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234. Reflexão para o 26° Domingo do Tempo Comum – Mc 9,38-43.45.47-48 (Ano B)

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25.09.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
234. Reflexão para o 26° Domingo do Tempo Comum – Mc 9,38-43.45.47-48 (Ano B)
O evangelho deste vigésimo sexto domingo do tempo comum – Mc 9,38-43.45.47-48 – é a continuidade daquele refletido no domingo passado (Mc 9,30-37), e apresenta mais uma atitude de incoerência dos discípulos, seguida da correção e catequese de Jesus. O contexto geral é o do caminho decisivo de Jesus com os discípulos para Jerusalém, que culminará com os eventos da paixão, morte e ressurreição. Com muita clareza, o evangelista Marcos diz que, mesmo estando próximos a Jesus, os discípulos se tornam, nesse itinerário, seus verdadeiros opositores, com um comportamento oposto ao que o Mestre ensinava. Embora Jesus já tenha, nesse contexto, feito dois anúncios explícitos da sua paixão (Mc 8,31-33; 9,30-32), os discípulos continuam ignorando, preferindo alimentar seus próprios anseios de grandeza, poder e exclusivismo, colocando-se, assim, em oposição a Jesus.

As principas incoerências dos discípulos denunciadas no evangelho de hoje é o exclusivismo, a intolerância, a tendência ao fechamento e fanatismo, expressos na atitude e na fala do apóstolo João: “Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome. Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue” (v. 38). É importante recordar que, no momento da formação do grupo dos Doze, João e seu irmão Tiago receberam o nome de Boanerges, que significa “filhos do trovão” (cf. Mc 3,17), em alusão ao temperamento difícil dos dois. Ambos se destacavam pela arrogância, intolerância e ambição. Além do episódio de hoje, os evangelhos mostram mais duas ocasiões em que se evidenciam as características negativas dos filhos de Zebedeu: quando pedem a Jesus para ocuparem os primeiros lugares no reino, sentando-se um à direita e outro à esquerda (cf. Mc 10,35-40), e quando queriam eliminar os samaritanos de um povoado com fogo, somente porque não os acolheram (cf. Lc 9,51-55). Juntamente com Pedro, João e Tiago eram os discípulos mais difíceis de lidar no grupo; por isso, quando Jesus ficava somente com eles, como no episódio da transfiguração (cf. Mc 9,2-8; Mt 17,1-8; Lc 9,28-36), não se tratava de privilégio, mas de necessidade. Pelo comportamento e temperamento, ambos necessitavam de uma catequese mais intensa.

A atividade de “expulsar demônios” nos evangelhos, e principalmente em Marcos, significa a promoção da liberdade e da dignidade das pessoas. É abrir as portas do Reino de Deus, tornando-o acessível a todas as pessoas. É a difusão da boa nova que transforma vidas, rompendo com as estruturas de morte e opressão vigentes em qualquer sistema. Uma atividade assim, de promoção plena do bem das pessoas, não pode ser estranha ao programa e à mensagem de Jesus, independentemente de pertença ou não a algum grupo ou movimento. Quem faz o bem ao próximo, está em sintonia Deus. Ao afirmar que o homem estava “expulsando demônios em nome de Jesus”, o evangelista evidencia que ele estava em sintonia e comunhão plena com Jesus, mesmo sem pertencer ao grupo dos Doze, e nem os seguir. A proibição imposta por João denuncia o fechamento e o fanatismo dos discípulos. Uma atitude dessas coloca em risco a eficácia e a credibilidade do Evangelho.

