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193. Reflexão para a Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria – Lc 2,16-21

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31.12.2020 | 8 minutos de leitura
Pe. Francisco Cornélio F. Rodrigues
Evangelho Dominical
193. Reflexão para a Solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria – Lc 2,16-21
Para marcar a conclusão da oitava de natal e o início do novo ano civil, a Igreja celebra a solenidade da Santa Mãe de Deus, Maria, recordando a afirmação do Concílio de Éfeso (ano 431) que a definiu como “Theotókos”, cujo significado literal é geradora de Deus. O objetivo da Igreja com esta festa e com a definição conciliar, no entanto, é afirmar a identidade de Jesus como verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e não necessariamente promover o culto e a devoção a Maria. No ano de 1968, o então papa Paulo VI proclamou o dia primeiro de janeiro também como o Dia Mundial da Paz.

Apenas um versículo separa o texto do evangelho da noite de Natal do indicado para a liturgia de hoje: Lc 2,15. Enquanto na noite de Natal o evangelho foi Lc 2,1-14, na solenidade de hoje o texto proposto é Lc 2,16-21. Por isso, acreditamos que o primeiro passo para uma boa compreensão do evangelho de hoje é recordar o versículo que o antecede: “Quando os anjos os deixaram e foram para o céu, os pastores disseram uns aos outros: ‘Vamos já a Belém para ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer’” (Lc 1,15). Ora, os pastores ficaram maravilhados com a Boa Notícia que o anjo lhes tinha anunciado: um Salvador nasceu para eles (cf. Lc 2,10). Ao anúncio do anjo, seguiu-se o canto da multidão da corte celeste, glorificando a Deus (cf. 2,13-14) diante dos pastores. Portanto, era inevitável a surpresa e a perplexidade nos pobres pastores e, mais ainda, a dúvida, afinal, conforme os parâmetros religiosos da época, eles seriam os últimos a receber uma mensagem do céu, pois pertenciam à categoria das pessoas impuras e desprezíveis da sociedade.

Uma das grandes novidades de Jesus, desde o nascimento, foi contradizer o que a sua religião tinha afirmado sobre o Messias e sobre Deus. Ora, a religião oficial tinha classificado as pessoas como puras e impuras, justas e pecadoras, imaginando que a vinda do Messias seria marcada pelo extermínio das classificadas como impuras e pecadoras, como eram considerados os pastores na época. Ao invés de seguir as determinações da religião, Jesus prefere, desde o início, exatamente as categorias excluídas, contradizendo e frustrando muitas expectativas. É nessa perspectiva que podemos e devemos compreender a reação dos pastores ao anúncio do nascimento de Jesus. A eles, a religião tinha ensinado que estava fora de cogitação a salvação, pois eram gente da pior qualidade e que não observava a Lei. De repente, eles recebem um anúncio de salvação e sentem-se amados por Deus. Perplexos ainda, decidem ir a Belém para conferir e tirar todas as dúvidas (cf. Lc 2,15).

Diante de uma novidade sem precedentes, é impossível esperar, por isso diz os textos que “Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria, José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (v. 16). Merece destaque a expressão adverbial “às pressas”, a qual possui grande relevância no vocabulário da teologia lucana: encontra-se logo após o anúncio do anjo a Maria, introduzindo a visita a Isabel (cf. Lc 1,39), e na ordem de Jesus a Zaqueu, para que desça depressa da árvore, para acolher a salvação em sua casa (cf. Lc 19,5-6). Para Lucas, a salvação é uma Boa Notícia que não pode ser adiada, mas deve ser experimentada sem demora. Tanto quem recebe quanto quem proclama o anúncio da salvação devem ter pressa. No caso dos pastores, mais ainda: como passaram a vida inteira às margens, sofrendo o desprezo e a exclusão, não poderiam mais perder tempo. Para eles e todas as categorias de pessoas marginalizadas, a inclusão tem que ser agora, hoje. Por isso, foram às pressas a Belém.

Se os pastores ficaram surpresos com o anúncio do anjo, talvez tenham ficado mais ainda com o que viram em Belém: “encontraram Maria, José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (v. 16b). Ouviram que tinha nascido para eles um Salvador, e encontram na manjedoura, junto aos pais, uma pequena criança, provavelmente em meio às moscas e esterco de gado, sem nenhum sinal distintivo. Porém, o que encontraram confirmava o que lhes tinha sido anunciado (cf. Lc 2,12). Apesar da inevitável surpresa, veio a consciência da novidade e da nova história que estava começando. Ora, se tivesse nascido um Salvador conforme as expectativas da religião oficial, os pastores não conseguiriam sequer chegar perto, e seriam os últimos a saber. Aos poucos, foram compreendendo que um novo tempo com uma nova ordem estava surgindo, quem estava às margens estava passando para o centro.

