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285. REFLEXÃO PARA O 13º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 9,51-62 – Ano C

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25.06.2022 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
285. REFLEXÃO PARA O 13º DOMINGO DO TEMPO COMUM – Lc 9,51-62 – Ano C
Do décimo terceiro ao trigésimo primeiro domingo do tempo comum, no ano litúrgico C, o evangelho é tirado da seção narrativa que é considerada o coração do Evangelho de Lucas: o caminho de Jesus para Jerusalém, com seus discípulos (Lc 9,51–19,28). Enquanto Marcos e Mateus dedicam apenas dois capítulos ao caminho, cada um (cf. Mc 9,30–10,52; Mt 19,1–20,34), Lucas dedica nada menos que dez capítulos. Essa extensão literária é correspondente ao valor teológico e catequético que o autor do Terceiro Evangelho atribui ao caminho. Ora, enquanto para Marcos e Mateus o caminho é apenas o elo entre duas etapas do ministério de Jesus, na Galileia e em Jerusalém, respetivamente, para Lucas o caminho é a etapa mais importante do ministério de Jesus, na qual ele apresenta os principais elementos da sua mensagem e das características do seu estilo de vida. O trecho lido hoje – Lc 9,51-62 – corresponde ao início do caminho e mostra as principais exigências para caminhar com Jesus, ou seja, para o seu discipulado.

Ao dedicar tanto espaço ao caminho, Lucas não pretende descrever uma viagem ou um itinerário físico e geográfico. Na verdade, ele faz do caminho a imagem da sua catequese, do seu projeto formativo e, acima de tudo, do modelo de Igreja pensado para as suas comunidades e para as comunidades de todos os tempos: uma Igreja missionária e sinodal. Esse modelo foi preconizado ainda no chamado “Evangelho da Infância” (Lc 1–2), quando, ainda no ventre de Maria, ele já apresentou Jesus fazendo seu primeiro caminho, no episódio da visitação (cf. Lc 1,39-56), e vai reforçar no segundo volume de sua obra – Atos dos Apóstolos –, ao descrever a intensa ação missionária Igreja nascente. Inclusive, em Atos a própria Igreja chega a ser chamada de caminho (cf. At 9,2; 19,9.23; 24,14.22), em alusão à sua natureza dinâmica e missionária, e em contraposição à estrutura rígida e estática da sinagoga, e como denúncia à tendência de institucionalização que já se disseminava em algumas comunidades.

À medida em que avançarmos na leitura, com a sequência dos domingos, também será aprofundada a contextualização. Voltemos a atenção, então, para o texto de hoje, que começa desta maneira: “Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém” (v. 51). Este versículo é um elemento-chave para compreender tanto a estrutura literária da obra quanto as intenções teológicas do autor. Ora, a decisão de Jesus partir para Jerusalém indica que ele concluiu a primeira etapa do ministério, desenvolvida na Galileia (cf. Lc 4,14–9,50). A chegada do tempo de Jesus ser levado ao céu significa que sua obra estava se realizando conforme os desígnios de Deus, quer dizer que ele estava cumprindo bem a sua missão de inaugurador do Reino de Deus na terra. E o desfecho desta missão é o mistério pascal, envolvendo todos os acontecimentos da paixão até a ascensão. Logo, “ser levando para o céu” não significa, simplesmente, um acontecimento, mas a missão cumprida com fidelidade, o projeto realizado. Neste projeto, a morte de cruz não é acidente nem predestinação, mas consequência da fidelidade, das opções feitas e assumidas. Por isso, diz o texto que “ele tomou a firme decisão”, ou seja, tomou uma decisão irrevogável. Muito se tem discutido a respeito dessa expressão, mas o significado é mesmo a determinação da decisão de Jesus. Quer dizer que ele tomou uma decisão firme, assumiu convictamente a causa do Reino e não irá se desviar dela.

Com a firme decisão de partir para Jerusalém, Jesus toma as primeiras iniciativas visando o grande caminho que irá percorrer. Por isso, o texto que ele “enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, para preparar hospedagem para Jesus” (v. 52). Como ele andava com seus discípulos, era mesmo necessário que fosse uma comitiva à frente para preparar hospedagem, uma vez que se tratava de um grupo grande, e era perigoso pernoitar fora de um povoado, devido à presença de assaltantes e feras naquela região. Para quem saía da Galileia, o caminho mais lógico e curto para chegar em Jerusalém passava necessariamente pela Samaria. Porém, alguns peregrinos faziam um desvio para evitar os possíveis conflitos que poderiam surgir, devido à rivalidade histórica que havia entre judeus e samaritanos. E o grupo de Jesus com seus discípulos foi vítima disto, como diz o texto: “Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão que ia a Jerusalém” (v. 53). A rejeição dos samaritanos é a primeira dificuldade encontrada por Jesus, no caminho. E o motivo de tal rejeição é muito claro: ele “dava a impressão que ia a Jerusalém”. Certamente, se não tivesse dado essa impressão não teria sido rejeitado.

