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236. Reflexão para o 28° Domingo do Tempo Comum – Mc 10,17-32 (Ano B)

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09.10.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
236. Reflexão para o 28° Domingo do Tempo Comum – Mc 10,17-32 (Ano B)
Na liturgia deste vigésimo oitavo domingo do tempo comum, continuamos a leitura sequenciada do Evangelho de Marcos. Inclusive, o texto de hoje – Mc 10,17-30 – é a continuação imediata daquele do domingo passado (Mc 10,2-16). Obviamente, o contexto continua sendo o mesmo: o caminho de Jesus em direção à cidade de Jerusalém, com seus discípulos, que culminará com os eventos de sua paixão, morte e ressurreição. Durante esse percurso, que é mais teológico do que geográfico, Jesus é interrompido diversas vezes, por várias categorias de interlocutores, que lhe fazem perguntas relevantes sobre a natureza e as condições para o discipulado, e sobre as características do Reino de Deus e os critérios para desse fazer parte. Jesus é questionado, tanto por personagens externos, quanto pelos discípulos. No episódio do domingo passado, ele tinha sido interrompido por alguns fariseus, que lhe interrogaram sobre a legitimidade do divórcio (Mc 10,2-16). Após respondê-los, Jesus aprofundou o ensinamento para os discípulos. No texto de hoje, embora o tema seja diferente, o esquema é o mesmo: Jesus é questionado por um personagem externo, com quem interage e, em seguida, pelos próprios discípulos. Trata-se de um episódio comum aos três evangélicos sinóticos (Mt 19,16-29; Mc 10,17-30; Lc 18,18-30), sendo que a versão de Marcos é a mais rica, por ser a mais original, embora a de Mateus tenha se tornado mais conhecida.

O texto inicia afirmando que “Quando Jesus saiu a caminhar, veio alguém correndo, ajoelhou-se diante dele e perguntou: “Bom Mestre, que devo fazer para ganhar a vida eterna?” (v. 17). Após uma pausa, o caminho foi retomado. É importante recordar que a estrada (ou o caminho) é um espaço privilegiado para o ensinamento, em uma comunidade itinerante como a de Jesus e seus discípulos. Além de expressar a carência de estruturas fixas, o caminho expressa também o aspecto dinâmico, aberto e missionário da comunidade. No caminho, Jesus e a comunidade estão expostos, qualquer pessoa pode interagir e questionar, como fez esse “alguém” que, veio correndo ao seu encontro e ajoelhou-se. Esse personagem é totalmente desconhecido, anônimo. O texto revela se tratar de alguém muito necessitado de sentido para a vida, alguém inquieto. Tanto é que vai correndo ao encontro de Jesus; quer dizer que tem pressa de encontrar-se com ele.

Com a pressa para encontrar-se com Jesus, o rico anônimo demonstra reconhecer nele a fonte de sentido para a vida, ao mesmo tempo em que percebe a insuficiência da sua prática religiosa até então. Essa necessidade e reconhecimento se tornam ainda mais evidentes com a sua segunda atitude: ajoelhou-se diante de Jesus. Até então, somente um personagem tinha se ajoelhado aos pés de Jesus, no Evangelho de Marcos: um leproso, ao suplicar-lhe a cura (Mc 1,40). Com isso, o evangelista ensina que a riqueza em excesso é um mal tão grave quanto a pior das enfermidades: a lepra. A pergunta feita pelo homem deixa claro que ele sentia necessidade de algo. Apesar dos muitos bens que possuía, como mostra a continuidade texto, ele não era uma pessoa realizada. A vida eterna, aqui, mais do que uma vida pós-morte, significa o sentido desta vida terrena. Quem encontra sentido para a vida aqui, eterniza a sua existência: essa vida se torna indestrutível, mesmo com a morte.

Conhecedor de Deus, o seu Pai, Jesus responde que “Só Deus é bom, e mais ninguém” (v. 18). De fato, a bondade era um atributo de Deus e, consequentemente, da sua obra (Gn 1,4.10.12.18, etc.). Jesus não se deixa levar por elogios, e recorda o que era exigido pelo judaísmo para viver bem: “Tu conheces os mandamentos: não matarás; não cometerás adultério; não roubarás; não levantarás falso testemunho; não prejudicarás ninguém; honra teu pai e tua mãe” (v. 19). Para o judeu, o sentido da vida consistia na observância da lei. Jesus e o evangelista propõem a superação dessa mentalidade; já não basta observar e cumprir os mandamentos; é necessário algo a mais. Os mandamentos não são ruins, mas não são suficientes. É importante observar quais os mandamentos que Jesus recorda: aqueles que dizem respeito ao modo de relacionar-se com o próximo. O primeiro mandamento – amar a Deus sobre todas as coisas – nem sequer é mencionado por Jesus, porque ele compreende que se não há respeito à dignidade do próximo e o reconhecimento dos direitos humanos, o amor e o culto a Deus são falsos, não passa de demagogia. Não há culto agradável a Deus se o ser humano não é respeitado em sua condição e dignidade. Por isso, ele apresenta os mandamentos que dizem respeito à relação com o próximo como ponto de partida para o sentido da vida. É preciso recordar sempre: Jesus não absolutiza os mandamentos, mas os apresenta aqueles que colocam o bem do próximo no centro como ponto de partida para uma vida autêntica.

