afastadas, promove a igualdade e humaniza pela misericórdia. Jesus, o revelador do Pai, contesta radicalmente a religião que se propõe a determinar a maneira de Deus agir. Para ele, isso é inadmissível, é um verdadeiro atentado contra Deus. Certamente, a denúncia de Jesus e do evangelista continua válida também para os dias atuais. Pois, como sabemos, também hoje, muitas pessoas religiosas ainda têm dificuldade de aceitar um Deus misericordioso que age com liberdade e doa seu amor a todos, sem distinção. Na verdade, esse Deus continua sendo negado por essas pessoas. É inadmissível um Deus que não premia os bons e castiga os malvados. Para essas pessoas, a salvação é um prêmio, e não um dom; Deus é um soberano, e não um Pai; o outro é um concorrente, e não um irmão; a Igreja é um tribunal, e não uma fraternidade. Mas a modo de agir do “dono da casa” da parábola desmente completamente essa concepção errada de Deus.

Assim, chegamos à conclusão e síntese da parábola: “Os últimos serão os primeiros e os primeiros serão os últimos” (v. 16). Como tínhamos afirmado na introdução, a parábola em si é a explicação para essa máxima proverbial. Não se trata de uma exclusão aos que chegaram primeiro no grupo de discípulos ou na comunidade, mas uma demonstração de que o fato de terem chegado primeiro não lhes dá privilégios nem supremacia sobre os que vieram e virão depois. Essa expressão é apenas um modo de enfatizar que aqueles que forem chamados por último terão acesso ao mesmo amor, à mesma bondade de Deus que os primeiros, e devem ter prioridade na comunidade, devido ao histórico de exclusão que carregam. O Reino, apresentado como vinha, é também casa, família, é fraternidade e igualdade. É comunidade humanizada e humanizante.