A rejeição, obviamente, tem raízes históricas antigas. Na verdade, a rivalidade entre judeus e samaritanos teve a sua origem com o cisma que dividiu o único reino de Israel em dois, ficando Samaria como capital do reino do Norte, e Jerusalém como capital do reino do Sul. Após o cisma, Jeroboão I, o primeiro rei de Israel do Norte, construiu vários santuários em seu reino, para competir com o culto do templo de Jerusalém, inclusive, proibindo que sua população se dirigisse a Jerusalém para participar das liturgias do grande templo. O culto praticado nestes santuários era, obviamente, considerado ilegítimo pelos judeus. Essa rivalidade se acentuou ainda mais após a invasão assíria em 722 a.C.. Ora, além de deportar parte da população local, a Assíria levou povos de suas outras colônias para repovoar a Samaria e todo o reino do Norte, constituindo assim um povo mestiço, plural e sincrético. Os povos estrangeiros levaram seus costumes e tradições para a Samaria, juntamente com suas diversas práticas cultuais (cf. 2Rs 17,24-28). Tudo isso levou os judeus a considerar os samaritanos como impuros e heréticos. O estopim, contudo, foi a construção de um templo no monte Garizim, por volta do ano 300 a.C., pelos samaritanos, como demonstração de que eles não reconheciam o culto do templo de Jerusalém, e por isso, passaram a hostilizar também os peregrinos que por lá passavam em direção à Jerusalém. Por isso, Ao dar “a impressão de que ia a Jerusalém”, Jesus foi considerado um judeu devoto pelos samaritanos, que imaginavam que ele fosse à capital para cumprir ritos devocionais. Certamente, os mensageiros encarregados de preparar a hospedagem não informaram corretamente, pois Jesus não estava indo a Jerusalém para cumprir gestos de devoção no tempo, e sim para contestar e enfrentar o sistema que se sustentava às custas do templo.

Com a rejeição dos samaritanos a Jesus e seu grupo que se dirigia a Jerusalém, o evangelista também recorda o início do ministério de Jesus, quando ele também foi rejeitado em Nazaré, sua terra natal (cf. Lc 4,16-30) e, ao mesmo tempo, antecipa a grande rejeição que ele sofrerá em Jerusalém, quando será condenado à morte na cruz. Isto quer dizer que, do começo ao fim de sua vida, Jesus sofreu rejeição. Assim, o evangelista também prepara o discipulado de todos os tempos, advertindo que colocar-se em caminho com Jesus exige a disposição para enfrentar as mesmas dificuldades que ele enfrentou. Contudo, movidos pela ideologia nacionalista e adeptos de um messianismo triunfalista, os discípulos não aceitavam esse destino, como demonstra a reação de dois deles: “Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: ‘Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?” (v. 54). Percebe-se aqui, o fanatismo e a intolerância dos discípulos, o que é inadmissível para Jesus. Isto significa que eles ainda não tinha assimilado a natureza da messianidade de Jesus, um messias ao revés, em relação às expectativas do povo. E, em todo o grupo de discípulos, Tiago e João, os filhos de Zebedeu, eram os que mais se destacavam pelo fanatismo, a intolerância e a ambição. Por isso, foram denominados pelo próprio Jesus de “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), em alusão clara ao comportamento intolerante e arrogante.

E a reação de Jesus à intolerância dos discípulos foi de total desaprovação, como diz o texto: “Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os” (v. 55). Ora, a mensagem de Jesus não pode ser imposta. Logo, quem se coloca no seu seguimento deve respeitar a liberdade das pessoas, sem fazer proselitismos. A proposta de mundo novo que Jesus veio oferecer à humanidade, que corresponde ao Reino de Deus, é sempre uma proposta, não pode ser imposição. Com esta repreensão aos intolerantes Tiago e João, portanto, o evangelista recorda que nenhum tipo de proselitismo e intolerância pode ser aceito na comunidade cristã. A rejeição a Jesus e à sua mensagem é considerada normal, tendo em vista a novidade que ele traz e as exigências que o seu seguimento implica. E, ao ser rejeitado, a reação de Jesus é bastante simples, como diz o texto: “E partiram para outro povoado” (v. 56). Jesus não insistiu e tampouco desistiu de seus propósitos. Continuou seu caminho, como demonstração de que as rejeições sofridas não bloqueiam o anúncio, assim como nenhum tipo de perseguição deterá a Palavra, o que será muito bem demonstrado ao longo de todo o livro de Atos dos Apóstolos. Portanto, o caminho de Jesus sempre enfrentará obstáculos, mas nenhum obstáculo pode interrompê-lo. E assim deve ser a missão da comunidade cristã, sempre.

