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219. Reflexão para o 12º Domingo do Tempo Comum – Mc 4,35-41 (Ano B)

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19.06.2021 | 1 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
219. Reflexão para o 12º Domingo do Tempo Comum – Mc 4,35-41 (Ano B)
A liturgia deste décimo segundo domingo do tempo comum prossegue com a leitura contínua do Evangelho segundo Marcos, como é característico do ciclo litúrgico em curso (ano B). O texto lido hoje – Mc 4,35-41 – é precisamente a continuação daquele do domingo passado (cf. Mc 4,26-34). Naquela ocasião, fora lida a parte conclusiva do discurso em parábolas sobre o Reino de Deus em Marcos, que corresponde ao primeiro ensinamento de Jesus após a constituição da sua nova família, composta por todas as pessoas com disposição para fazer a vontade de Deus, tornando-se, por consequência, mãe, irmãos e irmãs suas (cf. Mc 3,35). Ora, no discurso em parábolas, Jesus evidenciou o mistério paradoxal e complexo do Reino; trata-se de uma realidade tímida, a princípio, mas com grande força transformadora, tanto é que a imagem predominante nas parábolas foi a da semente: o discurso começou com a parábola do semeador (cf. Mc 4,3) e terminou com a do grão de mostarda (cf. Mc 4,30).

A adesão ao projeto de Reino apresentado por Jesus, portanto, exige mudança de mentalidade, passando pela ruptura e emancipação das pessoas em relações às estruturas, esquemas e instituições tradicionais, a começar pela família patriarcal e a religião do templo (cf. Mc 3,20-35). O evangelho de hoje mostra um passo importante dessa ruptura: a travessia do lago de Genesaré, chamado pelos evangelistas de mar da Galileia. Trata-se de um texto de grande importância para o conjunto do Evangelho de Marcos, pois inaugura uma nova fase na atuação messiânica de Jesus. É o ponto de partida para a sua missão fora dos limites de Israel, já que a “outra margem” significa o mundo pagão. Além disso, a “tempestade acalmada” inaugura uma série de quatro milagres de Jesus, concluída com a ressurreição da filha de Jairo (cf. Mc 5,21-43), mostrando o centro de todo o seu projeto é o triunfo da vida. Para isso, é necessário vencer todos os obstáculos e impedimentos. Convém recordar, como sempre, que o objetivo do evangelista com o seu relato é ajudar a manter viva a fé de comunidade(s) em crise, seja por perseguição externa, por divisões ou falta de entusiasmo interno.

Feita a contextualização, olhemos para o texto: “Naquele dia, ao cair da tarde, Jesus disse a seus discípulos: “Vamos para a outra margem!” (v. 35). É muito importante quando a versão litúrgica preserva o indicativo temporal do próprio texto, como hoje, o que é raro, sem substituir pela vaga e genérica expressão “naquele tempo”. Portanto, “Aquele dia” foi o dia mesmo do discurso em parábolas, proclamado à beira-mar (cf. Mc 4,1). O cair da tarde significa o início da noite; para a mentalidade semita, é também o início de um novo dia, mas não era o momento ideal para começar uma viagem. Na verdade, era o momento de recolher-se em casa, ainda mais para quem passou o dia inteiro ensinando, como Jesus, e esperar o dia amanhecer para recomeçar as atividades. Porém, Jesus faz o contrário, e convida seus discípulos para uma empreitada desafiadora: “Vamos para a outra margem!”. Já temos, assim, dois sinais de perigo, logo no primeiro versículo: a noite e o mar, imagens que simbolizam trevas e caos, ao mesmo tempo. Certamente, os discípulos pescadores estavam acostumados a essa realidade, mas nem todos eram pescadores. Além disso, a atividade pesqueira exigia familiaridade com o mar, mas não necessariamente a chegada à outra margem.