É importante recordar que o evangelista faz memória do episódio pensando na sua comunidade e nas comunidades futuras. Ora, na época da escrita do evangelho, as comunidades passavam por grandes transformações, vivendo novas experiências de organização, à medida em que cresciam e novas gerações eram formadas. Com isso, havia uma forte tendência à hierarquização. As lideranças queriam monopolizar o “nome de Jesus”. Por isso, o evangelista faz a advertência, ensinando que nenhuma pessoa e nenhuma instituição podem controlar o nome de Jesus, pois sua mensagem libertadora é universal, visa a humanização de todo o mundo. E é o próprio Jesus quem não aceita ser controlado por ninguém. É normal e necessário que as comunidades se organizem, que tenham lideranças, mas com a clara consciência de que o “nome de Jesus” extrapola os limites de qualquer igreja, grupo ou movimento.

A reação de Jesus é, portanto, de clara reprovação à atitude dos discípulos liderados por João: “Não o proibais, pois ninguém faz milagres em meu nome para depois falar mal de mim. Quem não é contra nós é a nosso favor” (vv. 39-40). Ora, fazer qualquer coisa em nome de Jesus, como expulsar demônios e outros tipos de milagres, significa, na linguagem do evangelista, estar em plena sintonia com ele; só faz isso quem reconhece a sua autoridade e conduz a vida de acordo com o Evangelho. Ninguém pode ser impedido de fazer o bem. Ora, proibir alguém de agir em nome de Jesus é querer aprisionar a sua mensagem e delimitar a ação do Espírito Santo, o que é impossível. Dos discípulos, exige-se abertura, compreensão e consciência de que a mensagem do Evangelho não é propriedade, mas dom acessível a quem tem sede de justiça e de amor. Com um simples provérbio, Jesus fecha a questão: “Quem não é contra nós é a nosso favor”. Ser contra, significa optar pelo mal e fechar-se aos valores do Reino; quem não faz isso, já está, consequentemente, a favor e, portanto, apto a agir em seu nome, independentemente de pertencer ou não a algum grupo religioso.

Como sempre, as repreensões de Jesus aos discípulos são seguidas de catequeses mais aprofundadas e práticas: “Em verdade eu vos digo: quem vos der a beber um copo de água, porque sois de Cristo, não ficará sem receber a sua recompensa” (v. 41). Embora seja um gesto, aparentemente, simples, dar um copo de água era, na cultura semita, uma das maiores demonstrações de hospitalidade e acolhida. A recompensa, aqui, não significa um prêmio no futuro, mas a pertença a Jesus e sua comunidade; é a comunhão com ele. Essa pertença não depende de discursos ou formulações doutrinárias, mas de gestos e atitudes que revelem amor e justiça, como dar um simples copo de água a uma pessoa sedenta. O que importa, de acordo com o evangelista, é que tudo seja feito em “nome de Jesus”, ou seja, em comunhão com ele, motivado pelo seu amor. Aqui, o ensinamento é dirigido exclusivamente aos discípulos: eles não devem esperar muita coisa, nem grandes adesões; basta um simples gesto de reconhecimento da pertença a Cristo, para que os destinatários sejam recompensados, ou seja, entrem em comunhão com sua vida.

Na sequência, a catequese é continuada com a retomada da importância dos “pequeninos” para o Reino de Deus, já introduzida no domingo passado com o exemplo da criança: “E, se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço” (v. 42). Escandalizar, aqui, é criar obstáculo ou impedimento à fé e à vida digna. Os maiores exemplos de escândalo numa comunidade são: autoritarismo, ambição, fanatismo, intolerância e indiferença aos “pequeninos”. O termo “Pequeninos” é a síntese de todas as categorias de pessoas vulneráveis e historicamente excluídas: pobres, mulheres, pecadores, enfermos, etc. Quando os membros da comunidade cristã são motivos de escândalo para essas pessoas, isto é, quando não favorecem a acolhida e a inclusão, Jesus reprova e adverte severamente. Por sinal, os evangelhos mostram que Jesus tolerava muitas incoerências nos seus discípulos. Ele conhecia perfeitamente os limites da condição humana. A única a única coisa que ele não tolerava era a indiferença e o desprezo aos pequeninos, os seus prediletos. A sorte de quem os rejeita é trágica. Por isso, emprega uma linguagem bastante severa para denunciar e advertir os seus discípulos e, sobretudo, para motivá-los a manter os “pequeninos” como prioridade na comunidade.

