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271. REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 8,1-11 – Ano C

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02.04.2022 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
271. REFLEXÃO PARA O 5º DOMINGO DA QUARESMA – Jo 8,1-11 – Ano C
Neste quinto domingo da Quaresma, a liturgia interrompe a leitura do Evangelho de Lucas, que fora utilizado nos quatro primeiros domingos, e propõe uma passagem do Quarto Evangelho: João 8,1-11. Trata-se do famoso episódio da “mulher adúltera”, um texto bastante rico e precioso, que teve uma história bastante turbulenta, desde as suas origens. Sobre isso, acenaremos brevemente, apenas a nível de contexto. Dando continuidade à temática central da espiritualidade quaresmal – o convite à conversão e a necessidade da mesma –, é importante perceber a dinâmica e a pedagogia de Jesus: ele não faz esse convite à partir de ameaças e ordens, mas revelando com clareza a misericórdia e o amor de Deus, através de palavras e atitudes. No domingo passado, essa misericórdia foi apresentada de maneira ilustrada, através da parábola do pai misericordioso e os dois filhos (cf. Lc 15,11-32). Hoje, a liturgia dá um passo a mais e mostra Jesus revelando a sua misericórdia, que é a mesma de Deus-Pai, na prática, com um gesto concreto, salvando uma mulher flagrada em adultério e prestes a ser apedrejada. Isso dá credibilidade ao seu ensinamento, pois mostra que ele viveu e praticou tudo o que ensinou.

É importante fazer algumas observações a nível de contexto, antes de explorar o texto propriamente. E começamos recordando o amplo debate criado ao longo da história da interpretação, sobre a origem e a posição deste episódio no Evangelho de João. Nos quatro primeiros séculos, esse texto foi omitido, por ser considerado muito perigoso, certamente por ser considerado “perigoso”, pois apresenta Jesus “tolerante” demais com o pecado. De fato, nas cópias mais antigas do Quarto Evangelho não consta esta passagem. Ora, o adultério era considerado um dos pecados mais abomináveis, tanto no judaísmo quanto no cristianismo das origens, sobretudo logo após os processos de institucionalização, e quando ainda tinha a estrutura da sinagoga como parâmetro. Na maioria das vezes, o perdão não era concedido às mulheres que praticavam o adultério; os homens, sempre conseguiam uma saída, devido à cultura machista tão entranhada na sociedade e respaldada pela religião. Por isso, imaginavam não ser prudente mostrar Jesus perdoando esse tipo de pecado, o que levou este texto a ser, de certo modo, censurado.

O perdão de Jesus a uma mulher adúltera poderia ser visto como um incentivo a essa prática e uma relativização do pecado, segundo a mentalidade das lideranças da Igreja recém institucionalizada. Por sinal, tais lideranças eram figuras masculinas, o que contribuía ainda mais para a marginalização da mulher. A pesquisa exegética das últimas décadas concluiu que, nos primeiros séculos, esse texto circulava como uma página isolada, e poucas pessoas tinham acesso a ele. Quando as comunidades chegaram à conclusão de que não poderiam mais escondê-lo, o colocaram no Evangelho de João, o último dos quatro a ser considerado canônico, já no quarto século, embora tudo indique que se trate de um texto originalmente de Lucas. Diversos fatores contribuem para isso, principalmente o fato de ser Lucas o evangelho da misericórdia, por excelência, e aquele que mais valoriza e defende a figura da mulher. Além disso, o próprio vocabulário do texto se aproxima mais do estilo de Lucas do que de João. A localização original mais provável, portanto, é logo após Lc 21,37-38, onde se diz que “Durante o dia ele ensinava no templo, mas à noite saía e pernoitva no chamado monte das Oliveiras. De manhã cedo, todo o povo ia até ele, no templo, para ouvi-lo”. Porém, como nos foi transmitido no Evangelho de João, é a partir dele que devemos lê-lo.

Conforme a localização do texto no Evangelho de João, Jesus se encontrava em Jerusalém, participando de uma das grandes festas dos judeus, a festa das tendas (cf. Jo 7,2.14.37; 8,2). Essa era uma das maiores festas de Israel, com duração de uma semana. Durante o dia, ensinava no templo, e à noite se retirava para dormir fora da cidade, como diz o texto logo no primeiro versículo: “Jesus foi para o monte das Oliveiras” (v. 1). No dia seguinte, “De madrugada, voltou de novo ao templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los” (v. 2). A madrugada significa o rompimento das trevas, a aurora de um novo dia; nos evangelhos, essa expressão é um dado teológico, muito mais do que cronológico; é sempre um aceno à ressurreição; é o momento em que as mulheres descobrirão o sepulcro vazio, no domingo da ressurreição (cf. Lc 24,1); portanto, o episódio que a liturgia propõe hoje é uma cena de ressurreição, é um texto pascal: a mulher flagrada em adultério, prestes a ser apedrejada, faz uma experiência de vida nova ao ser confrontada com a misericórdia, o perdão e o amor de Jesus.