O mar simboliza o caos, como afirmamos acima. Para a mentalidade bíblica, era o lugar onde residiam as forças do mal. A outra margem significa o mundo pagão, considerado impuro pela religião judaica. Para um judeu devoto, era um mundo a ser evitado, mas é para esse mundo que Jesus convoca seus discípulos a andarem com ele. O que era evitado pela religião da época, torna-se prioridade na missão de Jesus. O mar da Galileia representava, então, uma barreira de separação entre o judaísmo e o mundo pagão, mas quebrar barreiras faz parte da missão de Jesus e da comunidade de seus seguidores e seguidoras. Os discípulos obedeceram: “Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo, assim como estava, na barca. Havia ainda outras barcas com ele” (v. 36). Os discípulos despedem a multidão que tinha se reunido para escutar Jesus, que já se encontrava na barca. Ora, a barca (em grego: πλοῖον – ploion), que tinha servido de púlpito improvisado para Jesus (cf. Mc 4,1), é a outra imagem privilegiada da comunidade cristã no Evangelho de Marcos, junto com a casa. Enquanto a casa simboliza a vida fraterna, a irmandade, a barca simboliza a missão, o sair de si, a disposição e a coragem de correr perigos pelo Reino. Sem essas duas dimensões – irmandade e missão – não existe comunidade cristã.

A passagem para a outra margem não acontece sem riscos e perigos, mas é essencial para a comunidade manter-se fiel aos propósitos de Jesus. As turbulências são inevitáveis, pois essa passagem pressupõe um desestabilizar-se. E é isso o que mostra o texto: “Começou a soprar uma ventania muito forte e as ondas se lançavam dentro da barca, de modo que a barca já começava a se encher” (v. 37). A “ventania muito forte” é a síntese das principais dificuldades da comunidade do evangelista, na época da redação do Evangelho: a perseguição do império romano, sob o reinado de Nero (início dos anos 60 d.C.), a oposição das lideranças do judaísmo, e o medo/comodismo/desânimo dos próprios membros da comunidade. Tudo isso ameaçava a comunidade, tornando-a comparável a uma barca em alto-mar durante uma tempestade. Surpreende que, durante a tempestade, “Jesus estava na parte de trás, dormindo sobre um travesseiro” (v. 38a). Logo, as turbulências da vida, as tempestades pelas quais passa a comunidade cristã não significam ausência de Jesus. O caminhar da Igreja em saída jamais será tranquilo. Pelo contrário, quanto mais a Igreja sair de si mais encontrará oposição e obstáculos, ou seja, ventanias contrárias muito fortes, a começar pelos seus próprios membros que não aceitam passar para as outras margens, onde estão os pobres e as pessoas marginalizadas em todos sentidos.

O sono de Jesus lhe rende uma reprovação pelos discípulos: “Os discípulos o acordaram e disseram: “Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?” (v. 38b). É interessante que, aqui em Marcos, os discípulos não pedem uma intervenção propriamente, mas apenas questionam a aparente indiferença de Jesus; em Mateus e Lucas, por outro lado, eles fazem um pedido explícito de socorro: “Senhor, salva-nos!” (cf. Mt 8,25; Lc 8,24). Ora, o sono de Jesus não significa indiferença diante dos obstáculos vividos pela comunidade, mas sim que esses são inevitáveis. Faz parte da missão mesma a exposição aos perigos. Não há travessia tranquila. As dificuldades só podem ser vencidas se forem enfrentadas. Aos discípulos, estava faltando coragem para enfrentá-la. Essa é a primeira vez que os discípulos chamam Jesus de mestre, no Evangelho de Marcos, um dado bastante significativo. Aos poucos os discípulos iam compreendendo a posição de Jesus na comunidade e na vida de cada um, mas de maneira muito tímida, ainda. Reconhecê-lo como mestre já é um passo, mesmo que a motivação tenha sido a situação desesperadora. Nos momentos mais difíceis da vida, saber com quem se pode contar e a quem se dirigir, já é meio caminho para a resolução.