Com a resposta do homem a Jesus – “Mestre, tudo isso tenho observado desde a minha juventude” (v. 20) – percebemos tratar-se já de uma pessoa madura, e não mais de um jovem, como aparece na versão de Mateus. Portanto, para as versões de Marcos e de Lucas é incorreto chamar esse texto de episódio do “jovem rico”. Nesta fala do homem, percebe-se um certo cansaço na observação da lei. É como se ele cultivasse algo há bastante tempo, e não colhesse os frutos desejados. É importante observar a atitude de Jesus e a sua proposta: “Jesus olhou para ele com amor, e disse: ‘Só uma coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu. Depois vem e segue-me” (v. 21). Essa é a única vez que o Evangelho de Marcos afirma que Jesus amou uma pessoa em particular. É claro que Ele ama sempre e ama a todas as pessoas, indistintamente, mas somente aqui o evangelista enfatizou. E amou olhando o homem profundamente, olho no olho. O amor gera relações fraternas e sinceras, e a falta de correspondência no amor não faz Jesus amar menos. É amando que Jesus revela a incompletude do ser humano, ao dizer que faltava algo, uma coisa que, na verdade, era tudo: livrar-se do seu mal – equivalente à uma lepra: vender, dar aos pobres e segui-lo. De fato, dizer “uma só coisa te falta”, não significa que falta uma coisa a mais na vida daquele homem, mas que faltava o que é essencial, o indispensável.

A lógica do Reino contraria à lógica humana: o homem foi a Jesus para pedir, para ter algo – a vida eterna –, Jesus diz que ele deve dar; foi pedir sentido para a vida, Jesus pede para livrar-se do que estava lhe tirando esse sentido: a riqueza, a posse dos bens e o apego a esses. Isso mostra a insuficiência da ética dos mandamentos e a necessidade de superá-la. É importante notar a sequência das atitudes necessárias para dar sentido à existência, conforme a resposta de Jesus ao homem rico: vender, dar aos pobres e segui-lo. Como se vê, a opção pelos pobres é condição para um seguimento autêntico de Jesus. Não bastaria ao homem vender os bens; se bastasse vender, ele poderia fazê-lo para depositar ou reter o dinheiro para si, poderia doar para familiares ou até compartilhar com o grupo que já estava no seguimento de Jesus. Mas Jesus diz que era necessário vender e dar aos pobres. Aqui, os pobres (em grego: πτωχός – ptokós) se tornam a categoria privilegiada de mediação entre Jesus e seus seguidores. Dar aos pobres é a única forma autêntica de partilha, de doação. É o gesto de gratuidade e desapego, por excelência, porque é a certeza de que não se receberá nada em troca. Como era muito rico, a reação do homem foi de tristeza: saiu abatido (v. 22), porque não estava preparado para assimilar a lógica do Reino.

Do confronto com um personagem externo, Jesus se volta para o interno da comunidade (v. 23), ou seja, para os discípulos que também necessitavam assimilar, ainda mais, a lógica do Reino: “Os discípulos se admiravam com estas palavras, mas ele disse de novo: ‘Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!” (v. 24). Da admiração dos discípulos, Jesus aproveita para aprofundar a catequese. Nos evangelhos, a insistência sobre um mesmo argumento revela a sua importância. Entrar no Reino de Deus é difícil, realmente, porque não há como critérios méritos pessoais, mas uma adesão incondicional à pessoa de Jesus e sua mensagem. Esse Reino não é a vida futura, mas este mundo concreto, organizado segundo a vontade de Deus, marcado por justiça, amor, solidariedade, fraternidade e igualdade. Aceitar e aderir a essa dinâmica é mais difícil para os ricos (v. 23), mas não é fácil para ninguém (v. 24), pois exige uma conversão profunda, ou seja, uma mudança de mentalidade. Também os discípulos, ao longo do caminho, mostravam dificuldades em aderir plenamente, à medida em que alimentavam expectativas de poder e praticavam atos que distorciam o que Jesus lhes ensinava: praticavam proselitismo (Mc 9,38-40), alimentavam rivalidades entre si (Mc 9,33-37), impediam as crianças de se aproximarem de Jesus (Mc 10,13-16), desejavam sucesso (Mc 10,35-40), etc.