Após contemplarem a cena, ainda maravilhados, os pastores “contaram tudo o que lhes fora dito sobre o menino” (v. 17), tornando-se assim, também eles mensageiros de salvação, portadores de Boa Notícia. Contaram que o anjo lhes aparecera anunciando o nascimento do Salvador, e que depois “uma multidão da corte celeste” baixou perto deles glorificando a Deus e anunciando a paz a quem Ele ama (cf. Lc 2,10-14). Contaram coisas maravilhosas, de modo que quem os escutava também se maravilhava, ou seja, ficavam perplexos, admirados, pois, até então, não se tinha notícia de um Deus que fizesse conta de gente pouco importante e sem currículo, como eram eles, conforme os padrões da religião da época.

De todas as pessoas que ouviram o relato dos pastores e ficaram maravilhadas, o texto destaca a reação de Maria como mais profunda, com menos surpresa e mais reflexão. Afinal de contas, ela já estava habituada às maravilhas de Deus, pois foi a primeira destinatária do anúncio salvífico através do anjo Gabriel (cf. Lc 1,26-38) e assistira à exaltação de Isabel quando a visitou (cf. Lc 1,39-52). No entanto, ela não deixará de maravilhar-se, pois a trajetória de Jesus lhe trará outras surpresas, como no episódio da apresentação no templo, quando ela e José ficam admirados com o que se dizia do menino (cf. Lc 2,33). A sua reação de Maria é diferenciada, pois nela o evangelista está construindo a imagem da discípula modelo: “guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19). O verbo grego traduzido por meditar é συμβαλλω – symbálô, o qual possui um significado muito mais profundo do que meditar; literalmente, significa “colocar junto”, “unir”, “reunir”.

Certamente, a meditação de Maria consistia em relacionar os acontecimentos do presente com as ações libertadoras de Deus ao longo da história, como ela mesma já expressara no Magnificat (cf. Lc 1,46-55) e experimentara em sua vida. É exatamente aqui que ela se sobressai sobre os demais ouvintes, porque ela guardava, ou seja, escutava com atenção tudo o que os pastores tinham dito, e juntava com o que já sabia: as palavras do anjo Gabriel e as declarações de Isabel, e o histórico de Deus em favor dos pobres e humildes. Aquela que já era mãe, inicia agora uma nova etapa, o discipulado, e isso ela vai fazer ao longo de toda a sua vida e a de Jesus; ao invés de ver os fatos isoladamente, ela vai juntando cada um, unindo as peças e percebendo, no seu coração, que a história da salvação está sendo reescrita com novos parâmetros, uma inversão de ordem: os últimos, como ela e os pastores, passaram a ser os primeiros. E é essa a prova de que o Reino de Deus, de fato, irrompeu na história.

Tendo comprovado e visto que tudo o que lhes tinha sido anunciado era verdade, “os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus” (v. 20). Realmente, não faltavam motivos para os pobrezinhos dos pastores glorificarem a Deus! É importante lembrar que a alegria e o louvor são traços bem característicos de Lucas; quem faz a experiência do amor misericordioso de Deus reage louvando e glorificando. O louvor dos pastores mostra que, em Jesus, o abismo entre o humano e o divino foi eliminado; céus e terra foram unidos definitivamente. Cantar glória a Deus era função dos anjos no céu, que excepcionalmente desceram à terra e louvaram a Deus diante dos pastores (cf. Lc 1,13-14), mas logo retornaram para o céu. Agora, também aos pastores, os últimos da terra, tem esse direito. Temos aqui uma mudança completa de paradigma: o que era privilégio dos primeiros do céu, se torna acessível aos últimos da terra.

No final, vem evidenciado o papel importante de José e Maria na educação de Jesus, levando para a circuncisão conforme previa a lei e, ao mesmo tempo, a liberdade que tinham para seguir mais a Deus do que a Lei: “deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido” (v. 21). Ao dar um nome contrário ao que Lei previa, nome de parente próximo, Maria e José se declaram a favor da nova história que Deus está começando a escrever com a colaboração de homens e mulheres, principalmente os mais simples e humildes.

O significado do nome Jesus é “Deus salva”, porque agora a salvação entrou definitivamente na história, como o anjo tinha anunciado aos pastores: “Hoje, nasceu para vós um Salvador, que é o Cristo Senhor” (cf. 2,11). Portanto, hoje, especialmente, é mais do que justo recordarmos a Mãe desse Salvador, e seguir seu exemplo de discípula fiel.
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