Para a mentalidade semita, ser jogado no mar com uma grande pedra amarrada ao pescoço era a certeza de que esse corpo jamais seria resgatado; assim, não poderia receber uma sepultura digna e, consequentemente, não teria sequer direito à ressurreição dos mortos no último dia, como acreditavam os judeus. Esse destino exclui qualquer possibilidade de salvação. O mar era símbolo do caos, a morada do mal. Por isso, dentre as tantas possibilidades de morte, a mais temida pelos judeus era o afogamento no mar, pois significava ser engolido pelo mal. Jesus emprega a imagem para mostrar a gravidade do “escândalo aos pequeninos”. A chamada de atenção aos discípulos continua com a demonstração de certas ocasiões, através dos principais membros do corpo, que podem levar os discípulos a causarem “escândalo” aos pequeninos. A mão, o pé e o olho (vv. 43-47) eram considerados os membros do corpo responsáveis pelo bom ou mau comportamento das pessoas, segundo a mentalidade semita. Eram, portanto, os membros essenciais. As mãos, representam todo o agir da pessoa; quando a pessoa não age conforme o Evangelho, é melhor não as ter, conforme essa mentalidade. Os pés representam a conduta, podendo levar a pessoa por caminhos justos e injustos; é melhor não ter pé do que andar por caminhos errados. O olho, como “lâmpada do corpo” (cf. Mt 6,22) é a porta de entrada dos sentimentos e desejos alimentados no coração da pessoa. Tudo o que é processado no coração, sentimentos bons e maus, passa pelo olho. Diante disso, se tais membros, que são os essenciais para a vida de uma pessoa, forem usados para o mal, é melhor o ser humano privar-se deles.

É claro que, com o uso destas imagens tao fortes, Jesus não recomenda a amputação de membros do corpo, mas adverte que a vida não tem sentido se não for toda voltada para o bem, sobretudo o bem dos pequeninos, as pessoas mais necessitadas. Também não está apontando o destino futuro, nem descrevendo a vida “pós-morte”. Porém, não vale a pena ter um corpo são e uma vida perdida, sem sentido, o que corresponde ao ser jogado no “fogo que não se apaga”. Essa expressão funciona como explicação para o termo grego que o lecionário traduz por inferno. Porém, é uma tradução insuficiente. O texto original não fala de inferno, mas de “geena” (em grego: γέεννα - geena). É uma palavra estranha, mas poderia ser mantida, já que o próprio texto fornece a explicação: “fogo que não se apaga”. A “geena” era um vale onde ficava o lixão de Jerusalém; era sinônimo de imundície e de fogo constante. Inclusive, corpos humanos já tinham sido lá sacrificados, em cultos pagãos, por isso, esse local passou a ser símbolo de condenação completa para os judeus. Além do fogo, lá predominava também o mau cheiro constante. Era um símbolo concreto da negação da vida. Por ser depósito de todo o lixo de uma grande cidade, numa época em que o saneamento não era sequer imaginado, todos os tipos de resíduos iam para lá, por isso possuía um “fogo que não se apaga” (v. 48). “Geena” e fogo são, portanto, imagens de uma vida sem sentido. E o que dá sentido à vida é a adesão à pessoa de Jesus, com todas as exigências e consequências que o seu seguimento implica.

Que o evangelho de hoje, portanto, nos ajude na renovação das convicções do seguimento de Jesus. Que imprima em nós cristãos e cristãs um espírito de abertura, tolerância e acolhida, levando-nos a reconhecer que, também em outras experiências há seguimento e presença de Jesus. Onde há fanatismo e intolerância, não há seguimento nem discipulado. O critério de identificação com ele não é um vínculo institucional, mas a prática do bem aos pequeninos.