Logo após a iniciativa de partir para outro povoado, após a primeira rejeição, o evangelista mostra o caminho sendo continuado, e Jesus interagindo com as pessoas enquanto caminha. Essa interação é, de fato, uma das características principais do caminho, na perspectiva de Lucas. Mesmo caminhando com uma decisão bastante firme, Jesus não deixa de interagir com as pessoas e nem de contemplar as realidades vistas ao longo do caminho. Por isso, Lucas faz do caminho a imagem privilegiada da formação do discipulado. Ser discípulo(a) de Jesus é, portanto, caminhar com ele com profundas convicções sem, jamais, ignorar as realidades pelas quais se deve passar. Por isso, na sequência, o evangelista apresenta três pequenas cenas de vocação que evidenciam as exigências irrevogáveis para seguir o caminho com Jesus, ou seja, para o discipulado (vv. 57-62). Na primeira e na terceira cena é o próprio candidato ao discipulado quem se oferece ao seguimento, enquanto na segunda, a iniciativa parte do próprio Jesus. Os três interlocutores demonstram certa disponibilidade para o seguimento, porém limitada. Dois deles apresentam condições, até justas, humanamente falando, mas inaceitáveis para Jesus, tendo em vista a prioridade e a urgência da construção do Reino de Deus. Nos três casos, Jesus responde com expressões proverbiais que evidenciam a radicalidade que o seu seguimento exige. O evangelista não relata o desfecho de nenhum dos três casos, não diz se o interlocutor de Jesus aceitou ou não a sua proposta incondicional de seguimento. Certamente, o autor deixa a conclusão para os leitores: espera-se que cada um e cada uma interaja com Jesus e responda pessoalmente se aceita caminhar com ele ou não.

Ao primeiro interlocutor, o único que não apresentou condição prévia, Jesus responde com um provérbio que evidencia o despojamento e a simplicidade indispensáveis ao seguimento: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça” (v. 58). A toca e o ninho são sinais de segurança e estabilidade para os animais, enquanto Jesus – o Filho do Homem – não possui qualquer meio que lhe dê segurança ou conforto. A recente rejeição sofrida em certo povoado dos samaritanos é uma clara demonstração disto. A expressão “não tem onde repousar a cabeça” significa a pobreza e o despojamento total de Jesus; quer dizer que ele “não tinha onde cair morto”, usando outro provérbio correspondente. E é nestas condições que seus discípulos e discípulas também devem viver. O discipulado, portanto, não garante a mínima estabilidade. O segundo interlocutor, que é chamado pelo próprio Jesus, pede uma concessão: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai’ (v. 59). Obviamente, não se trata de alguém que fora interpelado por Jesus durante os ritos fúnebres do próprio pai. A expressão “enterrar o pai” significa o cuidado com o pai e a mãe até a morte. Esse cuidado, inclusive, estava implicado no quarto mandamento do decálogo (cf. Ex 20,12) – honrar pai e mãe – e era considerado um dos deveres mais sagrados para o povo judeu. A pessoa chamada por Jesus afirmou que estava disposta a segui-lo, mas não enquanto seus pais vivessem. A resposta de Jesus, neste caso, é a mais radical das três: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; mas tu, vai anunciar o Reino de Deus” (v. 60). Na época da redação do Evangelho, costumava-se chamar de mortos todos os que não faziam parte da comunidade cristã. Eram as pessoas que não tinham aceitado a vida verdadeira oferecida por Jesus. Logo, a expressão não significa um convite a deixar os defuntos sem sepultura, mas a deixar que as pessoas não empenhadas na construção do Reino cuidassem disto. Eram raros os casos em que uma família inteira entrava no seguimento. Geralmente, eram membros isolados que abraçavam o discipulado, e a resposta de Jesus quer dizer que os outros familiares poderiam cuidar dos pais até a morte.

No último caso, novamente é o interlocutor quem se oferece para seguir Jesus, e também faz um pedido: “Eu te seguirei, Senhor, mas deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares” (v. 61). Aqui, temos uma clara alusão ao chamado do profeta Eliseu por Elias (cf. 1Rs 19,20). Com isto, o evangelista ensina que Jesus é maior do que Elias e, consequentemente, o seu seguimento é mais exigente. Trata-se até de um pedido justo que, certamente, não seria negado por Jesus. Na verdade, nenhum dos três diálogos é crônica de fatos reais; são artifícios literários que visam chamar a atenção para o caráter urgente do Reino de Deus, e a ruptura com as estruturas e tradições que impediam a sua construção, como se vê pela resposta de Jesus: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus” (v. 62). Ora, a família era o primeiro e maior sinal da tradição no mundo semita, como é em qualquer sociedade patriarcal. O anúncio do Reino não permite meios termos, nem distrações. Os terrenos da Palestina eram bastante pedregosos, de modo que exigiam muita atenção de quem trabalhava arando a terra; era inaceitável qualquer distração, como um simples olhar para trás. E assim é a adesão ao Reino: exige uma dedicação total.

É importante colocar-se em caminho com Jesus, sentir-se chamado por ele, com a disposição de fazer as opções radicais que ele exige. E a realidade do mundo e do país mostram que a construção do Reino é urgente. Por isso, é cada vez mais necessário que seja recuperado o espírito missionário e sinodal nas comunidades cristãs, para serem fiéis às origens e sinais visíveis do Reino de Deus no mundo. Que o caminho apresentado por Lucas seja assimilado como modelo de catequese e formação para o discipulado pelas comunidades de hoje e de sempre.
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