Na continuidade, com um provérbio hiperbólico, Jesus enfatiza a dificuldade para os ricos assimilarem a lógica do Reino: “É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Muitas tentativas de explicação já surgiram para suavizar a dureza dessa afirmação: algumas afirmavam que o “camelo”, aqui, seria um tipo de corda grossa, outras que o “buraco da agulha” era uma porta estreita num muro de Jerusalém, pela qual um camelo não conseguiria passar. Aceitar e alimentar tais interpretações é ignorar a radicalidade do Evangelho. Se trata de uma hipérbole, algo bem característico da linguagem de Jesus e do evangelista Marcos. Aqui, o camelo é mesmo o animal, e o buraco é mesmo de uma agulha normal. Ainda hoje existem perspectivas suavizadoras de interpretação, tanto para esta quanto para outras afirmações impactantes de Jesus. É claro que, com uma afirmação dessas, os discípulos ficaram ainda mais perplexos, como mostra o texto: “Eles ficaram muito espantados ao ouvirem isso, e perguntavam uns aos outros: ‘Então, quem pode ser salvo?” (v. 26). Essa admiração é compreensível, porque, conforme a mentalidade da época, as riquezas eram sinônimo de bênção de Deus.

Vivia-se a religião dos méritos e uma “teologia da prosperidade”; quanto mais uma pessoa fosse rica, mais era considerada abençoada por Deus. Por isso, a admiração. Em outras palavras, é como se os discípulos dissessem: “se um rico não se salva, ninguém mais pode se salvar”. Ora, eles compartilhavam a mentalidade corrente, tinham sido educados segundo a lógica do acúmulo e da busca por poder, alimentados pela religião. Jesus tenta desconstruir essa mentalidade, mostrando o contrário. Por isso, os tranquiliza, dizendo: “Para os homens isso é impossível, mas não para Deus. Para Deus tudo é possível” (v. 27). De fato, a história da salvação é marcada por diversos acontecimentos impossíveis, aparentemente, que se tornaram possíveis com a graça de Deus: a gravidez de Sara, já estéril (Gn 18,14), a gravidez de Isabel, também estéril (Lc 1,37) e de Maria, virgem (Lc 1,37). A dificuldade da salvação para os ricos consiste na dificuldade que eles têm de assimilar a lógica do Reino, abrindo mão do que possuem e distribuindo aos mais necessitados, os pobres; isso é difícil sim, mas não impossível.

Mais uma vez, Pedro fala em nome do grupo, inquieto com as exigências do Reino e com as renúncias que já tinha feito até então: “Pedro então começou a dizer-lhe: ‘Eis que nós deixamos tudo e te seguimos’” (v. 28). Parece oportunismo dos discípulos, expresso nas palavras de Pedro. Jesus sabia e conhecia o que eles já tinham deixado. Porém, responde de modo solene, a fim de encorajá-los a continuar no seguimento: “Em verdade vos digo, quem tiver deixado casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos, por causa de mim e do Evangelho, receberá cem vezes mais agora, durante esta vida – casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos, com perseguições – e, no futuro, a vida eterna” (vv. 29-30). À medida em que as exigências aumentavam, havia na comunidade uma tendência ao desânimo e, até mesmo, à desistência. Contudo, Jesus não promete prêmios, nem recompensa, mas garante sentido para a existência. Não obstante as perseguições, para os seguidores e seguidoras de Jesus é assegurada uma vida fraterna, uma vida comunitária real, desde que aceitem a lógica do Reino, com as renúncias devidas. Aqui, Jesus faz um convite à confiança na providência: quem deixa tudo por causa do Evangelho, não sente falta de nada. Por isso, Ele repete as mesmas coisas que devem ser deixadas como as mesmas que serão recebidas.

Para quem entrar na dinâmica do Reino, tudo é ressignificado. “Casa, irmãos, irmãs, mães, filhos e campos”, como recompensa, não são posses, mas sinais de uma comunidade unida e perseverante, e frutos da partilha. É um ideal de vida que renasce. A comunidade que vive, de fato, o espírito da partilha, tem tudo o que é necessário, sem supérfluos, e se sustenta em relações fraternas. Porém, só recebe quem, antes, dá; quem deixa para trás o que tem e se aventura na dinâmica do Reino para herdar, com perseguição, o que dá sentido à vida. Quem aceita essa dinâmica, tem a sua vida eternizada.