Diante da pressão dos discípulos, eis que “Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar: “Silêncio! Cala-te!” o vento cessou e houve uma grande calmaria” (v. 39). A intervenção de Jesus se dá unicamente por meio da palavra. O evangelista não relata nenhum gesto, além do levantar-se. A ordem dada é praticamente a mesma quando realiza exorcismos (cf. Mc 1,25). Ao ordenar ao vento, ao mar ou a um espírito impuro que se calem, na verdade Jesus está é advertindo os seus discípulos para que não escutem outras palavras que não sejam as suas. O que fez o vento e o mar silenciarem foi a Palavra de Jesus. A comunidade precisa fazer essa Palavra ressoar no mundo, fazendo calar o mal. É claro que o evangelista está reforçando sua catequese de apresentar Jesus como o Messias, o agente de Deus no mundo para destruir as forças do mal. De fato, no Antigo Testamento a capacidade de acalmar o mar e as tempestades era um sinal do poder de Deus (cf. Sl 89,10; 106,9; Is 51,9-10). Jesus é, portanto, o agente autorizado de Deus para erradicar o mal do mundo e fazer a vida triunfar em plenitude, missão essa compartilhada com seus seguidores e seguidoras de todos os tempos.

Tendo acalmado a tempestade e o mar pela força da sua palavra, Jesus se dirige também aos discípulos em tom de reprovação: “Então Jesus perguntou aos discípulos: “Por que sois tao medrosos? Ainda não tendes fé?” (v. 40). A expressão é muito forte. Inclusive, a tradução mais adequada para o termo grego traduzido por medrosos seria covardes (em grego: δειλοί – deiloi). Ora, os discípulos imaginavam que o seguimento e a fé em Jesus os isentassem dos perigos e dificuldades que a vida e a missão apresentam. Jesus ensina que não; a fé e a confiança na sua Palavra dão forças para superar os obstáculos, ou seja, as tempestades, mas não impedem de enfrentá-las. Por isso, o questionamento tao duro: “ainda não tendes fé?”. Certamente, esse questionamento impactou a comunidade de Marcos. Tanto é que, para amenizar o tom, Mateus trocou “não tendes fé” por “pouca fé” (cf. Mt 8,26). Para Marcos, no entanto, a fé não permite meios termos: ou se tem, ou não se tem. Aqui, é preciso considerar de novo o contexto literário do texto: segue de imediato ao discurso das parábolas do Reino. Os discípulos tinham acabado de ouvir, não apenas as parábolas, mas também as explicações exclusivas que Jesus dava a eles (cf. Mc 4,10). A covardia, portanto, consistia em não levar a sério as palavras de Jesus, e sem a Palavra não há fé.

A conclusão, porém, mostra um avanço importante na fé dos discípulos, o que significa uma adesão progressiva ao projeto de Jesus: “Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros: “Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?” (v. 41). Aqui, já não se trata de medo, propriamente, de modo que o termo mais justo para a tradução seria temor. Trata-se do temor reverencial, a postura adequada do ser humano quando reconhece o agir de Deus. Diferentemente do medo, o temor não é o oposto da fé; ele não paralisa a comunidade. Pelo contrário, o temor instiga o ser humano a fortalecer a fé, tornando-a mais convicta, estimula a pessoa a conhecer melhor a vontade de Deus, à medida em que gera espanto, admiração e curiosidade. Nesta passagem específica, o temor se torna um estímulo para os discípulos buscarem compreender melhor a identidade de Jesus, à medida em que se questionam. Ora, como sabemos, todo o Evangelho de Marcos gira em torno da clássica pergunta “Quem é Jesus?”. E o questionamento final dos discípulos, “Quem é este…?” é uma das variantes dessa pergunta que é constantemente repetida ao longo do Evangelho, tanto por adeptos quanto por opositores ao projeto de Jesus (cf. Mc 1,27; 2,7; 4,41; 6,2.14; 8,27; 11,27; 14,61-62; 15,31-32). A resposta definitiva só será dada no final do livro, por incrível que pareça, por um centurião romano, o qual reconhecerá que Jesus “era mesmo o Filho de Deus” (cf. Mc 15,39).

O evangelho de hoje, portanto, é um convite à Igreja para que assuma cada vez mais a sua identidade missionária, reconhecendo que sua razão de existir consiste em estar sempre em estado de saída, mesmo enfrentando obstáculos. É preciso romper barreiras e alcançar as outras margens, compreendendo todas as periferias, existenciais e geográficas. E isso só é possível superando os medos, saindo do comodismo e, acima de tudo, confiando na força da Palavra de Deus, cuja revelação plena é Jesus de Nazaré com sua vida e missão
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