Durante as festas, iam pessoas de todas as partes da Palestina para Jerusalém; era uma oportunidade para os pregadores itinerantes apresentarem suas doutrinas e versões na interpretação da Lei; esses se espalhavam pelos vastos átrios do templo, e os peregrinos iam se amontoando em círculos ao redor deles, conforme a curiosidade e a eloquência de cada pregador. Como a pregação de Jesus era sempre polêmica e crítica, talvez conseguisse juntar mais ouvintes do que outros pregadores, pois ele não tinha medo de desmascarar a hipocrisia dos dirigentes, principalmente as autoridades religiosas da época. Ele dizia o que muita gente queria dizer, mas não dizia por medo de repressão. Isso, obviamente, fazia também com que as autoridades lhe vissem como suspeito, aumentando a vigilância sobre ele.

Enquanto ensina, Jesus é repentinamente interrompido: “os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles” (v. 3). Os sujeitos da ação são os tradicionais adversários de Jesus: mestres da Lei e fariseus, os fiéis observadores dos preceitos da Lei em seus mínimos detalhes, os mesmos que no domingo passado tinham criticado Jesus por acolher e comer com os pecadores (cf. Lc 15,2). Esses dois grupos são a síntese do fechamento e do conservadorismo na época de Jesus; pregavam um Deus punitivo, exigente, vingativo e, por isso, se escandalizavam com o Deus amoroso de Jesus. Ao colocarem a mulher no centro, eles a expõem à máxima humilhação. No Antigo Testamento, o adultério foi usado como sinônimo de idolatria, o principal pecado de Israel. Por isso, a lei era tão rigorosa com esse tipo de pecado. Na época de Jesus o adultério estava entre os piores pecados, comparável ao assassinato. Como os casamentos eram verdadeiros negócios, decididos pelos pais, às vezes os noivos só se conheciam no dia do próprio casamento, isso tornava o adultério uma prática bastante comum, embora perigosa, pois as relações não eram motivadas pelo amor, mas pelos interesses econômicos das famílias; por isso, havia muita vigilância, principalmente, sobre as mulheres.

Como representantes de uma religião severa e excludente, os mestres da Lei e os fariseus expõem somente a mulher. Eles tinham clareza do que a Lei prescrevia, mas pedem uma pena parcial, expondo e ridicularizando a mulher, e silenciando sobre o homem que, certamente, fora flagrado junto. Aqui, essa mulher é imagem de todas categorias de marginalizados e marginalizadas, por quem Jesus toma partido. Eles conheciam a sentença prevista: “Disseram a Jesus: Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés, na Lei, mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?”  (vv. 4-5). De acordo com a lei, o apedrejamento era a pena para o adultério quando o casamento ainda estava na primeira fase, a da promessa; porém, essa pena era prevista também para o homem envolvido na relação (cf. Dt 22,23-24). O fato de somente a mulher ser acusada e exposta revela o machismo entranhado na sociedade e na religião. O homem, provavelmente considerado um “cidadão de bem”, não é sequer mencionado.

Como diz o próprio texto, o que os mestres da Lei e os fariseus queriam era colocar Jesus em situação embaraçante, pondo-o à prova (cf. v. 6a): se ele autorizasse o apedrejamento, estaria negando o seu lado misericordioso e contradizendo a sua pregação até então; se negasse o apedrejamento, estaria transgredindo a Lei de Moisés. Conhecedor das intenções dos seus adversários, Jesus simplesmente os ignora, com a sua típica ironia: “Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão” (v. 6). Sobre esse gesto inusitado, foram levantadas diversas hipóteses sobre o que Jesus escreveu no chão, algumas até folclóricas. São Jerônimo, por exemplo, acreditava que Jesus escreveu os pecados dos acusadores que estavam com pedras na mão, para deixá-los envergonhados e constrangidos. Ora, se estavam no interior do templo, o piso ali não era de barro ou areia, mas de pedras; logo, não tinha como escrever nada ali. Portanto, qualquer hipótese sobre o conteúdo que Jesus escreveu nessa cena, carece de fundamento e de sentido. O gesto de Jesus é, além de irônico, denunciador. Ele olha para o chão por indiferença aos seus acusadores, enquanto pensa na atitude e na resposta adequada que dará. Não escreve nada, apenas simula uma escritura em pedra denunciando a rigidez da Lei por eles observada: uma lei escrita em tábuas de pedra, inflexível e dura como eram os corações deles.

