16. Oração do matuto


Ó, Deus,
Nóis tá sempre pedindo as coisa pro Sinhô.
Nóis pede dinheiro,
Nóis pede trabaio,
Pede pra chovê.
E se chovê demais,
Nóis pede pra pará,
Pra mode a coiêta num afetá.
Nóis pede amô,
Nóis pede pra casá,
Pede casa pra morá.
Nóis pede saúde,
Nóis pede proteção,
Nóis pede paiz.
Nóis pede pra dislindá os nó
Quano as coisa cumprica,
Mode a vida corrêmió.
Quano a coisa aperta nóis reza,
Pedindo tudo que farta.
É uma pedição sem fim.
E quano as coisa dá certo,
nóis vai na igreja mais perto
E no pé de um santo que seja de devoção
Nóis deixa sempre uns merréis
E lá no cofre da frente,
Nóis coloca mais tostão.
Mais hoje meu Sinhô
Bateu uma coisa esquisita
E eu me puis a matutá.
Nóis pede, pede e pede
Mais nóis nunca pregunta
Comé que o Sinhõ tá.
Se tá triste ou tá contente.
Se percisa darguma coisa
Que a gente possa ajuda
E por esse isquicimento
O Sinhô tem que adiscurpá.
Ó Deus, nóis sempre pensa
Que o Sinhô num percisa de nada.
Mas tarvez num seja assim
Travez o Sinhô percisa de mim
Sim, o Sinhô percisa sim
Percisa de minha bondade
Percisa de minha alegria
Percisa de minha caridade
No trato com os irmão.
Nóis semo seu espeio
Nóis semo a sua criação
Nóis num pode fazê feio
Nem fica fazendo rodeio
Nem disapontá o sinhô
Nem amargá o seu sonho
Que foi um sonho de amô
Quando essa terra todinha criô
Ó Deus, eu prometo
Vô rezá de ôtro jeito
Vô pará com a pedição
E trocá milagre por tostão
Tarvez eu inté peça uma graça
Mais antes vô vê direitinho
O que é que andei fazendo de bão
E se nada de bão eu encontrá
Muito vô me envergonhá
E ainda vô pidi perdão.
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