Com a sua ironia e indiferença, Jesus deixava seus interlocutores impacientes: “Como persistiam em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: ‘Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra” (v. 7). Ao levantar-se para responder, Jesus dá um tom de solenidade à situação e, finalmente, chama para si a responsabilidade. Tendo pensado por um tempo, sua resposta é surpreendente: não toma posição sobre o caso propriamente, não discute o pecado da mulher, mas convida cada um a olhar para si próprio, apelando para o tribunal da consciência: “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Com essa proposta, Jesus desmascara e desarma os acusadores da mulher, e os falsos moralistas de todos os tempos. É uma resposta que não necessita de contrarresposta nem de novas perguntas, mas apenas da coragem de cada um olhar para si, para sua consciência. Certamente, deixou a todos em silêncio e pensativos, admirados e sem reação. Por isso, Jesus repete a ironia “E, tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão” (v. 8). Na primeira vez, simulou a escritura no chão enquanto ele mesmo pensava na sua resposta; dessa vez, faz a simulação enquanto aguarda uma atitude ou resposta dos acusadores.

Envergonhados, certamente, “eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo” (v. 9). É interessante perceber a reviravolta na história: o objetivo dos mestres da Lei e fariseus era colocar Jesus em situação constrangedora, “num beco sem saída”; as coisas se inverteram e foram eles que ficaram embaraçados, em situação desconfortável. É provável que tenham saído ainda mais furiosos com Jesus, mas também a eles foi dirigido um convite à conversão. Jesus não os condenou; esse detalhe é importante que seja bem recordado. Jesus deu aos seus ferrenhos adversários uma oportunidade de conversão, convidou-os a um exame sincero de consciência. Não sabemos se houve conversão da parte deles, mas é possível identificar pelo menos dois sinais importantes: a vida da mulher foi poupada, e cada um reconheceu ser pecador, uma vez que nenhum atirou a pedra.  

Percebendo que todos os acusadores saíram, em silêncio, no meio do povo que escutava seu ensinamento antes da interrupção, “Jesus se levantou e disse: ‘Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?’. Ela respondeu: Ninguém, Senhor. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais” (vv. 10-11). É a primeira vez que a mulher acusada tem oportunidade de falar, e é Jesus quem lhe dá essa oportunidade. Essa voz da mulher é a sua própria vida recuperada. Jesus sabia que ninguém a tinha condenado; faz a pergunta apenas para torná-la protagonista. Todo ser humano tem direito e liberdade de expressão. Toda voz deve ser ouvida. Diante da fúria dos acusadores, essa mulher sentiu-se morta, com suas horas contadas. Diante de Jesus, ela se sente uma pessoa digna, pois sabe que tem quem lhe escute.

As palavras finais de Jesus constituem o ápice da cena e o motivo para esse texto ter sido considerado tão perigoso: “Eu também não te condeno”. Para uma religião segregadora, excludente e moralista, um Deus que não condena se torna um perigo e um problema, pois tira também da religião o direito de condenar. Não dá para pregar o Deus de Jesus fazendo ameaças, nem promovendo a violência ou destilando ódio. Para a religião praticada e proposta por Jesus, essa é uma das páginas mais consoladoras. Mais uma vez, se repete o esquema da parábola do pai misericordioso e os dois filhos: assim como o Pai não condenou o filho, Jesus não condena a mulher; a conversão vem depois: “vai e não voltes a pecar!”; não se trata de uma ordem ou imposição, mas de um encorajamento. Tendo se sentido acolhida e compreendida, talvez pela primeira vez em sua vida, é quase certeza que aquela mulher se converteu.

Sem realizar nenhum sinal extraordinário, Jesus salvou uma vida. Apenas falando, Jesus fez aquela mulher passar da morte à vida; da fúria dos acusadores à ternura de Deus. O impacto da palavra de Jesus transforma situações. É essa Palavra que precisa ser ouvida, substituindo regras e preceitos, para mudar todas as estruturas perversas que impedem o triunfo da vida digna. Por isso, como afirmamos no início, o evangelho de hoje é uma cena de ressurreição, é um texto pascal. Que todas as comunidades possam, festivamente, celebrar a alegria de conhecer um Deus que não condena ninguém!
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